HOUVE ELEIÇÕES – UM COMENTÁRIO DE JÚLIO MARQUES MOTA – II

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(conclusão)

PS e a sua campanha

O PS é um partido dito do arco da governação que pretende respeitar milimetricamente os acordos de subserviência impostos a toda a Europa pelo bando dos quatro: Draghi, Schäuble, Merkel, Juncker. Definido pois o quadro em que se situa. Neste quadro esgotou ao limite os limites da imaginação com o texto de Centeno e colegas. Aplicado, daria a mesma coisa que não ser aplicado: não saiamos de modo nenhum para o crescimento num quadro recessivo europeu e mesmo mundial. Pensar crescimento com a Europa como está e somente com retoques no programa de austeridade só para líricos e nos tempos de pesadelo que atravessamos, não há espaço para tais lirismos. No quadro ideológico em que se situou o PS com o seu programa diríamos que bloqueava o discurso catastrofista de Passos e comparsas, procurava captar o eleitorado ao centro mas não à esquerda, excepto por medo no que se refere a esta. Aqui duas notas. A primeira foi claramente visível quando Passos Coelho quis encostar Costa a Sócrates. Foi magistral a resposta de Costa: vá falar então com Sócrates. Segunda nota e esta mais importante: o centro está reduzido a uma massa de gente à direita, conservadora, de alguns rendimentos e que tem medo que a saída da austeridade lhos possa levar. O resto que foi centro político desintegrou-se ou radicalizou-se.

Um pequeno apontamento tirado do dia-a-dia. No dia de eleições passo pela Elísio de Moura. Lembro-me de uma amiga que mora por ali. Telefono-lhe a dizer que vou votar e que gostava de tomar café com ela perto do local das eleições, não longe da casa dela. Trata-se de uma amiga minha, uma mulher separada, com uma filha da idade da minha neta, de rendimento mínimo como salário, com um dia de folga por semana, em que por ser folga, faz serviço de mulher-a-dias. Uma mulher na força dos seus 35 anos, cansada do trabalho fora de casa e de tudo o que tem de fazer em casa, todos os dias, sete dias em sete. Uma mãe dedicada que encontra por esta via mais uns cobres para fazer a alegria da casa e da filha também. Uma mulher que assim não terá nem desejo nem tempo para se rebolar com alguém nas curvas do prazer e da vida. Apenas trabalho e obrigações de casa ou profissionais. Responde à minha mensagem no dia seguinte. Pergunto-lhe meio a rir se votou bem. A resposta, implacável: deixar de acreditar na política, nos políticos. Reajo, digo-lhe que não é assim. Dê-me uma razão. Olho nos olhos, uma espécie de desafio do lado de lá, respondo-lhe: por raciocínios destes é que estamos assim. Tenho 3x anos. Nunca me deram nada, mas também me levaram pouco, porque pouco é o que me poderiam levar, foi o que me retorquiu.

Gente de salário mínimo, gente de vida madrasta, gente a quem a sorte virou as costas, gente que virou ela própria as costas à política: por aqui uma grande faixa das abstenções, gente que o PS no quadro do modelo em que sitiou na campanha não poderá nunca canalizar para as mesas de voto.

Mas reconheçamos, sem que a Europa lhe dê margens, Costa tentou encontrar folgas para o seu discurso, ao limite do que seria pensável. Honra lhe seja feita.

Ao limite do pensável, digo eu. Um pequeno acidente. Um amigo meu, um ano mais velho que eu, que já não sou nada novo, tem um enfarte cardíaco. Uma sexta-feira. Chama-se a ambulância vai para o Hospital Central. Médicos velhos, dos que inspiram confiança, nem um só para amostra. Era uma sexta-feira, jovens médicos. Tem medo, mas que fazer? É intervencionado. É-lhe colocado um cateter. No final da intervenção é preciso adesivo de qualidade para segurar a agulha. Estamos num Hospital central. Não há adesivo de qualidade. É utilizado um adesivo de má qualidade. De noite este meu amigo tem um enorme pesadelo. Tem um filho que nessa noite iria ser ele intervencionado num outro hospital. Profissão desempregado e viveu horas de ansiedade a querer saber como decorreu a intervenção cirúrgica. Soube. De madrugado sonhou com o outro filho, de quarenta e tal anos, antigo dono de um restaurante, fechado pela crise em Lisboa, a procurar emprego no estrangeiro. Pelas 4 da madrugada sonha que a mulher está ao seu lado a gritar-lhe: Manel, o teu filho está bem! Acorda então, mas como é possível a minha Fernanda estar aqui, acorda ele interrogando-se como é que a mulher poderia estar ali. Abre os olhos. Um pesadelo, bolas, pensou. Sente-se todo molhado, levanta aa colcha que tem por cima. Descobre, descobre que a cama é um lago de sangue! Toca a campainha e o resto não é necessário descrever. Um pesadelo salvou-lhe a vida, porque no hospital central de uma grande cidade deste país não há adesivo de qualidade para estancar o sangue de um operado!!! Diz-me, sabe, eu não posso morrer. O senhor sabe. Ouvi-o. Pus-lhe a mão sobre o joelho. Eu sei, penso que sei, penso que estou nas mesmas condições, também não posso morrer.

Drama de país com filhos desempregados, drama de avós com netos a crescer e com os pais sem meios. Simples, mas a crise já passou, dizem-nos. Um pesadelo salvou-lhe a vida! Não somos como na Grécia, diz-nos a Coligação. A crise já passou, diz-nos Delgado, os Delgados subservientes às teses da Europa, num país a ficar desertificado de gente jovem à procura de emprego por essa Europa. Desertificado e sem política de apoio à família. Nós não estamos como na Grécia, repetem-nos até à exaustão. Nós, país de filhos desempregados, nós avós, pais de filhos sem rendimentos, e com netos por criar, nós não podemos morrer, lição dolorosa daquele homem, naquela noite, no hospital, quando estava afundado num mar de sangue, por causa de um adesivo e sentiu que a morte rondou o seu leito. Nós não estamos na Grécia, dizem-nos, mas não podemos morrer porque somos o apoio da família. Uma equação bem simples, portanto.

Um exemplo porque não se pode morrer, retirado de um texto de Boaventura Sousa Santos de Agosto de 2015 :

Vejamos este caso recente de uma jovem da classe média caída de modo abrupto na pobreza: mãe de duas filhas menores, ambas a seu cargo, está desempregada sem receber qualquer tipo de subsídio de desemprego ou qualquer outro rendimento colateral. Solicita à Segurança Social (SS) o rendimento social de inserção (RSI). Pedido indeferido. Razões: por um lado, em relação a uma das filhas, como os avós constituíram uma conta na Caixa Geral de Depósitos, onde vão depositando dinheiro que estará disponível quando ela tiver 18 anos, isso é considerado rendimento disponível apesar de…só estar disponível daqui a uns anos. Por outro lado, em relação à outra filha, considera-se que a pensão de alimentos que ela recebe é considerada rendimento da mãe… mesmo que por lei a pensão esteja consignada às despesas específicas da filha.

Esta mãe, como qualquer outro cidadão comum na situação dela, não percebe o comportamento da SS e acha que, além de injusto, é ilógico. No entanto, por maior que seja o desamparo em que se encontra, a sua voz será abafada contra o muro burocrático, hostil e persecutório em que a SS se está a transformar. O seu caso será sempre um caso individual e, portanto, irrelevante, mesmo que milhares de casos semelhantes afectem outros tantos milhares de cidadãos. O Estado burocrático, impessoal, não se deixa impressionar por dramas pessoais, individuais. Em tempos de imposição de austeridade aos cidadãos mais vulneráveis, qualquer pretexto é bom para reduzir os encargos do Estado, por mais ilógico e injusto que seja. O silenciamento estrutural do cidadão ferido nos seus direitos decorre de o Estado poder continuar a proclamar-se Estado social enquanto sub-repticiamente se converte em Estado antissocial.

Pois é, tal como na Grécia afinal. Ora em tudo isto a voz do PS não se soube fazer ouvir no quadro do modelo institucional em que se situava. Não podia, mas poderia ir ao centro político buscar votos. Descobrimos agora pelo exemplo acima que parte dele desapareceu. Não houve sequer os políticos.

Creio pois que António Costa fez a campanha possível e o melhor que seria possível, esquecendo um ou outro detalhe como é o caso dos cartazes. Querem agora o seu sangue. Argumento: o ditado popular de que quem com ferros mata com ferros morre. No interior do PS nunca votei Costa, estou pois à vontade para não ser acusado de conflito de interesses. Discordei publicamente da morte política de Seguro. Discordo portanto que se faça o mesmo com Costa e então pelo argumento que também foi o que ele fez. A política deve ser reflexão e acção a partir desta e não um mar de vinganças e de conceptualizações teóricas para as justificar. Há sim que discutir e abertamente um conjunto de questões a que no PS toda a gente tem feito tábua rasa, o euro, a financeirização da sociedade, a fragmentação social, a destruição de estruturas sociais e económicas que levaram décadas a fazer e que num abrir e fechar de olhos foram destruídas, destruição sobretudo agora mas também muitas delas com a governação de Sócrates. Veja-se a desgraça do que se passa nas Universidades, por exemplo. Esconder a realidade, é uma atitude que se faz pagar caro, muito caro. É preciso abrir as janelas, arejar a política.

Em suma, no quadro em que o PS funcionou, no quadro em que a Coligação funcionou, eu diria, possivelmente contra a maioria dos comentadores, que o PS perdeu, mas contra dois partidos, contra toda a direita, quando ele é apenas uma parte da esquerda. Sendo assim, sinceramente eu diria que António Costa ganhou e creio mesmo que as tentativas anunciadas de facas longas serão sim, uma vingança pessoal, de gente de Sócrates e de gente de Seguro, nada compatível com a visão de socialismo que deve enformar o PS tanto mais ainda quanto cabe agora a António Costa o difícil papel de tentar domesticar a direita pura e dura que destruiu este país. Nada fácil e os meus votos de sucesso nesta difícil tarefa, porque ela pode ser muito mais que simples mediador. Parabéns a António Costa pela campanha produzida e também pelos resultados obtidos. Relembremos Marx e as circunstâncias do 18 de Brumário: são os resultados que as circunstâncias permitiram. Se assim não é, digam como se faria melhor.

Não posso deixar de concluir esta crónica com a minha discordância face a Pacheco Pereira, ontem. Costa não poderia ir mais para a esquerda do que foi, perdia os votos do centro-esquerda para a direita quando esta teria que ser considerada o adversário principal e não obtinha parte dos que lhe fugiram para essas bandas. E daqui saúdo as gentes do Bloco de Esquerda e da CDU pela campanha feita e pelos seus resultados.

Coimbra, 5 de Outubro de 2015

Júlio Marques Mota

Ver a parte I desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:

HOUVE ELEIÇÕES – UM COMENTÁRIO DE JÚLIO MARQUES MOTA – I

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