9. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Troikofágico I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques

Revisão Flávio Nunes Mota

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia-Uma análise social diária da crise grega

1

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015.

 

9. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Troikofágico

2

Os acontecimentos precipitam-se até se encaixarem. Aquando do seu discurso face ao Parlamento, domingo 8 de Fevereiro, Alexis Tsípras insiste quanto à sua  obrigação política e moral: não se desviar do programa sobre o qual foi eleito. As suas prioridades: enfrentar a crise humanitária, restaurar a dignidade humana, popular e nacional, “o nosso grande critério não negociável, é o interesse nacional”, insistiu. Contudo, a porta permanece aberta à negociação com os parceiros na UE, dirigentes neoimperiais alemães inclusos.

3

Negociar. “Quotidien des Rédacteurs” février 2015

 

Não temos nada contra a Alemanha, salvo que a sua política que tem sido feita relativamente a nós, põe-nos grandes problemas. Gostaríamos de fazer compreender à Alemanha que ela não é a nova Roma, mas um país forte, um país interessante e, esperemo-lo, amigo para com a Grécia. Estas políticas da austeridade não podem continuar a ser aplicadas porque são destrutivas e consequentemente, nós não as iremos continuar a aplicar. Estes políticos (Alemães, etc.), em vez de dizerem aos seus povos que estas políticas são com efeito desastrosas, pretendem pelo contrário que estas sejam vistas como estando coroadas de sucessos, e que o problema reside pura e simplesmente na ideia de que nós apenas não queremos é pagar”, declarou o nosso ministro dos Negócios estrangeiros, (“Quotidien des Rédacteurs” de 10 de Fevereiro). Nikos Kotziás vai na terça-feira, 10 de Fevereiro, a Berlim e na quarta-feira imediatamente a seguir vai a Moscovo, para duas visitas oficiais importantes; não escolhe então certamente as suas palavras ao acaso. Recordar-se-á, não sem um certo escárnio histórico, da expressão “Moscovo, terceira Roma” que resume esta teoria política que quer que Moscovo, depois de se ter tornado a capital do único Estado independente ortodoxo, teria recebido como missão de proteger a fé ortodoxa e as tradições da Roma imperial (primeira Roma) após a queda de Constantinopla ( segunda e nova Roma) em 1453. Em todo caso, a nova geopolítica da Grécia na Europa, de resto bastante próxima da do Gaulismo sob muitos aspetos, vem obrigatoriamente fazer concorrência ao tristemente único europeísmo atual, o do totalitarismo bancocrata, suposto procedente de Carlos Magno e, por conseguinte, vindo de longe!

4

Yanis Varoufákis, o Troïkofágico . Imagem (muito) popular. Grécia, Fevereiro de 2015

Yanis Varoufákis, le Troikofágico segundo uma recente imagem popular (…) eletrónica, representará então esta nova Grécia no Eurogrupo de Bruxelas (…) e Carolíngios novos. Este mesmo momento (quarta-feira 11 de Fevereiro), os Gregos (como numerosos outros Europeus) ocuparão as ruas e as praças aos milhares para dizerem “não” ao europeísmo austeritário e talvez também, ao europeísmo em geral . Paralelamente, Panagiótis Lafazánis, porta-voz da Corrente de esquerda no seio de SYRIZA, corrente esta que não se opõe a uma saída da Grécia da zona euro, bem pelo contrário, (e) atual ministro da Reestruturação da produção, do Ambiente e da Energia, vai esta semana a Pequim após convite do Primeiro ministro da República Popular da China. Entretanto, o ministro Panagiótis Lafazánis, vem anunciar a cor vermelha, quanto à política do seu ministério, num discurso pronunciado frente ao Parlamento, na terça-feira 10 de Fevereiro: “Podemos fazer economias de aproximadamente 20% à 40% no que se refere à produção da energia elétrica. É assim que contamos reduzir tanto o custo ao nível dos cidadãos. É também evidente, que qualquer privatização do setor será doravante proibida e que faremos então tudo para recuperar as estruturas já privatizadas” declarou.

5

Alexis Tsípras diante do túmulo do memorando e do seu vampiro. Imprensa grega, Fevereiro de 2015.

 

A Grécia está em mudança. “Temos apenas um e um só compromisso – servir os interesses do povo, o bem da sociedade”, disse-nos Alexis Tsípras, visivelmente comovido na Assembleia, acrescentando que esta é “a decisão irrevogável” do seu governo, nomeadamente, pôr em prática as promessas de campanha “na sua integralidade”. O Primeiro-ministro disse que o governo não procuraria uma extensão “do plano de resgate ” da Grécia, notando que isso seria equivalente à uma extensão dos erros e das catástrofes, e assim reiterou os pedidos gregos para uma fase de transição (“programa-fonte”) até que “um acordo mutuamente aceitável” seja atingido com os credores. “Não temos a intenção de ameaçar a estabilidade na Europa”, precisou, acrescentando contudo que não negociará a soberania do país. “O nosso país não recebe mais ordens enviadas por correio eletrónico”, reafirmou (ver também sobre o assunto em epigrafe: okeanews.fr).

6

Referência aos “Sitiados -Livres” de Missolonghi. Fevereiro de 2015

 

7

A nova Grécia através de uma parte da imprensa francófona. Fotos de amigos do blog  greekcrisis. França, Fevereiro de  2015

8

A nova Grécia através de uma parte da imprensa francófona. Fotos de amigos do blog greekcrisis. França, Fevereiro de 2015

 

Não sem razão, a imprensa mesma histórica e histérica pró- Troika, a exemplo do diário “Ta Néa”, tem agora uma “caixa jornalística” sobre “Sitiados – Livres” da cidade de Missolonghi, que deve sobretudo à sua celebridade, aos cercos que sofreu durante a guerra de independência grega em 1822-1826, e à personalidade do Filleleno inglês Lord Byron que nela morreu.

 

(continua)

Leave a Reply