(conclusão)
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Chegados aqui, deixem-me aqui retomar não o texto de Régis de Castelnau, da Revista Causeur, dedicado a Alexis Tsipras e escrito a 3 de Julho de 2015 e por nós retomado numa Carta aberta A António Costa e aos socialistas de todos os quadrantes, mas um outro texto, do mesmo autor e também ele dedicado a Alexis Tsipras escrito a 5 de Outubro de 2015, adaptando-o à situação portuguesa, e desta forma mantemos o paralelo entre a situação portuguesa e a grega:
A minha modesta indicação a António Costa pôde gerar um equívoco. Porque eu não o convidava a tornar-se um herói, ele é-o já pela frente de Esquerda alcançada e capaz de abater os muros financeiros de Berlim virados para os países da periferia ou de os ajudar a bater num quadro de mudanças que pode ajudar a criar pela Europa cansada e exausta pelas políticas de austeridade. Uma outra forma de atacar o buncker alemão, trabalho em que Tsipras claudicou. Talvez agora se tenha mais sucesso tendo em conta as fendas já abertas nesse muro e de que nos falam os textos que agora apresentamos. A ver vamos. Armado das citações de Borges, de Péguy e de Gaulle, pedia-lhe nessa carta aberta que fosse “o homem do destino” em Portugal e em 2015. O que não é a mesma coisa.
A diferença? É a que salta aos olhos quando se estuda a aventura da França livre. Charles de Gaulle foi “o homem do destino”. Os que, os que tinham na altura vinte anos, se comprometeram sob as suas ordens, heróis. Churchill, a 12 de Junho de 1940, confrontado com o desleixo do governo francês, cruzou-se com de Gaulle num corredor e apontando-o a dedo perguntou-lhe: “o homem do destino?”. Intuição genial e início de muitos incómodos para Churchill, que teve de suportar seguidamente este incómodo “rei no exílio”. A partir deste dia, de Gaulle soube que lhe cabia encarnar a França. E por isso vir a ser de Gaulle. Contra o mundo inteiro. Foi um caminho longo e difícil que encontrou a sua consagração apenas a 24 de Agosto de 1944. Quando lhe perguntaram como foram estes anos de Gaulle respondeu apenas com uma só palavra: “terríveis! ” Os heróis da França livre sobreviventes, confessam pelo contrário que foi uma maravilhosa possibilidade de participarem nesta aventura.
Retenhamos um de entre eles. Jacques Chaban-Delmas, general aos 29 anos que recebeu de Gaulle com Leclerc na estação Montparnasse a 23 de Agosto de 44. Uma muito longa carreira política no pós-guerra, presidente da câmara municipal, deputado, Presidente da Assembleia Nacional, Primeiro Ministro. Falhará o destino nas presidenciais de 1974. Coberto de condecorações, coleccionando igualmente os títulos desportivos. De acordo com o seu desejo, sobre o seu túmulo há apenas o que ele quis que se retivesse da sua vida: “Jacques Chaban-Delmas. Companheiro da Libertação”. Para o herói, a vida é demasiado longa.
António Costa deve tornar-se este homem do destino de que Portugal tem necessidade. Evidentemente, não se trata de o comparar a de Gaulle. Seria ridículo. Mas recordar que não está no seu lugar para levar o seu povo ao massacre e com isso nos dar prazer. Está lá para restaurar a política num país sempre em situação difícil desde há muitos anos, martirizado durante décadas a suportar depois uma feroz ditadura. Incorporado na CEE altura, num quadro já multilateralizado de trocas comerciais, para procurarmos um porto de abrigo e de apoio para sairmos do subdesenvolvimento em que a ditadura nos tinha colocado, entrando para uma zona aparentemente protegida. Mas a Europa arrastada pelos ventos do neoliberalismo passo a passo foi cedendo, cedendo aos arautos da globalização e na ordem directamente proporcional em que iam esfumando a democracia, até se chegar à ditadura dos mercados e das Instituições Europeias! O famoso triângulo das incompatibilidades de Rodrick fala nisso, porque é impossível haver simultaneamente globalização, espaços regionais autónomos e aprofundamento da democracia nestes mesmos espaços. Três características impossíveis de se verificarem em conjunto, ou antes, características que apenas se podem agrupar duas a duas. No caso presente a situação é caracterizada por global e UEM, ou à custa do abandono da democracia: é o mercado global como opção.
É neste contexto que as forças de esquerda assumem um papel histórico hoje na Europa, depois de sacrificados Syriza e Alexis Tsipras, reformulando pois os termos em que se pode afrontar a lógica de Juncker acima exposta e o buncker financeiro do Bundesbank e dos neoliberais alemães, com Schäuble à cabeça. E a direita, nacional ou europeia, teme essa posição, para eles, habituados a viver da divisão e da corrupção, é pois o terreno da verdadeira política que os assusta e não hesitarão em utilizar todos os meios possíveis para nos bater a todos nós que votámos contra a austeridade. E para preencher esta primeira missão devem os lideres da coligação de esquerda ir ao encontro do seu povo e convencê-lo de que podem encarnar Portugal, de que eles podem encarnar as aspirações legítimas das suas gentes.
Para responder à questão: “o que é uma comunidade? ”, Hobbes foi levado a interrogar as condições ontológicas de um povo. Substituindo, para a condução deste, a representação à encarnação que prevalecia até então. Mas misteriosamente, esta permaneceu bem viva, acrescentando a função de simbolização à da representação. Isto reenvia-nos a uma capacidade específica: a de aparecer como uma força de interpretação da realidade. Construindo um processo de identificação que esclarece, tranquilizando, protegendo e dando uma imagem credível à ideia de nação. Max Weber teria chamado a isso a dimensão carismática de governo “de uma comunidade emocional”. Mas este poder de encarnação não é um dado. É necessário querê-lo e construí-lo.
Foi isto que esteve em jogo neste mês de Outubro em Portugal, um país que sofre com uma austeridade insuportável mas que quer permanecer unido ao continente europeu, até por força das condições da unidade encontrada na coligação de esquerda. Primeiramente, em cada um destes três partidos, cada um dos seus dirigentes agarrou-se à tarefa de construir com o seu povo e em especial com o seu eleitorado a relação que lhe permitirá ter a sua confiança. E a partir daqui que se lhes reconheça a faculdade de o encarnar num período tão carregado de perigos, como hoje já salta bem à vista até mesmo para quem quer ser cego, politicamente. Porque sabemos que vão ter mesmo necessidade desta confiança, o mesmo é dizer do nosso apoio político. Não o recusemos pois a estes homens e mulheres, líderes da coligação à esquerda que carregarão à frente de todos nós o estandarte da liberdade e da dignidade através deles recuperada.
Como sublinham Ambrose Evans-Pritchard, Philippe Legrain, Jacques Sapir, Yanis Varoufakis, Michael Pettis, Frédéric Lordon e tantos outros, não há saída da crise no quadro actual das políticas da UE. Parafraseando Frederic Lordon podemos dizer relativamente a Portugal: “É claro hoje que não há futuro para Portugal a tanto quanto permanecer na zona euro e enquanto não fizer incumprimento sobre uma parte importante da sua dívida. Isto começa a dizer-se tanto no FMI como nos corredores da União europeia. O processo português continua a estar, portanto, sobre a mesa. ”
Será duro o caminho a percorrer na calçada completamente irregular da União Europeia onde, ironia, cada caso é um caso, e assim onde em nome das regras parece não haver regras, onde esquina a esquina nos iremos todos deparar com obstáculos terríveis, será longo o caminho em tempo a percorrer e difícil na complexidade dos problemas a resolver, como o expressa a colectânea de textos agora apresentados, será um caminho longo a percorrer na prossecução dos objectivos prometidos ao povo português. Nesse sentido, não nos esqueçamos de que as forças inevitáveis da História estão já a desagregar os vectores de força com que as Instituições se tem conduzido a sugar o sangue dos países da periferia. Talvez a curto prazo se venha a falhar com a Coligação à esquerda, mas a esta mesa está Portugal, a esta mesa estará a Coligação de Esquerda na pessoa de António Costa sobretudo, a representar Portugal, e a essa mesa passarão a estar igualmente outros países condenados pelo monstro criado por Bruxelas com as suas Instituições. Se tal acontecer será porém mais uma brecha no bunker alemão que será aberto e historicamente tudo isso funcionará a favor dos milhões de precarizados desta Europa temporariamente sujeita a uma espécie de maldição. Mas poderá haver sempre uma oportunidade de poderem virar a mesa de baixo para cima: tudo depende da força dos presentes e não nos esqueçamos do que nos lembra o texto de Jacques Sapir:
“A natureza profundamente antidemocrática do Eurogrupo e da União Europeia afirma-se uma segunda vez e confirma-se. Seria necessário sermos cegos para o não ver. Contudo, esta vez poderá muito bem ser a vez a mais. Mas, para que assim seja é imperativo que todas as forças decididas a lutarem contra o Euro encontrem formas adequadas de coordenação das suas acções. É necessário aqui lembrar-nos do que Boétie escreveu no Discours de la servitude volontaire publicado em 1574 (3): “os tiranos só são grandes porque nós estamos de joelhos”.
Poder-se-ia então retomar esta fórmula, que nos parece tão contemporânea, e reformula-la da seguinte forma: “As instituições europeias são grandes apenas porque (os soberanistas) estão divididos”.
Não lhes recusemos pois, a estes homens e mulheres da Coligação de esquerda, não lhes recusemos a nossa confiança, digamos-lhes, alto e bom e som, que estaremos com eles quais quer que sejam os resultados a serem alcançados, certos de que alcançarão o possível.
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Para ler a Parte I desta CARTA ABERTA AOS NOSSOS ARGONAUTAS E A TODOS AQUELES QUE O NÃO SÃO E O PODERÃO VIR A SER, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:
Para ler Carta aberta A António Costa e aos socialistas de todos os quadrantes, de Júlio Marques Mota, vá aos links seguintes:
CARTA ABERTA A ANTÓNIO COSTA E AOS SOCIALISTAS DE TODOS OS QUADRANTES, por Júlio Marques Mota – I
CARTA ABERTA A ANTÓNIO COSTA E AOS SOCIALISTAS DE TODOS OS QUADRANTES, por Júlio Marques Mota – II


