GOVERNO DE ESQUERDA – A OPINIÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA

júlio marques mota

Meus caros

Acabo de subscrever uma declaração de apoio a que se respeite o voto e se forme um Governo de Esquerda. Podem  ler – e assinar, se concordarem – em: http://esquerda.link/   Pela Dignidade, Justiça e Solidariedade.

Vejamos em síntese as razões da minha assinatura:

Acredito no governo de esquerda? Acredito em quê? Acredito que seja indigitado? Acredito que se aguente depois? Vamos por partes.

  1. Não acredito que seja viável ser indigitado, sequer. Não acredito que o seja, não acredito que Cavaco ceda face ao que ele próprio disse. Quanto ao que disse, um economista australiano de referência, Bill Mitchell,  sintetizou-o  no seguinte: “a democracia está a morrer em Portugal”. Mas o facto de Cavaco não aceitar a coligação  à esquerda , não é razão para dela se  desistir, antes pelo contrário, é mais uma razão para nela se insistir.  Entretanto, Passos Coelho mantém-se, mesmo que diga que não o fará, em regime de gestão. Até quando?

  1. E entretanto a Troika de fora procurará afanosamente uma solução para a Troika de dentro, constituída por Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva.  E Assis aponta-se no horizonte para ser o homem de Bruxelas, um pouco como To Potami na Grécia o foi, um partido à mão, uma tendência à mão, com uma função imediata: semear a divisão e tentar impedir a coligação.  Mas admitamos  que  não o consegue e Cavaco é então “obrigado” por Bruxelas a dar posse a António Costa, com a ideia de que as Instituições irão  utilizar depois o arsenal de armas  mortíferas, VÀRIAS VEZES JÀ UTILIZAZADAS,   a linha de ataque do homem da Goldman Sachs, Mario Draghi, para fazer , em primeiro lugar vergar a Coligação à esquerda   aos ditames do colete de forças que são as Instituições e depois de a vergar, fazê-la explodir. Passar-se-ão nisto alguns meses e poderá depois haver eleições.  Relembro a queda de Papandreou, relembro a queda de Berlusconi, relembro a nomeação de Monti, entre outras.

  1. Em síntese, não acredito que seja indigitado, mas admitindo-se que o venha a ser , não acredito que o deixem durar muito tempo, a menos que não o consigam destruir. Desistir de assinar, então?  Nem pensar e porquê? Porque um   país não fez de desistências, faz-se de resistências, faz-se de insistências de lutas pela defesa dos seus valores. Ora a hipótese de uma coligação à esquerda é um sinal claro de resistência   à destruição deste país organizada pela Troika de fora, as ditas Instituições Europeias,  e pela Troika de dentro.

  2. Porém, consideramos agora a segunda hipótese  aparentemente muito pessimista de que a Coligação de Esquerda chega a tomar posse e cai muito pouco depois. Cairá necessariamente como é dito no paragrafo 2 acima?  A história não é assim tão linear, ou pelo menos pode mesmo  não ser sequer linear. Os ventos actualmente não correm de maré para a Imperial alemã, o único país que pode decidir  unilateralmente o quiser, à face de  e contra todos os tratados, como o tem feito ao longo da crise dita dos refugiados. E podem-se começar a abrir várias brechas no muro das Instituições.

Conclusão.

Um  dado importante,  a Itália não vai respeitar as regras dos Tratados  e ameaça, caso este não seja aprovado por Bruxelas, de voltar a apresenta-lo EXACTAMENTE na mesma.  Nada disto é já por  acaso.

Relativamente ao orçamento italiano para 2016 creio que vale a pena ler o que nos diz, de forma bem delicada,   a agência Reuters  :

“ Matteo Renzi declarou à imprensa que este orçamento [ de 2016]  permitiria ao país tornar-se exactamente um país “mais simples e  mais justo”.

 “Este ano, não somente os impostos não aumentarão, mas vão diminuir”, terá  ele  dito.

Deverá contudo redobrar os seus  esforços para convencer a Comissão Europeia. De acordo com os defensores  da ortodoxia orçamental, a retoma do crescimento  que se terá iniciado na Itália, após três anos de recessão, deveria incitar o governo a privilegiar a consolidação orçamental.

O projecto de orçamento 2016 não parece de resto respeitar os constrangimentos fixados na União Europeia, quer seja no que diz respeito à dívida quer no que diz  respeito ao  défice “estrutural”, défice corrente ajustado em função das  flutuações do crescimento. Em vez reduzir o défice estrutural de 0,5 ponto de percentagem como estabelecido,  a Itália propõe-se com efeito aumentá-lo de 0,4 ponto percentual.

Como o ano último, quando Roma aceitou reduzir de cinco mil milhões de euros as despesas orçamentais, um compromisso deveria ser encontrado nas semanas próximas antes que a Comissão valide  o projecto de orçamento, que deve ser aprovado pelo Parlamento daqui do fim do ano.

No mês passado,  o governo levantou  o seu objectivo de défice para  2016 de 1,8% para  2,2% do PIB e reviu ligeiramente à alta a sua   previsão de dívida pública, a mais importante da zona euro após a Grécia, de 130,9% para  131,4% do PIB.”

Tudo claro, portanto quanto às regras vistas agora de Roma.

E Roma será possivelmente autorizado a ultrapassar as regras…Se olharmos para a França, temos o muito neoliberal Ministro da Economia em França, Macron,  a dizer que a Alemanha está a criar uma nova guerra religiosa como a dos 30 anos entre os protestantes do Norte e os católicos do Sul. E o medo de Marine Le Pen assusta-os a todos, a Macron e a Schauble. Numa Europa assim, e ainda por cima invadida por centenas e centenas de milhares de imigrantes, agora classificados de refugiados, as rachas no muro financeiro de Berlim começam a abrir e é por elas curiosamente que  a Coligação de esquerda pode respirar e resistir, se tomar posse, se os homens de Bruxelas como Assis não conseguirem matar a galinha antes de ela começar a pôr os ovos . São pois razões  para resistirmos e nos colocarmos ao lado dos lideres da Coligação à esquerda, garantindo-lhes a nossa confiança política, o nosso apoio, nas ruas mesmo, se for necessário, são pois  algumas das  razões que me levam a assinar a petição para que se forme um governo de esquerda.

Coimbra, 31 de Outubro de 2015

Júlio Marques Mota

1 Comment

  1. Ao lado mas na rua. Se os apoiantes desta coligação de esperança não descerem à rua muito dificilmente terão sucesso.CLV

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