AS PESSOAS LUTAM PARA SAIR DA PRECARIEDADE – uma montagem de JÚLIO MARQUES MOTA sobre um texto de SYLVIA ZAPPI (Le Monde) e o relatório anual do SECOURS CATHOLIQUE – I

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Selecção, introdução, montagem e tradução de Júlio Marques MotaSecours-Catholique-Caritas-FranceCáritas França - ILe Monde

Uma síntese em três números sobre a realidade francesa

A progressão da extrema pobreza em três números apresentada pelo Le Monde, num trabalho de síntese feito por Sylvia Zappi

O Socorro Católico tornou público o seu relatório anual a 5 de Novembro. Um documento que mostra, uma vez mais, a acentuação da pobreza muito  grande em França. Sabia-se que a miséria estava a ganhar terreno na sociedade francesa com a crise. Sabe-se doravante que o fenómeno de grande pobreza atinge cada vez mais gente em França. Três números simbolizam esta situação.

535 EUROS

É, por mês, o montante do nível de vida mediano das 600 000 pessoas recebidas em permanências pelo  Socorro Católico em 2014.

Os três quartos das pessoas encontradas pela associação fazem parte dos 4 % mais pobres da população francesa. Têm um nível de vida inferior ao limiar de pobreza mais baixo – nível fixado pelo INSEE em 40 % do nível de vida mediano dos Franceses, ou seja 667 euros. Em 2014, este nível de vida refere-se à 2,1 milhões de pessoas.

43 ANOS

É a idade média do público acolhido em 2014 pelo Socorro Católico. Era de 41,7 anos em 2010. Se os adultos na flor da idade (25-39 anos) forem sempre os mais numerosos  a cruzar as portas das permanências de Socorro Católico, os 50-60 anos estão em nítida progressão, da mesma maneira que a parte das famílias sem crianças e a das mães sozinhas.

33,6 %

É a parte, em 2014, dos estrangeiros nesta categoria dos mais pobres. E esta parte progrediu muito, dado que era de 20 % em 2000. Mais da metade destes migrantes são sem estatuto (quer em espera de estatuto, quer sem papéis) e, desde há três anos, a sua situação “degradou-se muito claramente” devido ao alongamento dos prazos de tratamento dos processos, sublinha o relatório.

As pessoas lutam para sair da situação em que se encontram

Laurent Seux, director da acção França-Europa do Socorro Católico, retoma o tema da pobreza a partir de uma análise sobre os principais ensinamentos do Relatório estatístico de 2015 e desmonta certas ideias pré-estabelecidas relativas às pessoas que vivem em situação de precariedade.

Para as pessoas encontradas no Socorro Católico – Caritas de França, o nível de vida mediano penosamente aumentou de 35 euros (por mês) em quatro anos. As pessoas que conseguem trabalho vêem o seu poder de compra estagnar e os outros vêem as perspectivas de melhoria da sua situação reduzirem-se. Por fim, a parte das pessoas sem recursos financeiros aumenta.

Além disso, este relatório destrói uma ideia falsa largamente ancorada na opinião pública segundo a qual as pessoas inactivas de menos de 60 anos satisfazem-se com o regime “assistencial”. Constatamos pelo contrário no nosso inquérito que as pessoas em precariedade batem-se para sair da situação em que se encontram.

Entre as que não têm emprego e não procuram, quase 40% não podem trabalhar por razões de saúde ou de deficiência; 25% são estrangeiros que não têm o direito de trabalhar e que, geralmente, trabalham mas de maneira informal. Os outros são na sua maior parte na situação de reforma ou em pré-reforma, ou são mulheres sós com crianças e sem solução de guarda dessas mesmas crianças.

Pede-se aos pobres que façam esforços para saírem da situação em que se encontram. Suspeita-se até que estas às vezes se aproveitam das ajudas que lhes são dadas … Em suma, ser pobre, é ser malvisto (…) A solidariedade existe, mas tem-se a impressão de se estar a receber as migalhas de uma refeição para a qual nunca se foi convidado

Palavras de grupos de pessoas em precariedade interrogadas pelo  Secours Catholique-Caritas France.

QUANDO O ESSENCIAL É COLOCADO NA BALANÇA

Sobre o quê é que economizam as famílias precárias para saírem da situação de precariedade? No seu Relatório estatístico 2015, o Socorro Católico -Caritas de França interessou-se sobre estes “lugares de arbitragem”

“As famílias que têm dificuldades financeiras fazem arbitragens, explica Brigitte Alsberge, responsável pelas Solidariedades familiares em O Socorro Católico. E constata-se que não se trata para elas de fazer uma cruz sobre coisas “superficiais”, como se tem tendência a pensá-lo, mas de arbitrar entre despesas essenciais.”

Insiste: “Não estamos  no domínio do  anódino.” No seu Relatório estatístico 2015, o Socorro Católico comparou, posto por um posto, “o orçamento tipo” das famílias em situação de precariedade, definido a partir de respostas das famílias contactadas, com o orçamento “de referência” determinado pelo ONPES* e considerado pelo Observatório como um mínimo, item a item  para viver decentemente.

Observa-se que as famílias encontradas pelo Socorro Católico gastam mesmo muito menos que os montantes considerados no seu relatório pelo ONPES para os transportes, a cantina e a guarda das crianças, o vestuário, a vida social, a higiene, a saúde… Igualmente, são tantas as economias forçadas que têm impactos negativos importantes sobre a vida social, sobre a sua própria auto-estima  e sobre a saúde, que alimentam um sentimento de marginalização, ou mesmo de exclusão, que contribuem para a situação de isolamento.

Brigitte Alsberge sublinha também a dificuldade, ou a impossibilidade, para estas famílias de porem em prática estratégias no tempo para investir ou exactamente para saírem da situação de sobrevivência.,

O círculo vicioso dos ágios

No seu orçamento “de referência”, o Observatório nacional da pobreza e da exclusão social (ONPES) prevê que cada família gaste razoavelmente 7€ em despesas bancárias por mês. Realmente, as famílias em dificuldade encontradas pelo Socorro Católico gastam em média para este mesmo posto… 111 a 151 euros por mês.

“É um círculo vicioso, constata Brigitte Alsberge, responsável Solidariedades familiares ao Socorro Católico. Estas famílias à quem os bancos não atribuem empréstimos, terminam todos os meses na situação de vermelho e na situação em que têm dc pagar ágios e outras penalizações.”

(continua)

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Ver:

http://www.secours-catholique.org/actualites/la-pauvrete-en-france-notre-etat-des-lieux-2014

http://www.lemonde.fr/societe/article/2015/11/05/la-progression-de-l-extreme-pauvrete-en-france-en-trois-chiffres_4803334_3224.html

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