ANGELA MERKEL, A CHANCELER DA EUROPA – A UNIÃO EUROPEIA É A PARTIR DE AGORA ESTRUTURADA PELA HEGEMONIA ALEMÃ – por LUC ROSENZWEIG

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Angela Merkel - der spiegel

Angela Merkel, a chanceler da Europa

A União Europeia é a partir de agora estruturada pela hegemonia alemã

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Luc Rosenzweig, Angela Merkel, chancelière de l’Europe – L’Union européenne est désormais structurée par l’hégémonie allemande

Revista Causeur, 2 de Novembro de 2015

Obrigado à revista le Causeur, que autorizou amavelmente  a publicação por A Viagem dos Argonautas

Frau Merkel - III

O verão 2015 permanecerá talvez na História como o da revelação a toda a gente  de uma realidade que só uma  minoria de espíritos lúcidos até aí tinha  percebido: a União Europeia resume-se agora  à organização caótica da hegemonia alemão sobre o Velho Continente. Assiste-se à uma empresa de vassalização crescente  e de aparência benevolente  dos governos e dos povos por uma nação dotada de uma economia, de um sistema político e de uma classe dirigente mais eficiente e mais eficaz que os seus homólogos em todos os  outros países membros da UE.

Em todos  os domínios que alimentaram a actualidade deste período, “a razão alemã” impôs-se, por vezes com uma brutalidade forrada de uma  boa consciência, em detrimento dos interesses e das aspirações dos seus parceiros, que viram os seus governantes reduzidos ao papel de comparsas tentando  salvar um mínimo de dignidade e de proteger, à margem, os interesses materiais e morais dos seus mandantes.

A crise grega tem-se provisoriamente afastado da beira do abismo, uma saída desordenada deste país da zona euro seria um factor de desestabilização ou mesmo  do naufrágio da moeda única europeia. A Alemanha não está ainda  pronta, psicológica e economicamente, para enfrentar o choque que teria provocado este sismo. Mas a expulsão planificada de um país rebelde à adopção do ordoliberalismo germânico permanece uma opção possível, ou mesmo desejada, numa Alemanha que continua a estudar seriamente as suas modalidades técnicas e políticas. Toda a habilidade táctica de Alexis Tsipras, todas as fianças dadas aos carrascos de além-Reno e aos  seus auxiliares zelosos  ou forçados não terão nenhum efeito real: a confiança dos Alemães para com os Gregos está de modo duradouro, se não mesmo definitivamente, completamente  destruída. O drama antigo que se jogou entre Atenas, Berlim e Bruxelas confortou os líderes alemães na sua certeza inabalável de  que a zona euro não deve evoluir, como o sonham os euro-beatos, para um espaço de transferências e de solidariedade, à imagem de que se produz mais ou menos internamente em cada uma das nações que a compõem.

Confessemos: se fosse alemão, não seria totalmente insensível a  este ponto de vista. Quando os seus vizinhos, mesmo simpáticos e amigáveis, se servem do  “ crédito rating”, que eles, os alemães,  obtiveram pelo seu  trabalho e pela gestão cuidadosa do  seu respectivo orçamento público, para fazerem  mais ou menos não  importa o quê,  (reformas inflacionadas e largamente antecipadas, clientelismo desenfreado na criação e a atribuição de empregos públicos, incapacidade de cobrarem impostos), não é ilegítimo interrogar-se sobre a pertinência da sua manutenção num clube de pessoas sérias. Os afectos dos notários  ou dos merceeiros não são tão  desprezíveis quanto  os artistas peticionários nos querem fazer crer.  Sem notários nem merceeiros ou outros humanos a exercerem para viver actividades prosaicas, fontes de comportamentos vulgares,  os artistas não teriam os meios para dar livre curso à sua criatividade evidentemente sublime.

A crise grega por conseguinte trouxe  à luz do dia a inanidade de um pensamento que pretende que a Europa progrida de crise em crise para haver sempre mais integração, com o corolário de que o interesse comum da União ia gradualmente substituir-se aos interesses específicos dos Estados que a compõem. Esta crise saldou-se, de momento, pela melhor solução provisória que convém ao principal credor da Grécia, a Alemanha, enquanto que teria podido ser a ocasião para pôr em ordem o ideal de uma moeda única concebida como criadora de solidariedade para dentro e como factor de competitividade para  fora. A França, nesta questão satisfez-se com o  papel menor de segundo mais importante credor, por conseguinte forçado a seguir, de  boa ou má vontade, a estratégia errática concebida no dia a dia em  Berlim, por falta de poder imaginar  uma outra e de tecer as  alianças que permitissem  fazê-la  prevalecer. O que com o Zollverein se conseguiu e com sucesso, a construção da nação alemã,  no século  XX  isto   não se reproduzirá à escala europeia no século XXI.

Uma outra crise estival levantou a emoção hexagonal, e desesperou  ainda mais os campos de França: o desmoronamento dos preços da carne porcina e da produção leiteira. Esta crise foi conjunturalmente desencadeada pelas medidas defensivas de boicote dos produtos agrícolas da UE instauradas por Vladimir Putin  na sequência das sanções impostas à Rússia depois da questão ucraniana  mas isso  não fez mais do que acelerar  uma tendência largamente começada. O fim da política agrícola comum da UE (PAC), com efeito um proteccionismo organizado em prol dos produtos agrícolas intracomunitários, revelou a adição  dos agricultores franceses por este sistema de economia administrada, permitindo às explorações de dimensão média  escapar à concorrência do mercado mundial (e às grandes explorações fazerem trigo, tanto no sentido próprio como no sentido figurado). Para sobreviver na concorrência mundializada,  os criadores de porcos ou de vacas leiteiras  franceses deveriam ter seguido  o exemplo dos seus colegas neerlandeses ou dinamarqueses, abandonar a sua identidade campesina, agruparem-se e tornarem-se industriais da produção agro-alimentar, jogando com os mercados mundiais de custos da alimentação animal para permanecerem competitivos sobre o mercado interno e internacional. Ou então consagrarem-se ao desenvolvimento de nichos na produção de topo de gama, tornar-se produtores de Rolls Royce ou de Mercedes da comida, mas isto concebe-se e prepara-se bem a montante, e não num contexto de pânico existencial…

Ainda uma  vez mais, a gestão desta crise foi pilotada por  Berlim, via Bruxelas, no sentido mais favorável aos interesses alemães no sector. A Alemanha, com efeito, dispõe, por razões históricas, de vastas superfícies agrícolas na RDA, sem camponeses, logo sem problemas (1). Dispõem, além disso, com os Polacos, de uma mão-de-obra muito barata e toda ela muito próxima  para desenvolver produções de  forte valor acrescentado exigente em utilização de braços,  como a criação de  espargos,  por exemplo. Resultado: o leite a 25 cêntimos de euro o litro e a carne de porco à 1,25 euro o quilo, o que estrangula os Bretões… Os Franceses são pois convidados  gentilmente a desembrulharem-se com a cólera dos seus agricultores.

Por fim, resta-nos o grande negócio da vaga de migração para a Europa de populações que fogem da guerra que arrasa  todo o Médio Oriente, vaga à qual se encontram  misturados migrantes económicos originários dos Balcãs, do Magrebe e de África subsariana. Este episódio revelou a amplitude do mal-entendido  (para continuar a ser bem entendido e bem educado) que se instaurou nas elites politico- mediáticas francesas relativas ao julgamento e à  avaliação da atitude da  chanceler   Angela Merkel face a esta crise , e ocultado as suas consequências para o futuro da Europa.

Que desejava Merkel no início do mês de Julho, enquanto que, a favor de um verão clemente, as massas de refugiados se pressionavam   cada vez mais às portas da UE? Comunitarizar as regras relativas à gestão da imigração, até aí do domínio reservado das políticas nacionais. Como se deveria ter compreendido,   face aos exemplos precedentes, comunitarizar, para  Merkel e para os seus parceiros da coligação no poder em  Berlim, significa alargar ao conjunto da UE os critérios que convêm à situação alemã neste domínio. Por razões de ordem históricas e culturais, a presença, desde décadas, sobre o território alemão, de numerosos trabalhadores turcos, não interessados pela integração na Alemanha, não provocou angústias identitárias na maior parte  da sociedade alemã (com excepção do território da ex-RDA, mas este fenómeno permanece sob controlo) e não pesa no campo político. A RFA não conheceu, durante a sua história, nem motins de subúrbios, nem ataques terroristas, nem o retorno  cíclico dos incêndios de automóveis nos “bairros”. Os factores de delinquência ligados à imigração resultam essencialmente de um sistema mafioso procedente dos Balcãs, principalmente da Albânia e do Kosovo.

Berlim apressa-se por conseguinte a decretar que estes países são  “seguros”, excluindo assim estas populações do benefício do direito de asilo. Em contrapartida, ela está à procura do novo Homo economicus susceptível de ser um paliativo para o terrível défice demográfico de que o país  sofre desde há  um meio século.

Como a imigração intracomunitária não é suficiente para satisfazer as necessidades (os jovens desempregados qualificados da Europa do Sul preferem tentar a sua possibilidade na Grã-Bretanha, na América do Norte, no Brasil, na Austrália ou mesmo na França…), é necessário por conseguinte estabelecer regras que permitam à  Alemanha escolher o topo de gama  da força de trabalho em movimento. Ora acontece que a última vaga de refugiados sírios é “de boa qualidade”, de acordo com estes critérios. Compõe-se, em grande parte, de pessoas educadas, vindas em família, que venderam  os seus bens na Síria para financiar a sua viagem e as primeiras despesas da sua instalação.

Quando o utilitarismo bem compreendido pode duplicar-se de uma mais-valia em termos de imagem à escala planetária, porque privar-se disso mesmo? O golpe de  Angela Merkel  em colocar “a  vergonha” nos seus vizinhos egoístas e sem coração para com estes pobres refugiados cujas crianças morrem sobre as praias das ilhas gregas falhou em  ter  um sucesso total, com a cumplicidade de meios de comunicação social franceses e internacionais totalmente ignorantes da situação alemã. Esta é complexa: a necessidade de  ser amada,  de superar a infâmia de que  o povo alemão foi objecto depois de Hitler, coexiste nas consciências com a convicção de deterem  uma verdade intangível sobre a maneira efectivamente de bem conduzir uma democracia moderna e eficiente.

Numerosos Alemães estão sinceramente persuadidos que é necessário desejar as  boas-vindas aos amaldiçoados da terra, particularmente nas grandes metrópoles prósperas e liberais, onde estes danados da terra desembarcam depois  do  seu arriscado périplo. Estão deleitados por se mostrarem como  exemplo pela sua  generosidade e a sua compaixão. Não têm contas dolorosas a regular com civilizações e culturas, consequência de um  longo  passado colonial ou esclavagista. A gestão do seu arrependimento  concentrou-se sobre as suas relações para com os Judeus e o Estado do Israel. Mas estão igualmente preocupados em  preservar a sua cultura e o seu modo de vida: querem bem acolher os futuros produtores sem, no entanto, os convidarem  à cidadania e à  integração cultural. Conhecem-se hoje muitos turcos, mesmo instalados na Alemanha desde há duas ou três gerações, que se tem  tornado  escritores, cineastas, filósofos alemães?

Não terá sido necessário  esperar mais de uma semana para que esta a imagem sulpiciana  (Merkel em Mãe Teresa em Spiegel!) fosse totalmente ofuscada pelo regresso do real: a chamada nova aragem provocada “pela generosidade de Merkel” revelou que todos os migrantes não eram sírios, e que as capacidades de absorção da Alemanha eram limitadas.

Merkel é gozada mesmo no seio da sua coligação  por um CSU bávaro que desenrola o tapete vermelho frente a Viktor Orban e aos seus amigos checos e eslovacos. Estes não  apreciam nada  o diktat de Merkel que lhes põe a pistola sobre a testa para os forçar  a aceitarem  a sua quota de migrantes, a despeito da história destas nações centro-europeias, cuja emergência e sobrevivência estão ligadas à defesa da sua identidade cultural face aos  impérios opressores. Uma vez mais, Merkel ganha à Bruxelas sobre a  questão  das quotas, com a mole cumplicidade da França, ainda uma vez mais apanhada em contra-pé.  Paris teria podido recordar, por exemplo, que o muito  pouco  ardor de Berlim a apoiar as operações francesas contra o djihadismo na África e a sua oposição de princípio à qualquer aplicação do  hard power susceptível de secar, na  fonte, o afluxo de refugiados não é estranho à crise  actual. Mas tudo isso, era  antes do problema  Volkswagen, bem mais prejudicial para o futuro da Alemanha do que todas as peripécias estivais.

*Photo : Picture Alliance / Rue des Archives.

  1. As planícies do norte da Alemanha oriental (Brandeburgo e Mecklembourg) foram postas utlizadas e exploradas por colonos alemães a partir da Idade Média, e são constituídas por grandes domínios na posse de  aristocratas (os junkers), empregando semi-servos de origem eslava, seguidamente germanizados.  Entre 1945 e 1989, estes domínios foram transferidos para as cooperativas agrícolas comunistas, que empregavam os mesmos  como assalariados da terra. Não existe por conseguinte campesinato tradicional.

Luc Rosenzweig, Revista Causeur, Angela Merkel, chancelière de l’Europe – L’Union européenne est désormais structurée par l’hégémonie allemande. Texto parcialmente disponível em: http://www.causeur.fr/angela-merkel-europe-35210.html#

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