BISCATES – Medo de Mudar – por Carlos de Matos Gomes

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 “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro, mas a verdadeira tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Platão.

Palavras como incerteza, risco, desafio, adaptação fazem parte das histórias de personagens marcantes de todos os capítulos da História, da política à economia, do desporto à guerra, da ciência às artes. É o elogio do sucesso, que os neoliberais se encarregaram de transformar em regresso à lei da selva. Foi a doutrina de salvação que durante quatro anos este governo pregou aos portugueses. Mudem de vida. Mudem de país. Arrisquem. O desemprego é uma oportunidade. A precariedade é uma forma de liberdade. Não se acomodem em nome da “segurança”, pois isso vos fará aceitar menos do que merecem! A desigualdade é natural. Tudo resumido na frase: saiam da sua zona de conforto, seus acomodados!

Ouvimos esta salmodia até à exaustão e ao enjoo. Era suposto acreditar que quem a pregava acreditava nela. Erro crasso. A possibilidade de um governo diferente dos pregadores revelou que todo o discurso de Passos Coelho e Paulo Portas era falso. A sua fé no gosto pelo risco e pela busca de novas soluções para velhos problemas era tão enganadora como as suas promessas eleitorais de 2011. As suas louvaminhas ao empreendedorismo não passavam de um embuste com o objectivo de chegar ao pote e ficar eternamente com ele.

A frase de Érico Veríssimo: “quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento” foi apresentada como sumário da lição de vida dada por Passos Coelho e Paulo Portas aos portugueses, mas apenas enquanto foram eles a levantar barreiras, a fazer girar a ventoinha e a concederem os alvarás para os moinhos! Bastou mudar o vento para se descobrir a careca do discurso sobre as virtudes da mudança! Querem tirar-nos o vento das velas dos nossos moinhos! Gritam agora.

As mudanças são feitas de acertos e erros. Tanto nas situações mais simples como nas grandes decisões. Goste-se ou não, António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa estão num processo de alteração do paradigma de alianças políticas para a formação de um governo. Pode correr bem e pode correr mal, mas, por pura coerência ideológica, os missionários locais do empreendedorismo, da inovação, do risco, do nosso Portugal prá Frente, ou à frente, ou sempre a andar, deviam aplaudir esta demonstração de coragem e de ensaio de mudança.

Aconteceu o contrário. A direita descobriu-se anti-liberal  e aterrorizada com a novidade. Atrás dos blogues chiques do Observador, dos foulards e écharpes da Teresa Leal Coelho, das gravatas de seda e dos sapatos de bico de Pires de Lima, os portugueses descobriram a velha direita: beata, de capote de surrobeco, mais uma vez de cachaporro atrás da porta, acagaçada com sombras e ruídos, a desfiar novenas e esconjuros.

Descartes, num livro clássico, um dos que marca a entrada do pensamento europeu na modernidade, «Meditações Metafísicas», decidiu expressar a dúvida sobre todas as opiniões que tinha formado desde a infância e tentar estabelecer desde os seus fundamentos o que fosse firme e constante nas ciências. A partir daí, a função da dúvida passou a ser a de inquirir acerca da veracidade das coisas que nos são apresentadas como verdadeiras. A modernidade do pensamento europeu nasceu da substituição da fé pela dúvida hiperbólica, sistemática e generalizada. A certeza da maioria dos políticos de direita e dos opinadores que os acolitam, de que a nova combinação de forças que se constituiu para viabilizar um governo vai causar sem dúvida o caos, demonstra que ainda não chegaram à era do pensamento moderno. Ou então sofrem de metathesiophobia, o palavrão que significa medo da mudança.

Mais do que entre esquerda e direita, a possibilidade de um governo novo dividiu a sociedade portuguesa entre os que, por medo do desconhecido, se apegam até mesmo aos problemas, encontrando as mais rebuscadas explicações para não abandonarem o que conhecem, e os que, por realismo, idealismo ou desespero, entendem, como Descartes, que “todo o efeito deve ter uma causa e que esta última tem mais realidade, é mais forte e perfeita que o seu dependente, o efeito.”

É esta velha linha, sempre actual, que divide a sociedade portuguesa e que possibilitou os novos arranjos para o exercício do poder.

6 Comments

  1. Tudo o que se passou nos ultimos quatro anos cheirou mal,a peixe como dizem os amigos de Peniche,por isso e pela Juventude do meu Pais,venham Ventos de Mudança,e que tiver medo ,ou paga à guarda ou arranja Cão.

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