ANEXO ao texto de YVES-MARIE LAULAN “Os novos migrantes – estes trarão com eles o fascismo ou um sucedâneo” – nota por JÚLIO MARQUES MOTA , a partir de “MENSONGE ET BARBARIE”, de PANAGIOTIS GRIGORIOU

Como complemento à nossa nota sobre o texto de Yves-Marie Laulan  intitulado Os novos migrantes – estes trarão com eles o fascismo ou um sucedâneo, vejamos alguns dados sobre a Grécia.

Ainda relativamente à bondade agora apresentada pela Europa face aos migrantes, transformados rapidamente em refugiados, por confronto com o que  essa mesma Europa faz na Grécia, vejamos um excerto sobre   a situação grega bem recente.

Um outro exemplo, o centro médico solidário metropolitano de Ellinikón, perto de Atenas, foi distinguido pelo Parlamento Europeu com o Prémio “Premier Citoyen” e recusou receber o referido prémio. Porquê?

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Alexis Tsipras – Nós conquistaremos o amanhã. Atenas Setembro de 2015.

“Salvo que para os médicos e para os voluntários do Centro Solidário de Ellinikón, o dia  de amanhã … é já a morte conjugada no presente.”

“O Parlamento Europeu decidiu atribuir ao Centro Solidário de Ellinikón, o “Prémio  do Cidadão europeu” para 2015, em reconhecimento da luta que efectuámos desde há quase 4 anos, em benefício dos abandonados pelo Estado oficial, desempregados, doentes sem cobertura de Segurança Social, para enfim , ajudar a construir uma sociedade melhor. Esta luta, contudo, foi tão necessária porque, precisamente, as políticas aplicadas e que as que se continuam a aplicar no nosso país, são o resultado directo das pressões e das chantagens exercidas pelo Fundo monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e pela União europeia (UE), o que conduziu a excluir do sistema da saúde, mais de três milhões de cidadãos, desempregados, sem abrigo e pobres”.

A Europa para nós, como para a maior parte dos Gregos, poderia ser a nossa casa. Evocamos esta Europa dos povos, da compreensão mútua e da solidariedade. Desejamos mesmo realizar esta Europa que procuramos. Mas é com tristeza e muita dor que vemos esta Europa perdida nos mecanismos da burocracia, nos dos juros, nos dos financeiros e dos bancos. É então que com muita pena constatamos de quanto a prioridade desta Europa, é sobretudo a de encontrar milhares de milhões de euros para os bancos privados, enquanto exerce pressões de modo que a redução das despesas do sistema nacional de saúde na Grécia, já vai em mais de 50% relativamente ao orçamento de 2009, se venha em breve ainda a tornar mais importante”. “De acordo com os dados do Instituto “Prolepsis”, o empobrecimento massivo da maior parte do povo grego já conduziu a uma tragédia: 6 de cada 10 alunos em 64 escolas de Atenas encontram-se numa situação de insegurança alimentar. 61% dos alunos das mesmas escolas, têm já um familiar desempregado, enquanto para 17% das famílias, nenhum familiar tem emprego. 11% das crianças não têm cobertura da Segurança Social, e 7% de entre elas, viveram sem electricidade durante mais de uma semana durante o ano 2014, por último, para 3% das crianças, continuam ainda a viver sem electricidade. 406 escolas através de toda a Grécia receberam uma ajuda em 2014 para alimentar 61.876 alunos. 1.053 escolas solicitaram este ano esta ajuda, a fim de beneficiar do programa “Alimentação”, e assim poderem alimentar os seus 152.397 alunos. Hoje, apenas 15.520 alunos de 150 escola beneficiam deste programa”.

“42 727 questionários foram respondidos pelos pais em 23 distritos através do país e deles decorre que 54% das famílias são confrontados com a situação de insegurança alimentar, 21% de entre elas, simplesmente defrontam-se com a situação de fome. De acordo com um estudo do Serviço do Orçamento do Estado do Parlamento, 3,8 milhões de Gregos têm rendimentos próximos do limiar de pobreza (432 euros por mês e por pessoa) enquanto 2,5 milhões de Gregos vivem debaixo do limiar de pobreza (233 euros por mês e por pessoa, o que significa com efeito… uma situação de extrema pobreza). Em suma, 58% da população grega, quer dizer, cerca de 6,3 milhões de pessoas vivem na proximidade ou abaixo do limiar de pobreza”.

“Esta Europa então que nos quer recompensar , parece não se sentir de modo nenhum embaraçada em face de todas estas verdades nem em face já aos milhares de mortes nossos concidadãos excluídos do sistema de saúde. Estes falecimentos farão então em breve… um efeito de bola de neve, dado que o memorando III assinado pelo governo, impõe reduções suplementares para o Sistema de Saúde, de 933 milhões de euros numa primeira fase”.

“Seria hipócrita da nossa parte receber este prémio quando esta Europa fecha os olhos face aos lactentes que sofrem de desnutrição, face aos doentes atingidos de cancro já mortos, face ao olhar cheio de desespero dos doentes que sofrem, das mães que nos contam as suas histórias terríveis quanto ao abandono de que as suas famílias são vítimas, vivendo sem electricidade, sem água corrente e com um mínimo de alimentos para mais um ano ”

“A palavra do nosso médico e que nos representa, Yórgos Vichas é clara: “os milhares de mortes entre os nossos doentes não cobertos pela Segurança Social ou então destes que respiram à nossa volta, olham-nos todos de olhos nos molhos e consequentemente, (eles) não nos permitem aceitar este prémio”. Não viramos as costas à Europa, nem aos povos europeus que connosco têm  sido solidários de uma forma impressionante!”

“Devemos  em contrapartida virar as costas aos políticos e às instituições, como o Parlamento, que durante muito tempo apenas consideraram as vidas humanas como sendo simples unidades contabilísticas. Esta maneira de ver e de agir constitui desde há mais de cinco anos, uma vergonha para a cultura europeia. A verdade é que esta barbárie deve ser parada imediatamente. “

Digam-me então qual a explicação para tudo isto?

Coimbra, 10 de Novembro de 2015

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Leia a nota de introdução de Júlio Marques Mota a Os novos migrantes – estes trarão com eles o fascismo ou um sucedâneo, publicada em A Viagem dos Argonautas em 9 de Novembro, acedendo em:

OS NOVOS MIGRANTES –ESTES TRARÃO COM ELES O FASCISMO OU UM SUCEDÂNEO – por YVES- MARIE LAULAN – I

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Para aceder a Mensonge et barbarie, de Panagiotis Grigoriou, em Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce – Une analyse sociale journalière de la crise grecque, publicado a 16 de Setembro de 2015, vá a:

http://www.greekcrisis.fr/2015/09/Fr0464.html

 

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