PROPOSTA DE TRABALHO DIRIGIDAS ÀS GENTES DE ESQUERDA DESTE PAÍS – SOBRE A NECESSIDADE DE PENSARMOS COLECTIVAMENTE A EUROPA E PORTUGAL NA EUROPA – UM TRABALHO QUE A COLIGAÇÃO À ESQUERDA DEVE RETOMAR – DOIS TEXTOS COMO UM EXEMPLO – a introdução por JÚLIO MARQUES MOTA

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Proposta de Trabalho dirigidas às gentes de esquerda deste país

Sobre a necessidade de pensarmos colectivamente  a Europa e Portugal na Europa – um trabalho que a coligação à esquerda deve retomar – dois textos como um exemplo

júlio marques mota

Júlio Marques Mota

 

Em nome do blog A Viagem dos Argonautas agradecemos a Domenico Mario Nuti o envio e a sua disponibilização para ser editado em língua portuguesa do texto abaixo traduzido, intitulado Pode a política económica ser mudada?

Um texto que vem mesma na altura oportuna e tanto mais quanto o nosso futuro primeiro-ministro António Costa, acusou o primeiro-ministro cessante, e com toda a razão, deste querer ir para além da Troika em vez de defender os interesses de Portugal nas reuniões europeias e outros fóruns internacionais. Uma posição como esta pressupõe debate ou pode ser entendida como um sinal de abertura para um profundo debate sobre a crise na Europa e em Portugal.

O presente texto de Domenico Mario Nuti crê-se mesmo que poderia ser um ponto de partida, ou de chegada? para um debate no interior do PS e não só mas sobretudo aí,   sobre a crise na Europa, debate que eu saiba que está até agora  ainda por fazer no PS. Creio que neste caso não se adapta aqui o pessimismo grego de que “ é já um pouco cedo e no entanto está com tanto atraso”. Um debate que vem demasiado tarde, certo, mas  um debate que não é “já” demasiado cedo para o abrir.  Sejamos optimistas, e tanto mais  quanto em Portugal há muitos jovens economistas sérios e de profundos conhecimentos sobre  esta temática,  no PS e fora dele,  capazes de dar um muito bom contributo para o esclarecimento de todos nós, alguns deles até meus antigos colegas, professores em exercício na FEUC..

A questão é tanto mais urgente e possível de levar a cabo quando se sente que o colete de forças que tem amarrado toda a Europa à política de austeridade começa a ceder. A resistência do muro construído e agora ideologicamente mantido a partir das  instituições concebidas ou dirigidas  por  Schäuble, Juncker, Draghi,   Jeroen Dijsselbloem, Donald Tusk, começa a ser confrontada com a oposição de grandes países como a França e a Itália, e começa a ceder quando fortemente confrontada com a realidade dos resultados. É neste sentido que se podem entender as  afirmações feitas por Macron em Londres  e destas salientamos algumas delas extraídas de um  artigo de Ambrose Evans-Pritchard publicado no The Telegraph:

“O ex-banqueiro de  Rothschild disse que o bloco monetário é fundamentalmente inviável sem um orçamento comum para o sustentar e salvaguardar e para evitar que  os países na periferia da Europa  atingidos pela dívida fiquem na situação de  dificuldades permanentes.

“Se não avançarmos, estamos a decidir o desmantelamento da zona euro. Temos que escolher: esta é um sistema de câmbios fixos ou  uma união monetária ?”, afirmou .

Temos de sair desta Guerra religiosa

Ele chamou à  luta sobre o euro uma nova guerra dos Trinta Anos na Europa travada entre  os calvinistas e católicos. “Os calvinistas querem  fazer os outros pagarem  até ao fim da sua vida. Eles querem reformas mas não querem contribuições quaisquer que elas sejam em termos de solidariedade. Do outro lado estão os católicos, principalmente na periferia”, disse .

“Em cada cimeira da zona euro, em  cada Eurogrupo, temos este mesmo dilema entre os estados membros. Nós temos que sair desta guerra religiosa”,

Macron argumentou repetidamente que a abordagem unilateral da Alemanha para o rescaldo da crise do euro é o que tem empurrado a zona euro  para  uma espiral deflacionista. Os países vulneráveis estão a ser  forçados a passarem  por reformas duras e por cortes no orçamento com pouca solidariedade económica em troca.

É igualmente nesse sentido que se pode compreender a mudança de política macroeconómica de Matteo Renzi de acordo já com disposições aprovadas em Conselho de Ministros de 18 de  Setembro de 2015, com o documento   Nota de aggiornamento del Documento de Economia e Finanza 2015, apresentado por Matteo Renzi  e pelo seu Ministro da Economia e Finanças,  Pier Carlo Padoan.

Sobre este documento colocamos à  disposição de todos os interessados, e em particular dos militantes da coligação à esquerda, e com autorização do autor, Bill Mitchell, o seu artigo sobre a mudança na política italiana intitulado  O governo italiano em riscos de cair na sua própria armadilha.

Tudo isto nos daria portanto a todos nós, economistas e não economistas, pontos de referência sobre exactamente as questões citadas por Nuti e que são, “Pode a política económica ser mudada?”  e uma outra  “Pode a Política ser mudada?”, se  assim  as  gentes da Coligação à esquerda estejam disponíveis  para dinamizar um debate tão necessário quanto urgente, aqui e agora em Portugal. Haja pois vontade política para o esclarecimento político até porque, parafraseando Mário  Nuti, uma vez que os instrumentos de  política económica existem e e sabe-se qual é a melhor forma de os utilizar, uma vez que   problema é actualmente a falta de vontade política  de os aplicar, a  via do esclarecimento político é pois a única forma de alcançar o espaço de intervenção  possível para assim nos permitir colectivamente sair da crise.

Coimbra, 12 de Novembro de 2015

Júlio Marques Mota.

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