20. Caderno de notas de um etnólogo grego – Impasses II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

(conclusão)

 

Acrescentaria aqui contudo uma terceira via possível, uma ida à confrontação e no entanto perder e morrer . Contudo, praticamente toda a gente na Grécia sofre por causa desta incrível desvitalização económica, política, democrática, social, relacional e por último psicológica, muito precisamente (ou seja com injustiça), porque o euro não é completamente uma moeda, mas antes, uma pavorosa arma política e simbólica, como de resto o tenho vindo a repetir sobre este blog desde a sua criação em Outubro de 2011.
Salvo que na prática esta infusão simbólica fica menos percetível do que os seus estragos políticos e sociais. Mesmo em 2015 na Europa e às vezes também na Grécia. O que não tira nada à apreensão acumulada e expressa pelo meu primo Costas, ou pelo meu amigo Théodose. Para o meu primo Costas, tudo fica mais incerto que nunca: “ Tenho estado a gastar das minhas poupanças, modestas certamente, porque o que ganho atualmente não chega o suficiente e os meus rendimentos reais de 2014 representam praticamente metade do que ganhava em 2009; então, depois de um retorno ao dracma ou a partir de um bloqueio de contas, como é que eu poderia fazer para sair desta situação?”
O meu amigo Théodose, acaba de vender o apartamento herdado da parte dos pais a cerca de 40% do seu valor de 2009. Está no desemprego (são fracos os subsídios de desemprego na Grécia, não duram mais do alguns meses e ainda não foram eliminados), e espera assim viver graças à esta venda forçada, um ano talvez, ou mesmo mais. “Acredito que não levará muito tempo a que os meus euros gregos, transformados ou não, não terão mais o mesmo valor que antes, aqui ou que algures ” diz.

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Festa da autarquia . Atenas Est. Abril 2015

 

 

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Imobiliário em venda. Piréu, Abril 2015

 

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Loja abandonada. Piréu, Abril 2015

Só os turistas ou os migrantes que vêm parar às nossas praias aos milhares neste momento, não têm o ar de se lhes levantarem estas questões, para eles, chegar ao destino (ou então pela força trágica do próprio destino, somente imposto pelas Potências do nosso Ocidente quando estas destruíram deliberadamente as soberanias e as sociedades, entre o Iraque e a Líbia), seria já uma etapa suficiente.

Inútil relembrar que os dramas um pouco mais antigos, sobre a escala do tempo histórico bem podem ser ignorados ou abandonados. Dores historizadas e seguidamente apagadas, por exemplo, poucos visitantes fazem uma paragem situada mesmo a menos de dez minutos antes de se chegar ao Cabo Sounion para se recolherem em frente do monumento erigido à memória dos soldados e oficiais Italianos prisioneiros das forças Alemãs (no entanto eram mais de 4.000), todos mortos na sequência do naufrágio de um barco que os transportava desde as ilhas do efémero “ Superegeu”.
Cada época conhece então as suas próprias e urgências. Nos bairros Leste de Atenas, é sob o impulso do município de Heliopolis que “a Festa da Autarcia – Pão – Queijo – Plantas medicinais – Cerâmica – Jardins sobre as varandas – Tecelagem” é então organizada, supomos que bem de acordo com os hábitos de agora. Uma maneira, um tanto autárcica num certo sentido, os meios de comunicação social dizem-nos (rádio 105,5 FM, a 21 de Abril), que o governo “centraliza os ativos em liquidez das cidades e das outras subdivisões do país, o que imediatamente provocou uma reunião extraordinária da União das Administrações Municipais da Grécia, qualificada de urgente”, e toda a gente vê o fundo das gavetas… e o processo , finalmente, da Aurora Dourada, imediatamente aberto em Atenas imediatamente adiado para o mês de Maio.

 

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Medicamentos expedidos para a Grécia vindos de França. Abril 2015

O meu amigo (e leitor de Greek Crisis) Olivier (agradeço-lhe também publicamente), tomou a iniciativa de recolher certos medicamentos em França, trouxe-os na semana passada ao Dispensário solidário de Ellinikón perto de Atenas. Aqui encontrei o cardiologista Yórgos Vichas, neste lugar e para além das aparências e das praias, a luta vertical pela vida continua .
“Nós temos estado e ainda estamos sempre a ser ultrapassados. Espero, dentro de algumas semanas e com impaciência, a lei em preparação que põe um fim a esta situação. Assim, os sem seguro de saúde, para cima de um quarto da população, terão finalmente acesso ao sistema de saúde. Enquanto pacientemente esperamos, nós lançamos sempre um apelo à ajuda. Esta semana, faltou-nos brutalmente leite e fraldas para os bebés. Assumimos o encargo de cuidar de uma centena de bebés por dia”
Não muito distante de Ellinikón, os cafés estiveram então cheios neste último fim de semana: “Utilizei os meus últimos euros para esta saída. Depois se verá. Aconteça o que acontecer o mundo não desabará”, dizia uma jovem mulher ao seu companheiro, um copo vidro de café com gelo na mão.

 

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Apartamento, duas divisões a alugar. Piréu, Abril 2015

 

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Dois locais comerciais a alugar. Pireu, Abril 2015

 

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Pseudologias quanto ao acesso ao emprego. Piréu, Abril 2015

No entanto toda a gente já terá desabado, no mundo do emprego e no da esperança, para não os nomear. No Pireu como noutro qualquer lugar, cartazes cuja estética tem mais a ver realmente com um outro sistema intergaláctico , datando do período da governança Samaras, incitam os jovens a procurarem “o passaporte – sésamo para o emprego”, um achado que se resume ao trabalho quase-que-oferecido, o lucro para os empregadores ao exato valor dos vales-restaurante e ainda têm trabalho.
Os jovens, de acordo com as minhas informações rejeitam de maneira ostensiva o dispositivo, preferem antes pedir alguns trocos no dia a dia aos seus pais e aos seus avós, e seguidamente vaguearem de café em café, “matando o tempo”, de acordo com a expressão grega assim bem consagrada.

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Em honra da marinha mercante. Graffiti, Piréu, Abil 2015

 

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Em honra da marinha mercante. Graffiti, Piréu, Abil 2015

 

Sobre os muros do Pireu, a nossa modernidade da crise apresenta-se assim em concentrado. Aí se descobrem, paredes meias, anúncios de alugueres de apartamentos aos preços de crise, em forte baixa, ou de salas comerciais ainda mais em baixa porque corrigidos mesmo sobre os respetivos cartazes. Aliás, outros grafismos fazem honra à marinha comercial, e à alguns metros dali, um último grafiti a significar à sua boa maneira, a síntese da situação dominante da nossa época: “Impasses”!
Na mesma desordem de ideias, o novo Administrador da Caixa dos Trabalhadores independentes (profissões liberais), um Syrizista nomeado há apenas alguns dias, explicava ( no dia 20 de Abril) sobre as ondas da rádio 105,5 (SYRIZA), a nova e urgente reforma, despenalizando primeiro os não-pagamentos das contribuições (um terço apenas dos trabalhadores independentes continua a efetuar o pagamento das contribuições sociais na Grécia), e instituindo pela mesma ocasião, um procedimento que instaura pagamentos aligeirados sob uma forma contratual, que se estendem sobre mais de uma centena de mensalidades, procedimento suposto favorável e interessante para os numerosos contribuintes da Caixa dos Trabalhadores desvalorizados pela crise.
Contatado por telefone pelas necessidades da emissão e pela do verdadeiro diálogo, um outro Syrizista, responsável no Sindicato nacional dos Trabalhadores independentes, exprimiu assim a sua visão local dos desafios que se colocam aos trabalhadores: “Há certamente muito de positivo nestas medidas, salvo que não atrairão grande multidão. A razão é simples: diminuído ou não, alongado ou não, o montante das contribuições, não será pago. Quando há uma baixa das receitas de aproximadamente 70%, devemos ocuparmo-nos primeiro da nossa família que vai ser necessário alimentar, por conseguinte, ele não poderá pagar um só um euro que seja em contribuições. O governo deve urgentemente financiar a economia, fazer circular o dinheiro, obrigar urgentemente os bancos a apoiarem a atividade económica, é esta a grande e urgente necessidade”.
Os bancos (moribundos), ou seja também o BCE, como o dirá ainda Jacques Sapir, não há alternativa ao Eurogrupo que não seja esmagar ou morrer.

A hibris governa o mundo, a hipocrisia reina, mas o verão helénico, decididamente anteportas tornar-nos -ia (um pouco) felizes e talvez mesmo até mais filosóficos. Na praia, a história!

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Cabo Sounion, Abril 2015

 

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

20. Caderno de notas de um etnólogo grego – Impasses I

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