34. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia: Grécia-Europa Ocidental, pontos de vista e mal-entendidos – II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise grega

Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou

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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2015

34. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia: Grécia-Europa Ocidental, pontos de vista e mal-entendidos – II

 

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Para os historiadores ou para os etnólogos da Grécia contemporânea, como para o antropólogo Mickael Herzfeld (Harvard, Estados Unidos) que aqui viveu durante alguns vários anos, a identidade neo-helénica é como que animada, filtrada, ou mesmo encarnada por um dilema fundamental, representando um helenismo com duas cabeças, uma bizantina e a outra antiga (esta última “retrabalhada” pela Europa ocidental). Consequentemente, ela oscila sem, no entanto, tomar uma decisão, entre escolhas históricas que permanecem de toda a maneira sempre em aberto.

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A Grécia entre dois caminhos. Imprensa grega, Verão de 2015

Esta consciência colectiva, sofre então as projecções da metrópole europeia e decompõe-se mesmo, sob o peso desta dissemia então introduzido do exterior: a Grécia é o pedestal da civilização ocidental ao mesmo tempo que é também um resultado do Oriente bárbaro.

De resto, muito frequentemente, a Grécia (as suas realidades sociológicas ou económicas), é comparada a outros países da próxima meso-periferia europeia, os Gregos então modernos, descobririam a sua identidade através do olhar do outro, por outras palavras, adaptando-se à prescrição europeia, e hoje em dia europeísta.
De resto, Herzfeld considera, e não é de forma nenhuma uma piada, para o que tem a ver apenas com o caso grego, que a área etnográfica seria por conseguinte a antropologia como um todo e nos seus fundamentos, através precisamente deste jogo de espelhos.
Para o antropólogo americano, o caso grego (actual e antigo), levar-nos-ia sobre um caminho que nos colocaria, é necessário dizê-lo, fora das Luzes. Cita também como exemplo, o uso do termo suficientemente habitual do grego moderno (como da cultura neo-helénica): “ανθρωπιά” (“antropia”), significando então “um στάσις” (“stásis” – uma atitude) e ao mesmo tempo, uma deontologia ética face à alteridade e face à sociedade. O termo (“antropia”), atravessa contudo a lexicografia suposta erudita (tal como foi codificada e imposta pelo uso ocidental da Antiguidade grega).

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Gregas do século XX, Fonte: internet grega.

 

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Maneiras actuais. Grécia, 2015

 

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Bilhete de entrada na l’Acropole. Século XX. Fonte internet grega

 

Porque “Entropia” nos Gregos, não é certamente o equivalente interpretado do humanismo das Luzes, nem uma qualquer filantropia que lhes seja aplicável. Em suma, nota Herzfeld para ainda precisar melhor, a própria Politeía de Platão não é o Estado de Hobbs, e ainda menos acrescentaria eu, o da nossa meta-modernidade do século XXI.
A Grécia é, por conseguinte, este país que a Europa tão violentamente requisitou para constituir o seu antepassado e o seu precursor, melhor que muitos outros, (a Itália, ou seja Roma, por exemplo).
A dissemia que decorre (de tal postura), permite pensar este binário numa série semântica contínua mais larga, que inclui a linguagem e os outros sistemas de sinais. Esta prática da ambivalência é nomeadamente utilizada na distribuição dos etnónimos de que se servem os grupos para se autodenominarem. É assim que os Gregos se chamam Helenos, relembrando o seu passado prestigioso, todavia eles utilizam também a expressão “Romioi”, fazendo diretamente alusão à herança bizantina e otomana quando querem sublinhar a sua hostilidade em relação à cultura dos valores oficiais. A um nível mais englobante, no seio da Europa, a entidade Grécia encontra-se semanticamente bipolarizada: de um lado, antepassado espiritual da Comunidade; da outra potência política de fraca importância.

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Atenas no século XX. Fonte ; internet grega.

 

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Antiguidades. Cliché do século passado.

 

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Representação da história dos gregos. 2015

É precisamente para (assim) recordar esta ambivalência semântica, que a Grécia, encarna então este país que oscila muito inconfortavelmente entre o que é próximo e o que é exótico. Em suma, a Grécia contemporânea não pode participar de maneira cómoda, digamos, da dicotomia: os Europeus e os outros, dado que de resto, os Gregos eles mesmos permanecem bem ambivalentes sobre o que está directamente ligado à sua pertença europeia ou, no limite, quanto ao grau atestado ou suposto (e por conseguinte representado), de uma tal pertença. Os Gregos de hoje, dignos herdeiros – como acabam de ser informados – da glória do passado europeu, interrogam-se então seriamente sobre a sua pertença provável ao Terceiro mundo, politica, económica, ou mesmo até culturalmente.

Eu acrescentaria então o episódio recente, para ilustrar esta continuidade histórica até aos memorandos actuais. O FMI, por exemplo, tem certamente a sequência nas ideias e também nas suas práticas. De acordo com as reportagens do momento, (no fim de Maio de 2015), Vassílis Korkídis, o Presidente da Confederação grega do Comércio e das Empresas (ESEE) tinha acabado de concluir a sua exposição face ao Comité de inquérito parlamentar, em que este último examinava as condições “de adesão” da Grécia, ao regime tutelar da Troika e dos memorandos. “Alguns foram tão prontos, tão rápidos a enfiarem-nos nos protocolos e outros fizeram-no”, declarou o presidente do ESEE, “as visitas da Troika sempre aterrorizaram o mercado. Não acredito que haja um Grego que acredita que o memorando apoiou a actividade económica no país”.

Korkídis, tinha evocado igualmente as visitas à Grécia dos representantes da Troika, e mais precisamente o seu comportamento para com os interlocutores gregos: “Uma vez, estávamos em Dezembro de 2011, recebemos a visita da Troika, nas pessoas de . Klaus Mazouch (BCE) e de Poul Thomsen (FMI). Estes vieram ter aos nossos gabinetes sem estarem a ser acompanhados da representação grega. Quando reagimos face à sua exigência de reduzirmos os nossos salários, os que praticamos na Grécia, e quando quisemos compará-los com os salários dos outros países europeus correspondentes, imaginem o que o senhor Thomsen nos disse? “ Está a cometer um grande erro. Olhem para os salários na Europa do Sudeste e dos Balcãs, porque pertencem a esta zona.” Quando lhes pedi que nos dissesse o que pensava disso e qual deveria ser então o salário grego, disse-me, “300 €, é bom ‘.”

 

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Ao cidadão Desconhecido, às vítimas da Troika. Atenas, 2013

“Quando lhes disse, “ estejamos então de acordo para comparar a Grécia a um país europeu sobre esta questão dos salários’, então a sua posição foi imediatamente bem clara: ‘É necessário praticar os salários da Bulgária’. Nada foi implícito pelo seu lado, disseram-nos”, afirmações citadas pela imprensa grega.

Este argumento culturalista e também seletivamente mundialista tão rudemente avançado pelos representantes da Troika, é de primeira importância na compreensão do mecanismo da dependência pela dívida e também quanto à verdadeira natureza e às intenções (em parte realizadas) do colonialismo europeísta. Em Agosto de 2015, os representantes “das instituições” estarão em Atenas para assim ditar ao governo SYRIZA/ANEL, o memorando III, ainda mais colonialista e mais totalitário que os dois precedentes, (retornarei muito em breve sobre esta actualidade assim oferecida pelos “nossos” novos meses de Agosto).

Mickael Herzfeld já tinha sublinhado suficientemente a filiação histórica de certas atitudes supostas novas, ou mesmo “inovadoras”. A Grécia, parece estar condenada a encarnar um papel marginal no mundo de hoje, quer, por ser o país dos antepassados certamente gloriosos e contudo mortos desde há muito tempo, quer continuando a ser este assim mau fragmento do Oriente misterioso, tendo contudo feito intrusão na nossa modernidade, ou seja e primeiro que tudo, na modernidade do Ocidente, e para ir mais longe ou mais próximo de nós, na modernidade da mundialização.

A marginalização da Grécia actual implica, na opinião de Herzfeld, a mesma ideologia eurocêntrica e é esta que está na base da criação da antropologia e mais largamente do objecto etnográfico.

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Ilustrações modernas, estereótipos mais antigos. 2015

 

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Passado antigo caricaturado pela propaganda. Campo de prisoneiros políticos, Grécia século XX.

 

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Passado antigo caricaturado pela propaganda. Campo de prisoneiros políticos, Grécia século XX.

 

(continua)

Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

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