Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária da crise grega
Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou

34. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia: Grécia-Europa Ocidental, pontos de vista e mal-entendidos – II
Para os historiadores ou para os etnólogos da Grécia contemporânea, como para o antropólogo Mickael Herzfeld (Harvard, Estados Unidos) que aqui viveu durante alguns vários anos, a identidade neo-helénica é como que animada, filtrada, ou mesmo encarnada por um dilema fundamental, representando um helenismo com duas cabeças, uma bizantina e a outra antiga (esta última “retrabalhada” pela Europa ocidental). Consequentemente, ela oscila sem, no entanto, tomar uma decisão, entre escolhas históricas que permanecem de toda a maneira sempre em aberto.

Esta consciência colectiva, sofre então as projecções da metrópole europeia e decompõe-se mesmo, sob o peso desta dissemia então introduzido do exterior: a Grécia é o pedestal da civilização ocidental ao mesmo tempo que é também um resultado do Oriente bárbaro.
De resto, muito frequentemente, a Grécia (as suas realidades sociológicas ou económicas), é comparada a outros países da próxima meso-periferia europeia, os Gregos então modernos, descobririam a sua identidade através do olhar do outro, por outras palavras, adaptando-se à prescrição europeia, e hoje em dia europeísta.
De resto, Herzfeld considera, e não é de forma nenhuma uma piada, para o que tem a ver apenas com o caso grego, que a área etnográfica seria por conseguinte a antropologia como um todo e nos seus fundamentos, através precisamente deste jogo de espelhos.
Para o antropólogo americano, o caso grego (actual e antigo), levar-nos-ia sobre um caminho que nos colocaria, é necessário dizê-lo, fora das Luzes. Cita também como exemplo, o uso do termo suficientemente habitual do grego moderno (como da cultura neo-helénica): “ανθρωπιά” (“antropia”), significando então “um στάσις” (“stásis” – uma atitude) e ao mesmo tempo, uma deontologia ética face à alteridade e face à sociedade. O termo (“antropia”), atravessa contudo a lexicografia suposta erudita (tal como foi codificada e imposta pelo uso ocidental da Antiguidade grega).



Porque “Entropia” nos Gregos, não é certamente o equivalente interpretado do humanismo das Luzes, nem uma qualquer filantropia que lhes seja aplicável. Em suma, nota Herzfeld para ainda precisar melhor, a própria Politeía de Platão não é o Estado de Hobbs, e ainda menos acrescentaria eu, o da nossa meta-modernidade do século XXI.
A Grécia é, por conseguinte, este país que a Europa tão violentamente requisitou para constituir o seu antepassado e o seu precursor, melhor que muitos outros, (a Itália, ou seja Roma, por exemplo).
A dissemia que decorre (de tal postura), permite pensar este binário numa série semântica contínua mais larga, que inclui a linguagem e os outros sistemas de sinais. Esta prática da ambivalência é nomeadamente utilizada na distribuição dos etnónimos de que se servem os grupos para se autodenominarem. É assim que os Gregos se chamam Helenos, relembrando o seu passado prestigioso, todavia eles utilizam também a expressão “Romioi”, fazendo diretamente alusão à herança bizantina e otomana quando querem sublinhar a sua hostilidade em relação à cultura dos valores oficiais. A um nível mais englobante, no seio da Europa, a entidade Grécia encontra-se semanticamente bipolarizada: de um lado, antepassado espiritual da Comunidade; da outra potência política de fraca importância.



É precisamente para (assim) recordar esta ambivalência semântica, que a Grécia, encarna então este país que oscila muito inconfortavelmente entre o que é próximo e o que é exótico. Em suma, a Grécia contemporânea não pode participar de maneira cómoda, digamos, da dicotomia: os Europeus e os outros, dado que de resto, os Gregos eles mesmos permanecem bem ambivalentes sobre o que está directamente ligado à sua pertença europeia ou, no limite, quanto ao grau atestado ou suposto (e por conseguinte representado), de uma tal pertença. Os Gregos de hoje, dignos herdeiros – como acabam de ser informados – da glória do passado europeu, interrogam-se então seriamente sobre a sua pertença provável ao Terceiro mundo, politica, económica, ou mesmo até culturalmente.
Eu acrescentaria então o episódio recente, para ilustrar esta continuidade histórica até aos memorandos actuais. O FMI, por exemplo, tem certamente a sequência nas ideias e também nas suas práticas. De acordo com as reportagens do momento, (no fim de Maio de 2015), Vassílis Korkídis, o Presidente da Confederação grega do Comércio e das Empresas (ESEE) tinha acabado de concluir a sua exposição face ao Comité de inquérito parlamentar, em que este último examinava as condições “de adesão” da Grécia, ao regime tutelar da Troika e dos memorandos. “Alguns foram tão prontos, tão rápidos a enfiarem-nos nos protocolos e outros fizeram-no”, declarou o presidente do ESEE, “as visitas da Troika sempre aterrorizaram o mercado. Não acredito que haja um Grego que acredita que o memorando apoiou a actividade económica no país”.
Korkídis, tinha evocado igualmente as visitas à Grécia dos representantes da Troika, e mais precisamente o seu comportamento para com os interlocutores gregos: “Uma vez, estávamos em Dezembro de 2011, recebemos a visita da Troika, nas pessoas de . Klaus Mazouch (BCE) e de Poul Thomsen (FMI). Estes vieram ter aos nossos gabinetes sem estarem a ser acompanhados da representação grega. Quando reagimos face à sua exigência de reduzirmos os nossos salários, os que praticamos na Grécia, e quando quisemos compará-los com os salários dos outros países europeus correspondentes, imaginem o que o senhor Thomsen nos disse? “ Está a cometer um grande erro. Olhem para os salários na Europa do Sudeste e dos Balcãs, porque pertencem a esta zona.” Quando lhes pedi que nos dissesse o que pensava disso e qual deveria ser então o salário grego, disse-me, “300 €, é bom ‘.”

Ao cidadão Desconhecido, às vítimas da Troika. Atenas, 2013
“Quando lhes disse, “ estejamos então de acordo para comparar a Grécia a um país europeu sobre esta questão dos salários’, então a sua posição foi imediatamente bem clara: ‘É necessário praticar os salários da Bulgária’. Nada foi implícito pelo seu lado, disseram-nos”, afirmações citadas pela imprensa grega.
Este argumento culturalista e também seletivamente mundialista tão rudemente avançado pelos representantes da Troika, é de primeira importância na compreensão do mecanismo da dependência pela dívida e também quanto à verdadeira natureza e às intenções (em parte realizadas) do colonialismo europeísta. Em Agosto de 2015, os representantes “das instituições” estarão em Atenas para assim ditar ao governo SYRIZA/ANEL, o memorando III, ainda mais colonialista e mais totalitário que os dois precedentes, (retornarei muito em breve sobre esta actualidade assim oferecida pelos “nossos” novos meses de Agosto).
Mickael Herzfeld já tinha sublinhado suficientemente a filiação histórica de certas atitudes supostas novas, ou mesmo “inovadoras”. A Grécia, parece estar condenada a encarnar um papel marginal no mundo de hoje, quer, por ser o país dos antepassados certamente gloriosos e contudo mortos desde há muito tempo, quer continuando a ser este assim mau fragmento do Oriente misterioso, tendo contudo feito intrusão na nossa modernidade, ou seja e primeiro que tudo, na modernidade do Ocidente, e para ir mais longe ou mais próximo de nós, na modernidade da mundialização.
A marginalização da Grécia actual implica, na opinião de Herzfeld, a mesma ideologia eurocêntrica e é esta que está na base da criação da antropologia e mais largamente do objecto etnográfico.



(continua)


