EDITORIAL – NÓS E OS BANCOS

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Em Portugal os bancos, uns a seguir aos outros, entraram em colapso. Há razões para pensar que nem um vai escapar. Depois do BPN, tivemos o BPP, depois o BES, que deu lugar ao Novo Banco, agora é o BANIF. E desculpem se não referimos todos os que entraram em crise. Acreditem que não é por qualquer discriminação. Mas não é com certeza descabida a pergunta. Qual será o próximo? E outra ainda mais grave: quem paga?

Os milhares de milhões desviados para os bancos em crise devoraram, quase de certeza, os cortes nas pensões e nos salários dos funcionários, Claro que há muitas maneiras de fazer as contas. Aceitamos de muito bom grado que venha algum perito (há quem lhes chame outras coisas…) demonstrar-nos que não foi assim. Mas que ponha os números na mesa. O problema é que a nossa vida toda, ou pelo menos aquela que é redutível a dinheiro, passa pelos bancos. Há a banca pública e a privada, ao que sabemos. A primeira é representada sobretudo pela CGD – Caixa Geral de Depósitos. Não estamos habitualmente em contacto com tão altas instâncias como são as que frequentam os gestores da banca pública ou privada. Mas do que conhecemos tiramos a conclusão de que por ali (pela gestão da banca pública…) reina a convicção (pelo menos é o que nos transmitem…) de que a gestão privada será superior à gestão pública. Confessamos o nosso espanto, perante tudo o que se vai passando.

Alguns perguntarão, perante os problemas que acabamos de formular: mas porque vem com essas interrogações, com essas dúvidas? Terá o direito de o fazer? Aí temos de dizer. Temos todo o direito. Ao fim e ao cabo, toda a nossa vida, ou pelo menos partes muito importantes da nossa vida, que condicionam todo o resto, passam pela banca. Os nossos salários, as nossas pensões, passam pela banca, quando somos assalariados ou pensionistas. Na realidade, a vida dos assalariados e pensionistas está pendente (de que maneira…) do funcionamento da banca. E será de ter presente que, apesar os sistemas prestadores de benefícios sociais serem públicos, ou a eles equiparados, as prestações podem ser pagas através da banca pública ou privada. Isto aplica-se a todos os que usufruem de benefícios sociais. E, vendo bem, também a todos os empresários, todos os empreendedores, que em princípio iriam trabalhar por conta própria. No sistema capitalista é praticamente impossível avançar com um projecto, com um negócio, com uma ideia nova, sem ter um aval da banca. Tudo custa dinheiro, porque se tem procurado que toda a nossa vida seja medida em termos de dinheiro.

Os avanços civilizacionais dos últimos séculos têm sido baseados na convicção de que a orientação da nossa vida comum tem de ser compartilhada por todos. É essa a essência da democracia. Daí falar-se da necessidade de avançar para a democracia económica, para complementar a democracia política (entendida esta exclusivamente como a conquista e conservação do poder). Por isso será de pensar e passar à prática, no que respeita à reformulação dos sistemas financeiro e bancário. Com ou sem União Europeia.

1 Comment

  1. Dizes:
    Depois do BPN, tivemos o BPP, depois o BES, que deu lugar ao Novo Banco, agora é o BANIF. (…) Mas não é com certeza descabida a pergunta. Qual será o próximo? E outra ainda mais grave: quem paga?~

    Qual será o próximo a caír? Esta é a pergunta que selecciono. Numa economia doente, profundamente doente não pode haver bancos em condições financeiras sãs, quanto, se o sistema financeiro é sério, ele seria a contrapartida ou a imagem da economia real. Falamos de uma economia em crise desde 2009! Se esta economia funciona mal, os bancos terão de estar em dificuldade, com fortes problemas de liquidez. Ora a política de austeridade não só não cura a economia real, quer matá-la com a suposta cura, como ainda por cima o BCE reforça as necessidades de capitais próprios dos bancos, o que nesta situação me parece um absurdo. A pergunta então a fazer é: se isto é assim quando é que as Instituições Europeias aprendem. Eu creio que nunca, a menos que estes dirigentes sejam substituídos e se pense depois numa outra Europa. Citando de memória : quem já escreveu muito sobre o problema da liquidez bancária terá sido, por exemplo, Munchau do Financial Times, entre outros.

    Júlio Mota

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