CONTOS & CRÓNICAS – «A JANELA» – por António Augusto Sales – ilustração por Dorindo Carvalho

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Imagem por Dorindo Carvalho

Aconchegado o meu filho no enlevo de uma história infantil arrumo a cozinha do jantar e encosto-me à janela parapeito da noite a fumar um cigarro. Ritual quotidiano para um momento íntimo, religioso digo, isolado do ruído da rua proveniente do outro lado da casa.

É pouco comum abrir uma janela da frente. A rua, estreita e de intenso trânsito, ligando a Almirante Reis ao bairro da Graça, torna-se hostil ao sossego. A traseira é um território aberto sobre pátios de outros prédios, redutos de serventia para estendais de roupa e recinto de brincadeira de crianças. A aproximação da noite representa o suspiro fatigado do bairro no final do seu dia de trabalho. A janela acaba por ser O palco da minha serenidade, ponto nevrálgico do murmúrio do pensamento, refúgio de cores e imagens vestidas de fantasias vindas da raiz do tempo.

Em miúda criava em mim um espaço interior a fim de divagar por mundos espantosos, acompanhada por um amigo imaginário com o qual compartilhava as minhas emoções. Havia uma florida janela aberta para o infinito que me conduzia à descoberta dos mistérios da vida porque o sentido abstrato da existência (sobretudo esse) é na verdade um mistério.

A pausa do serão representa um pouco aquele quarto antigo, recanto independente e puro onde os devaneios corriam ao encontro da espuma das ideias. Conservo a saudade desse tempo volátil como o fumo do cigarro capaz de apaziguar as inquietações do espírito. Certamente por isso este noturno repouso configura a libertação de quem se interroga sobre as horas que preenchem os dias.

Meditar é uma forma de resistência que ajuda a ultrapassar o desgaste provocado pelo desvario coletivo. Os parêntesis da meditação ajudam a suspender as incógnitas do futuro deixando que ele aconteça sem os medos da meninice. É uma forma de amar, neste caso amar o tempo que aí vem, ou seja uma forma de amar a vida no significado mais simples dos afetos. Procurando conviver com as minhas sombras amplio o diálogo com a realidade.

A janela da cozinha não é florida, antes um rosto gasto pela respiração dos anos, ponto de encontro com as subtilezas da alma, onde uma noite as asas do poema voaram na melodia de uma canção enlaçada no feitiço de uma voz feminina. Para minha felicidade a visita continuou a transportar-me à surpresa de um canto matizado pela beleza da oração. Voz de ouro, enchendo a noite, passou a ser a luz dos meus pensamentos. A sua cadência quente e doce atravessa tudo para chegar ao coração onde guardo os passos da memória. Embrulhos de recordações cujos despojos podem ainda servir a sobrevivência do presente.

A vibração do canto levanta-se sobre os telhados e, de janela em janela, corre pelas margens das habitações. Voz de arco-íris saudando o céu da noite, referência para a esperança no dia seguinte, parte da incógnita da sobrevivência. Quem escuta a sereia fugida dos mares do Pacífico para navegar até às serenas águas do Tejo? Quem viaja nesta Nau Catrineta à procura de espíritos inquietos? Quem pode sentir o intocável e ver o invisível? Quem corre pelo campo noturno a espalhar a paz da sua alegria? Pequenas grutas de luz abrem-se nos prédios a fim de acarinharem a embriaguez musical que transporta em si os mistérios da Via Láctea. Suprema ventura esta de cerrar os olhos e abandonar-me à alquimia dos sons.

Até onde vou nestas noites? À beira-mar, passeando com o marido, sonhando as páginas de um romance por escrever; à procura da juventude na saudade da primeira viagem a Londres; à vivacidade dos dias de trabalho antes de a empresa encerrar. Agora alguém chega ao portal da minha solidão com os beijos do meu filho no regaço, as palavras ardentes do amor, a natureza das ilusões que alimentam o destino.

Oh, minha companheira, minha amiga, minha deusa que me visitas com as tuas canções até pousar na janela onde uma mulher te aguarda como se fosses a pomba do Espírito Santo! Oh, voz de paixão, de carinho, de poesia! Voz que iluminas o meu espírito no sentido de aceitar as fadigas de cada dia; sopro de vida que todas as noites me embalas.

Hoje, porém, abri a janela e fiquei sozinha. Nem a lua, nem as estrelas, nem as constelações responderam à minha inquietação. A noite arrefeceu. O ar fresco aproxima o outono. Um ventinho anuncia a queda das primeiras folhas, a melancolia da mudança da hora, a visita das chuvas, a chegada dos frios. Esta noite não tenho companhia. Possivelmente ausentou-se para outro bairro de Lisboa. Invade-me o desconforto da tristeza. Fumo outro cigarro e retiro-me. Na falta da minha deusa esta noite vou ouvir Brahms.

Junho 2015

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