38. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tempos de destruição I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – uma análise social diária na Grécia

Panagiotis Grigoriou, Texto original publicado pelo sítio greek crisis

 

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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2015

38. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tempos de destruição

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Momentos terrivelmente duros. Eleições próximas ao nível da paródia e violadas imediatamente, cidadãos zangados, muito zangados, mesmo, sentindo-se que caíram na armadilha montada por aqueles que controlam o jogo e pelos políticos vigaristas, tanto novos como antigos. A vaga da esperança SYRIZA tendo sido esmagada deliberadamente sobre o dique do memorando Tsipras, nada não será mais como dantes. Os Gregos abster-se-ão talvez massivamente aquando das próximas eleições, ou senão, irão votar como para vomitar no sifão da ditadura imposta.

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Atenas, Setembro de 2015

 

Em Atenas, preparam-se sempre as mesas na restauração para os turistas ou às vezes para os autóctones. O ambiente é contudo muito sombrio, a deceção é quem reina, a revolta germina então tanto sob o sol de Setembro como sob a epiderme das realidades turísticas.

“Não sei ainda que é necessário fazer para dizer m… a todos os políticos abomináveis. Financiamos os seus lugares no Parlamento e é tudo. E uma vez que a esperança viria ao que parece com Tsipras, ele só serviu os interesses da casta de gente que o rodeia antes de se demitir depois de ter degolado o país com o seu memorando. “Não, não irei votar”, tal é o parecer da minha prima Mina, eleitora histórica da Nova Democracia, que votou pela primeira vez (e provavelmente será a última) a favor da Esquerda.
Na cidade ou nos campos os slogans e os cartazes recentes a favor do “NÃO” permanecem intactos mas traídos, os transeuntes passam por eles bem mudos, baixam a cabeça e apertando frequentemente os seus punhos. Daí esta extraterritorialidade social reafirmada quanto aos resultados hipotéticos apresentados pelos que fazem as ditas sondagens de opinião. Na realidade, no deserto democrático da Grécia dos Coronéis eurocratas, tudo é feito doravante de areia movediça.

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Slogans: “Comam os ricos” e “NON no dia 5 Julho ”. Atenas, Setembro de 2015

 

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Cabeça bem alta. NÃO ao acordo. Atenas, Setembro de 2015

 

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Livros vendidos nas ruas. Atenas, Setembro de 2015

Mas creio compreender que os Atenienses se demoram mais em frente das montras de livros de ocasião sobre os passeios da cidade, tempos que correm e tempos que ferem. Salvo que certas novas práticas de bom senso têm-se ultimamente generalizado, incluindo e sobretudo nos bairros residenciais: em vez de os porem no lixo, numerosos objetos e roupas são agora propostos aos outros.
As práticas mudam exceto, talvez, em política. Assustado pelas sondagens supostas conhecidas ou confidenciais, SYRIZA Tsiprochtone, substitui já o seu slogan político central, para melhor aperfeiçoar a sua imagem mediática dada a falta de conteúdo, que não seja o diktat do memorando. Do “ Apenas em frente” passa-se ao “nós ganharemos os nossos dias de amanhã” e todos compreenderão que SYRIZA seria já uma formação política que sente o formol. Não é, de resto, por acaso que Thodorís Kollias, esta luminosidade politóloga muito próxima de Alexis Tsipras, aquele que redigia os discursos do chefe de SYRIZA se demitiu esta semana.

“Já não consigo mais suportar este desperdício, em seis meses apenas, da maior vitória eleitoral da Esquerda através de toda a Europa. Não posso suportar o desperdício numa hora apenas, do NÃO a 62% do povo grego, face a este enorme golpe de Estado político, mediático e de resto iniciado pelos bancos. Estas eleições legislativas de 20 de Setembro não são outra coisa a não ser uma ação de depuração no grupo parlamentar SYRIZA, o todo, construindo, a partir de agora, o indispensável inimigo interno. Trata-se do último episódio da cisão do partido. Demito-me por tudo o que não pude fazer, demito-me por tudo aquilo que não pude dizer, demito-me por tudo aquilo que não pude impedir”. O discurso de um certo método.

 

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Objetos oferecidos. Atenas, Setembro de 2015

 

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Trabalho ao domingo, NUNCA. Atenas, Setembro de 2015

 

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NÃO aos memorandos e apartamentos para arrendar. Atenas, Setembro de 2015

Tempos insuportáveis. Esta semana, num café de Atenas, um homem bem vestido e pouco discreto exprimia-se ao telefone: “Sabes, dar-te-ei dois nomes, é necessário absolutamente que figurem nas listas de candidatos a deputados. Se não o fizerem, vou escrever à Tsipras diretamente e tudo vai pelos ares. Não viemos do PASOK com as mãos vazias”. Pobre gente sobretudo vindos com os bolsos bem cheios. Intrigas palacianas e de clãs.

SYRIZA faria a partir de agora pura prostituição semântica e política, todos se apercebem e numerosos são aqueles para quem “toda a Esquerda deve a partir de agora ser banida, na sequência da experiência SYRIZA”. Curioso destino então para os Tsipriotas e sobretudo bem triste. Podem então ainda recuperar? Recordar-nos-emos assim de certas análises do muito lamentado Cornelius Castoriádis, sempre de atualidade.

“A palavra política está bem entendido extremamente degradada, prostituída mesmo; dão-lhes significados quer demasiado específicos, quer demasiado universais. Para mim, a única definição possível – e aparece já na Grécia -, é a de uma atividade coletiva que tenta pensar-se a si própria e se dá como objeto, não esta ou aquela disposição específica, mas a instituição da sociedade como tal. Fora disso, já o disse, podem-se ter intrigas palacianas, de clãs, revoltas, etc., mas não se tem política no sentido forte deste termo. Quanto a saber se isso coincide com a democracia. Certamente não”. (“La création humaine-III, 2008. Ce qui fait la Grèce 2, La cité et les lois”).

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Leituras, Atenas, Setembro de 2015

 

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O quotidiano. Praça da Constituição. Atenas, Setembro de 2015

 

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Leituras, Atenas, Setembro de 2015

SYRIZA, cada vez mais degradado perde por cada dia que passa cada vez mais os seus neurónios de esquerda. Facto muito marcante, a maioria dos membros dirigentes no Comité central dos jovens de SYRIZA, deixou oficialmente o espaço syrizista esta semana. Um facto importante, no entanto largamente ignorado pela imprensa e pelos restantes meios de comunicação social mainstream.

(continua)

Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

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