38. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tempos de destruição II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

(continuação)

 

“A escolha do memorando III, apoiado ativamente por SYRIZA bem como pela sua adoção por este partido na qualidade de horizonte estratégico, o seu governamentalismo incondicional, a sua marginalização completa e o seu descrédito aos olhos da população tais são as principais razões deste malogro. Consequentemente, já não podemos mais manter-nos ativos em SYRIZA, e ainda menos defender a continuação de uma estratégia de esquerda, porque esta última é doravante impossível neste SYRIZA depois da sua mutação”. É explícito.
Fótis Kouvélis, um muito antigo membro de SYRIZA até 2010, e depois chefe do partido DIMAR da dita Esquerda democrática, (tinha co-governado a Grécia do memorando II em ligação com a Nova democracia de Samaras e o PASOK de Venizélos entre 2012 e 2013), acaba de se juntar a SYRIZA, com numerosos quadros do seu partido (realmente um pequeno grupo), a sua minoria quanto a ela, acaba de se integrar no PASOK, recomposição política aos Cyanoacrylates (super cola) dos memorandos. Escórias e poeiras.

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NÃO, a cabeça levantada. Democracia, Dignidade, Solidariedade. Jovens de SYRIZA, cartaz de Julho de 2015

 

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Regresso a Atenas. Agosto de 2015

 

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Regresso a Atenas. Mendigo, Setembro de 2015

A direção de SYRIZA e SYRIZA governamental já não sabem mais sobre qual o pé com que devem dançar. O seu argumento essencial resume-se então ao seguinte: “Não estamos completamente vencidos, enfrentámos a realidade desta Europa execrável, fomos vencidos mas teremos melhor êxito a prazo porque estaremos melhor armados e melhor preparados, esperando certas mudanças políticas que se irão dar nos outros países da UE”.
Quinta-feira 3 de setembro, Manólis Glézos (figura da Esquerda, Resistente e ex-eurodeputado do recente SYRIZA), na sua conferência de imprensa muito aguardada, preferiu denunciar o falso dilema de Alexis Tsipras (“não havia outra alternativa”): “Tsipras não deveria submeter-se ”. Manólis Glézos tomou contudo as suas distâncias no que diz respeito à nova formação à esquerda de SYRIZA, a da Unidade Popular de Panagiótis Lafazánis (ex – plataforma de esquerda em SYRIZA), confirmando ao mesmo tempo contudo os seus contactos diretos com os Lafazanistes. “No estado actual das coisas e se o meu apelo à unidade de ação não for entendido, votarei KKE (o PC grego), ainda que nem sempre estou de acordo com a sua tácita”, concluí. Sol e nevoeiro na Grécia
Quarta-feira 2 de Setembro, aquando de uma outra conferência de imprensa, os Lafazanistes da Unidade Popular (apoiados antigo pelo více-ministro da Economia Nadia Valaváni e por Zoé Konstantopoúlou, primeira Presidente de uma Assembleia nacional… de esquerda em Janeiro de 2015), apresentaram o seu programa. “Marchamos sobre os passos do EAM, não somos um partido tradicional mas uma frente, e iremos muito longe”, esclarece no preâmbulo Panagiótis Lafazánis.

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Panagiótis Lafazánis aquando da conferência. Atenas, 2 de Setembro

 

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Nadia Valaváni aquando da conferência. Atenas, 2 de Setembro

 

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Do lado dos bancos. Atenas, Setembro de 2015

Panagiótis Lafazánis também declarou que “o euro implica as políticas de austeridade selvagens, a eliminação da democracia e o neocolonialismo. É certo, o caminho para o regresso ao dracma será difícil, mas espero que seguiremos em frente porque a balança comercial será excedentária”.

O projeto eleitoral da Unidade Popular compreende “a nacionalização estratégica dos bancos, a interrupção do pagamento da dívida, porque é ilegal, bem como a anulação de todas as medidas dos memorandos e primeiro que tudo, das medidas imposta pelo memorando III”. Em resposta à uma pergunta posta por um jornalista a respeito do lugar da Grécia na UE, o chefe da nova formação de esquerda diz-se favorável à realização de um referendo (permanecer ou sair), antes de afirmar que, na sua opinião, “em todo caso, na sequência das eleições do 20 de Setembro, haverá um governo de aliança de quatro partidos, SYRIZA, Nova Democracia, PASOK e To Potami” (o partido do Rio… europeísta).

Sobre este último ponto já, está quase tudo feito. De maneira como é exposta e extremamente convincente (de acordo com a lista de argumentos memorandistas naturalmente), Dora Bakoyánnis (Nova democracia, filha de Konstantinos Mitsotakis), exprimia-se sexta-feira 4 de Setembro, entrevistada por Kóstas Arvanítis da rádio 105,5 (de SYRIZA). “O tempo das mentiras e das promessas impossíveis de manter acabou. Não há outra alternativa, é necessário dizê-lo, é necessário explica-lo ao nosso povo. Alexis Tsipras e SYRIZA não podem andar mais tempo com evasivas depois de terem iniciado este memorando III, tão duro de resto como toda a gente o sabe. Votámo-lo com muita pena mas fizemo-lo porque não há nada outra coisa a fazer. Devemos por conseguinte aplica-lo, todos em conjunto, colaborar, governar em conjunto para, por fim, fazer com que o nosso país saia da crise. Depois, sim, reencontraremos todo o campo livre das diferenças filosóficas e ideológicas que nos separam, mas não agora” (citado memória).

 

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Encerramento. Atenas, Setembro de 2015

 

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Encerramento. Atenas, Setembro de 2015

 

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Pequena abertura. Atenas, Setembro de 2015

É necessário, por fim, lembrar que o EAM a que se refere a Unidade Popular, tinha sido a Frente de Libertação Nacional grega, principal movimento que compunha a resistência grega durante o período de ocupação da Grécia pelas potências do Eixo durante a Segunda Guerra mundial, fundado pelo Partido comunista grego (KKE), incluindo contudo membros procedentes de toda a esquerda grega bem como republicanos e democratas.

A Unidade Popular, lado ambiente e não unicamente, pode apenas remeter (neste momento) a uma certa clonagem de SYRIZA de 2012, com o memorando Tsipras a menos e com o dracma a mais. Quando discuto com os mais perspicazes (ou mais loquazes) entre os Lafazanistas, a constatação é antes agridoce: “Não sabemos ainda para onde vamos. A paisagem política foi pulverizada pelo memorando Tsipras. A Esquerda sofreu uma enorme derrota de caracter histórico e pagá-lo-á caro. Talvez, bem, talvez o KKE se venha a reforçar, mas é tudo. A Unidade Popular alcançará entre e 3% e talvez 10% ou mais, ninguém o sabe. No próprio SYRIZA…também já não estão certos de nada. Apenas, o rótulo SYRIZA a prazo está totalmente queimado, morto, digamos. As eleições de 20 de Setembro inaugurarão uma nova fase nas relações entre as formações políticas. E haverá bastantes surpresas, cisões, recomposições. A sequência histórica e política pôr-se-á então em marcha nos próximos meses ou anos apocalípticos que nos esperam ”.

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Afrontamentos e migrantes no porto de Mytileno, no dia 4 de de Setembro.

 

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O porto de Mytileno e os migrantes, no dia 3 de Setembro

 

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Parque de Atenas, refúgio de algum tempo dos migrantes no final de Agosto de 2015

Os anos apocalípticos na realidade nada mais fazem que voltar a ser a realidade. Exceto os memorandos e os outros Tratados neocoloniais do Europeísmo e da mundialização, os Gregos observam e sofrem sobretudo as consequências de uma imigração descontrolada e massiva desde o outro mundo moderno.

A situação nas ilhas gregas do Egeu oriental está doravante fora de qualquer controlo. Sobre o porto Mytileno onde se amontoam alguns milhares de imigrantes e refugiados, é como que um sentimento de antecipação do conflito… que aí vem. Entre a destruição de uma parte do porto, a paragem da sua atividade e a violência entre migrantes e a violência pura e simples, a sociedade encontra-se mesmo à beira da revolta, e ao que parece armada se necessário, história de se proteger a si-própria, como de estar a querer proteger os seus bens e o seu território.

(continua)

Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

38. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tempos de destruição I

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