
Problemas de ontem e de hoje que já não discuto com o meu amigo António Gama
(continuação)
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Portugal, país de imigrantes
Portugal é um país de migrações, de emigrantes, de trabalhadores “destacados”, de imigrantes igualmente. Portugal é portanto atravessado pelos fenómenos mais ou menos dramáticos que atravessam hoje toda a Europa. Um ou outro exemplo dessa situação que atravessa hoje os diversos países, lamentavelmente do sul e do norte da Europa, é o que vos relato nesta crónica refeita agora para ser inserida num livro de homenagem ao meu amigo António Gama. Retomo nesta crónica também excertos de crónicas escritas no tempo em que o meu amigo António Gama ainda estava supostamente com saúde.
Num certo Verão, estava em Faro, era sábado à tarde, quase todas as tabacarias estão fechadas. À primeira vista, diríamos que a desregulação dos mercados de trabalho gerada e iniciada de forma neoliberal, mas ainda não muito intensamente, pelo ministro Vieira da Silva, e depois ampliada de forma violenta pelo governo Passos Coelho não chegou ainda aqui. As vendas são baixas, poupa-se no pessoal precário, sem contrato, é esta a melhor explicação que encontrei para ao sábado à tarde ou no Domingo poder facilmente comprar o jornal.
Vou então longe comprar o jornal. Saio de casa e viro à direita. Junto de uma clínica deparo-me com uma senhora a ouvir com atenção as indicações que lhe estavam a dar. Pela cara de espanto percebia-se de que pouco ou nada percebia do que se lhe estava a ser explicado. Despreocupadamente dirijo-me à senhora.
Pergunto: quer ir para onde? Para Albufeira.
Venha comigo, eu levo-a lá, à gare de onde sai a carreira para Albufeira pois é exatamente para esse local para onde vou também.
Acompanhou-me. Era uma senhora elegante, forte, vestida de modo muito simples, de saia escura e blusa branca. Roupa simples, nada cara, mas elegantemente utilizada. Meto conversa e pergunto de que país é.
Nota-se?
Não, mas se não fosse estrangeira tinha percebido a indicação que lhe foi dada.
Criou-se então uma espécie de solidariedade, uma abertura a perguntas que imediatamente não deixei de fazer.
De onde vem, como veio?
Da Rússia, vim como turista, paguei, fiquei. Foi assim que me respondeu, com um português claro, sem erros, com as palavras bem marteladas, bem incisivas.
Olho, com algum espanto, sinto o aspecto frontal da resposta, a frase curta, olho o busto direito, o andar bem seguro, a franqueza espelhada na cara. Uma “generala” pensei. Uma “generala” de outras paradas militares, claramente era o que o seu andar anunciava.
Como turista terá vindo, pagou, quer dizer que por detrás havia organização, havia gente a ser cobrada à comissão dos rendimentos auferidos por estes emigrantes, os “Al Capones” da fragmentada da ex-União Soviética, com os 10 a 15% mensalmente assim pagos. Sobre isto nada pergunto, como é natural. O espaço de Schengen, a ideia de um mercado livre de trabalho à escala da Europa, ao ser protegido pelos países limítrofes desse espaço com uma peneira que não tinha rede permitiu uma massa brutal de migração clandestina, barata a servir de base de reprodução do capitalismo, já neoliberal. Mas passemos ao lado deste problema.
Viro-me e pergunto de modo bem delicado: diga-me, profissionalmente como é que tem sido a sua vida?
A forma como a pergunta foi formulada, o termo profissionalmente, bem enquadrado da na pergunta, deu-lhe confiança. É ela que agora me olha com ternura, digamos com confiança e com a sua resposta deixou-me pregado ao chão. Profissionalmente, fiz de tudo. Estamos num país estrangeiro. Ninguém nos conhece, ninguém nos vê, não há ninguém das nossas gentes para me ver, para me criticar. Sublinha com mudança de tom a palavra, ninguém! Aqui, e de imediato, lembro-me de Sartre, lembro-me de jovens estudantes do meu tempo, muitos deles mais tarde deram líderes políticos, que no café Nova Iorque ou no Tatoo e nos anos sessenta discutiam existencialismo versus marxismo, lembro-me de uma frase que andava na boca de todos nós: o inferno são os outros. Aqui, de imediato e de forma simples, encontramos o mesmo sentido mas sem marxismo, sem existencialismo.
Fiz de tudo, diz-me. Muitas escadas terão sido lavadas por esta emigrante, muitas escadas terão sido subidas e descidas, com todo o respeito pelas mulheres de limpeza, muitos horários de trabalho terão sido sistematicamente violados.
Fiz de tudo. Muitas estufas de morangos foram apanhadas, muitas caixas foram transportadas, muitas carrinhas de transporte de fruta foram carregadas.
Fiz de tudo, diz-me. Muitos campos de feijão-verde foram colhidos, muitas caixas de tomates por ela apanhados foram encaixotados. Muitas noites de sono de má qualidade, muitas dormidas pelos campos abertos certamente, muitas dormidas, na melhor das hipóteses, em quartos de 8 a 10 pessoas, por quarto com a cama sempre quente já como na China, ou como perto da rotunda do Hospital de Faro, noites mal passadas por aqui ou algures e caladas pelo silêncio de toda a gente, inclusive pela ignorância sistematicamente assumida pelas autoridades oficiais responsáveis pelas condições de trabalho de toda a gente[1].
Fiz de tudo, diz-me. Algumas noites também por esses mesmos campos ao luar e enrolada poderá ter andado com quem não sabe quem, no quadro de uma torre de Babel de ucranianos, russos, moldavos, e pasme-se, de chineses e chinesas também, com horários de 12 horas a 16 horas talvez. Sobre esta gente, não quer o governo nada saber, sobre esta gente não se pronuncia o Serviço de Fronteiras, sobre esta gente quer o Ministério do Trabalho tudo ignorar, até porque do ponto de vista neoliberal é gente completamente descartável. E o problema é igual por todo o lado. Passa-se o mesmo com estes trabalhadores em Espanha, em França, na Itália e mesmo, até há uns atrás, com os morangos criados em altitude na Grécia de antes da crise. Como assinalava o antigo ministro da Agricultura do V Governo Provisório, Oliveira Baptista, como é que dormem as romenas, por exemplo, da apanha do morango, ninguém sabe, ninguém quer saber, também. Gente descartável, a lembrar os textos de Kevin Bales, gente a que a Troika, a Comissão Europeia, o BCE, o FMI, os diversos governos neoliberais andam ainda ao assalto, como verdadeiros ladrões, mas não na calada da noite, a lembrar Zé Afonso, mas sim à luz do dia, munidos de um poder que lhes concede a ideologia que as Instituições produzem e que depois difundem por todos os meios possíveis e também munidos com o poder que lhes dá o voto que lhes confiámos, a lembrar Marx também, ele que está cada vez mais actual.
Fiz de tudo, é a sua expressão, e nas condições em que fez de tudo, meu Deus, muita gente andou sem trabalho, sem fazer nada, porque simplesmente neste tipo de trabalho os trabalhadores nacionais com direitos são excluídos pelos patrões e acusados depois pelos neoliberais de hoje e outros de que os portugueses não querem é trabalhar, porque o subsídio de desemprego é elevado. Do mesmo são desde há alguns anos acusados os gregos, pelos alemães! Deslocalização no local, diriam os economistas: já que os terrenos não podem ir ter com os trabalhadores onde eles estão, então que venham os trabalhadores para onde estão os terrenos mas com os níveis salariais dos seus países de origem ou muito pouco mais. Adicionalmente, estes podem aceitar outras condições de trabalho bem mais gravosas, menos custosas para os patrões, até porque ninguém conhecido os vê a que se sujeitam. Deslocalização no local feita por trabalho migrante, sem direitos, muito dele ilegal, tem sido a realidade interna do nosso país depois da queda do muro de Berlim e até muito recentemente, sobretudo até ao rebentar da crise. Na mesma categoria de deslocalização no local se insere o trabalho feito pelo trabalhador destacado e nesta situação há muitos portugueses a trabalho precário no estrangeiro, sem que ninguém se preocupe com a aplicação do direito do trabalho e que muitas vezes se transforma, depois, em trabalho ilegal como aquele que é intensamente explorado no nosso país. As crónicas estão cheias de casos destes. Mais grave ainda, para todos estes trabalhadores, o Direito do Trabalho é já uma peça de museu, devido à desregulação intensa dos mercados de trabalho realizada nestes últimos anos, sobretudo nos de crise.
Fiz de tudo é o que esta mulher me diz. E com isso foi assim a sua luta pela vida para mais além e mais alguém, a luta pelos seus a tudo exigia. Pela sobrevivência, foi isso, é isso.
Lembro-me igualmente do 25 de Abril, lembro-me da exigência das multinacionais numa desvalorização do escudo em 15% para tornar o custo da mão-de-obra portuguesa equivalente ao de outras paragens com a ameaça de que se iriam embora, ameaça feita por volta de Março de 1973 ou mesmo 1974. Lembro-me da fuga das multinacionais de Portugal, o país que representava então a maquilhadora embrionária a ser testada para o mundo inteiro, dizia-se a produzir em regime de drawback, lembro-me das centenas de raparigas que de um dia para o outro ficaram na rua sem nada, sem emprego, sem dinheiro, sem futuro, com um presente a ser vivido no passeio como fonte provisória de rendimentos imediatos. Voltar para a terra, de mãos a abanar, assumidas como falhadas, isso não. Também aqui, ninguém as via e o inferno eram os outros. Durante algum tempo assim terão ficado.
Mas como é evidente, as falhadas não eram elas. O seu desemprego era a resultante do modo de produção capitalista em Portugal, por razões do fascismo, estar completamente desajustado dos mecanismos da concorrência selvagem à escala global que já se faziam sentir. Fomos os primeiros na criação do que hoje se chama zonas especiais para exportação, ou zonas de produção off shore. Veio a seguir a maquilhadora no México, veio depois a zona especial de exportação que foi a China, vieram outras zonas especiais e depois veio a crise brutal que nos assola agora. Mas isto são outras histórias. Fica aqui apenas o paralelo, dois sistemas, por um lado, a queda da Rússia e a do Muro de Berlim e, por outro lado, a vinda do 25 de Abril, a queda do fascismo em Portugal. O inferno são os outros é a verdade que se instala no pensar e no sentir nas vítimas imediatas resultantes de cada uma das quedas. Mas ensaiámos para o Mundo os primeiros passos do que hoje se chama globalização.
Face a esta resposta da nossa imigrante russa disparo a pergunta seguinte, pergunto-lhe então o que é que fazia na Rússia?
Muita coisa, fui empresária, tive lojas, trabalhei com a polícia, fiz muita coisa. O meu marido morreu, passei a ser a base da família, veio a queda de Gorbatchov, tudo se tornou difícil. Emigrei para Espanha. Não gostei. Éramos vistos como escravos, nunca como pessoas. Vim para Portugal, gostei, fiquei.
Hoje trabalho numa clínica em Albufeira. Vim a Faro trazer análises a uma clínica. Não percebo. Vir de Albufeira aqui. Economicamente não percebe o vosso sistema de saúde.
Fica-me no ar o sentido apurado que ela tem quanto ao sistema de saúde, fica-me também presente o termo polícia, fica-me no ar o seu aspecto e o seu andar fisicamente desenvolto. Claramente andar de militar, postura toda ela de militar.
Fala de família. Veio então com a família para Portugal?
Não. Mas já viveram comigo. Tenho dois netos. Com o primeiro na escola primária em Portugal vi que não aprenderia nada de jeito. O segundo neto, mais novo, iria depois pelo mesmo caminho. Ficaria com dois ignorantes. Disse à minha filha que pagava tudo mas queria-os na Rússia, não queria dois ignorantes em casa. Lembro-me do filme os Os Lisboetas de Sérgio Tréfaut, lembro-me de uma cena em que na praia uma emigrante comentava e afirmava que o pior que havia em Portugal era o nosso sistema de ensino.
Olha-me com serenidade. Estamos a chegar ao Hotel Eva, para as camionetas e para a sua viagem, estamos a chegar ao meu quiosque também para poder comprar os jornais. Tem uma cara que é só ternura e firmeza ao mesmo tempo, corpo direito como se estivesse a olhar para uma parada militar, o peito atirado para a frente, uns olhos que brilham como o sol a acompanhar a resposta que se segue: Quero que os meus netos quando chegarem à idade adulta tenham as ferramentas que lhes possibilitem serem capazes de enfrentar o mundo e de nele se situarem condignamente. Imagino-lhe os seus seios como duas fontes capazes de dar de beber ao mundo, a todos os nossos filhos e netos em situação de precariedade, vejo-lhe os braços fortes, com a força de quem pode carregar com os meninos deste mundo, sejam Jesus ou outros, vejo-lhes as mãos com a garra de quem o futuro dos nossos netos é capaz de embalar, vejo-lho o dedo indicador apontado para a frente, num ângulo de 45 graus como que a apontar entre o Céu e a Terra, como que a situar-se entre o ter e o não ter, entre o ser e o não ser, a dizer-me que hoje é essa sua missão, em frente pois.
Pergunto, por fim: e se não há camioneta?
De novo a segurança de quem se sente no seu caminho, a percorrer o seu presente e a caminho do seu futuro, de novo uma resposta para mim inesperada.
Se não houver camioneta, faço o redondo, faço a estrada. Olha-me com um ar de galhardia, como quem diz, estou segura.
Fixei-me na segurança daquela mulher, a minha Marechala. Fico-me com a certeza de que ninguém lhe fará mal, na boleia que pode ser pedida ou que lhe pode ser oferecida, fico-me com a certeza que ninguém, será mesmo capaz de lhe fazer mal, mesmo que queira, tal é a vida, tal é a força que se respira nos seus movimentos, nas suas palavras.
Quando acaba de falar, paro eu cheio de espanto, para ela, olho e veja-a então como uma Maria, a da Rússia, como uma Maria a de Jerusalém, como uma Maria, a de West Side Story, e sobretudo, mas sobretudo, vejo-a como a Maria de Fritz Lang em Metropólis, na cidade dos escravos, onde só há agora escravos ou senhores porque os outros, os poucos intermediários que existem, estes, só conhecem o caminho socialmente descendente.
(continua)
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[1] Este excerto faz parte de uma crónica escrita em 2012. Em 5 de Dezembro de 2015 relata o Expresso numa crónica intitulada Frutos da Circunstância o que se passa agora nos campos de Odemira. Aí pode-se ler:
” O mundo vem aos poucos para Portugal. Já deu origem à maior de todas as vagas migrantes na região, com passaporte asiático. S. Teotónio transformou-se numa verdadeira multinacional… Entre os que estão de passagem e os que ficam, os legais e os clandestinos, os que vieram e os que já estavam, o que é estatística e não é, são eles a mão-de-obra para as macroexplorações hortofrutícolas que invadiram a região.
É trabalho duro, de sol a sol, debaixo de quilómetros de estufas, a temperaturas altíssimas. Moram onde for preciso, onde for mais barato, onde caibam muitos e se pague pouco. Alguns comem e dormem ao lado do posto de trabalho. Outros em pensões superlotadas de zero estrelas, em casas de crepitas, em residências improvisadas, em campismos selvagens, em contentores.” Nada mudou, portanto, em Portugal ou, se mudou, foi para pior…
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Para ler a Parte I de Problemas de ontem e de hoje que já não discuto com o meu amigo António Gama, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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Leia também Morreu o Professor António Gama – a homenagem de Júlio Marques Mota, em A Viagem dos Argonautas, acedendo ao link:

