
Problemas de ontem e de hoje que já não discuto com o meu amigo António Gama
(continuação)
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O alargamento das desigualdades no modelo neoliberal
Na Rússia ela quer os seus netos como senhores talvez de outro sistema certamente o que era bem explícito na crítica velada ao nosso sistema de saúde, disposta ela a todos os trabalhos que para isso forem necessários, porque cultiva a cultura e di-lo a um professor universitário que ser sente num país onde as Universidades passaram a cultivar a ignorância, a importância da austeridade, e que por isso abandona o ensino antes do final do seu contrato face ao descalabro cultural a que estava a assistir e de que não queria ser cúmplice. Mas neste país de que a minha marechala se queixa do seu ensino, da reforma dita de Bolonha ninguém fala. Pacto da ignorância entre as diversas forças políticas do arco da governação, entre as quais o próprio PS?
Mas a Maria, a da Rússia, ignora a crise ocidental, os mecanismos que a produzem e que tudo arrasam e hoje não sei se terá emprego, em Albufeira ou algures, se não lhe terão cortado nas remunerações, se o dinheiro a enviar passou a não ser suficiente para formar os seus netos, jovens do futuro, se tudo se lhe tornou ou não ainda mais precário. Ela ignora a crise que é traçada e desenvolvida a partir das cidades onde se dinamiza a crise que as Marias algures combatem, nas Metrópolis do mundo moderno e talvez não haja melhor descrição dessas cidades do que a dada pelo Financial Times a propósito de um dos centros mais importante onde se desenvolve a crise actual, o principado do Mónaco:
“ O principado do Mónaco pré-configura o mundo moderno onde há apenas duas classes: os proprietários de jactos e os que andam de autocarro. Quem não pertença a estas duas classes é suspeito e é susceptível de ser preso pela polícia. Há um polícia por cada 62 habitantes, e câmaras de vigilância por todo o lado a fim de que o Príncipe Albert – que tudo supervisiona à maneira de um senhor feudal- não seja incomodado. O barulho é o inimigo público nº 1 do Principado ainda mais que o socialismo”[1].
Mas a Maria, a da Rússia, ignora tudo isto, eu não, nós todos também não.
A Maria, a da Rússia, não sabe nada disto, da precariedade mais absoluta que se possa imaginar e num país que ela considerava como muito humano. Nós sabemo-lo.
A Troika, a crise, os governos nacionais dela dependentes directa como Portugal, Grécia, Irlanda, Chipre, ou indirectamente como a França, Espanha, Itália, governos nacionais que são os verdadeiros servidores, os verdadeiros intermediários do poder das Metrolopolis modernas, bem se encarregam de conduzir esta precariedade ao nível do nunca pensável por ninguém, nem por nenhuma Maria isoladamente. São precisas, muitas Marias mais, a da Rússia, claramente só por si não chega, são precisas todas ou quase todas as Marias do mundo para acabar com o desprezo por quem trabalha e por quem têm direito ao trabalho condignamente.
Dessas histórias há por ai aos milhares. É passar à hora de almoço por uma das estufas que se estendem pelas vizinhanças de Faro e ver as centenas de mulheres de vários países e de diferentes continentes onde só os liga uma língua comum, a do silêncio, uma vivência comum, a da precariedade quase absoluta, um desejo comum, o da sobrevivência. Mas de imigrantes, como crónica já nos chega, falemos antes da procura pelo governo Passos Coelho de criar emigrantes à força.
Conheço muita gente na casa dos 30 anos que não encontra emprego, licenciada e até com mestrados de boa qualidade que emprego não encontra ou quando encontra, não tem nada a ver com a formação adquirida. O efeito de funil no mercado de trabalho: os qualificados, a par da redução de efectivos feita a pretexto da ou pela crise, vêm substituir os outros menos qualificados que eles mas ao nível de salários dos que são despedidos. O absurdo vai ao ponto de termos gente qualificada a trabalhar nas obras da construção civil, porque por limitações de vária ordem, não querem sair da região onde vivem casados e na região não há postos de trabalho qualificados. Não há, houve. Lembro aqui a queda do Bloco Leste e da “invasão” de gente de Leste que veio trabalhar para Portugal, lembro aqui uma história fabulosa. Uma senhora da média burguesia alta de Lisboa mandou reparar um piano de meia cauda. O piano teve que ser deslocado para a oficina para reparação e afinação. Até aqui tudo bem. Depois, vieram trazer o piano. Depois de posto no grande salão e no local que sempre esteve pelo piano ocupado nesta sala, um dos carregadores pediu autorização para experimentar o teclado e tocar uma ou outra nota. Com certeza, diz-me amavelmente a senhora, a proprietária daquela preciosidade, toque, toque. E o carregador sentou-se e de repente… E as notas de uma peça para piano de Chopin soltaram-se pelo ar, entraram no coração daqueles homem que nunca as terão ouvido e tornaram os olhos húmidos daquela mulher que com tanta delicadeza tinha antes dito: toque, toque, com certeza. O homem tocou e quando acabou um silêncio sobrepôs-se à ultima nota da peça. Todos os presentes se entreolhavam e olhavam para o pianista de ocasião enquanto este ficou imóvel a olhar para o teclado, para a marca do piano e olhou para o tecto, olhou para o seu Deus e para consigo terá dito, a falar com os seus botões: obrigado, meu Deus, ainda sou eu! Mas a dona do salão, com um ouvido de tísica ainda ouviu a repetição deste murmúrio e questionou o pianista de excepção que sem nenhuma informação quanto a esta sua qualidade lhe entrou pela casa sem essa correspondente permissão. Onde aprendeu? O que se passou para estar aqui como carregador? E todos pareciam ter pés de chumbo, de tal forma se sentiam pregados ao chão. Era romeno, tinha sido médico na “corte” de Ceseauscu , desde pequeno tinha aprendido piano, era pianista. Com a queda do muro de Berlim, com o endurecimento político na corte de Bucareste fugiu como milhares o fizeram. A senhora da média burguesia alta interessou-se pelo caso, moveu este mundo e o outro e mais tarde este homem praticou legalmente medicina no Alentejo. Foi o que percebi de uma reportagem da TV. A história em si conheço-a pelo irmão da dona do piano. Mas a história é em si um símbolo de uma queda, de um sistema, o sistema de economia centralizada.
Porém hoje a ideia que se tem é que, e de acordo com Charles Pasqua, o muro de Berlim não caiu apenas para um dos lados. Talvez mais lentamente mas também caiu, para o lado de cá para o Ocidente. Uma análise do que se passa no mercado de trabalho hoje em qualquer país da Europa não será muito diferente. Retirem-lhe o médico, a história porém é verídica, e percebe-se que se trata de um exemplo entre milhões de exemplos semelhantes. Tal como a Leste é também o Ocidente que está a morrer.
Como assinala Paul Craig Roberts, agora em Dezembro de 2015: por estes dias, o empregado do restaurante que o serve pode ser um professor universitário adjunto ou a tempo parcial, com a esperança de conseguir um emprego em tempo integral como actor. De modo equivalente, em Portugal, temos mestrados a trabalhar nas obras. É a precariedade desta gente que está assegurada e para muitos anos, lamentavelmente, penso eu.
Lembro ainda aqui o exemplo de um antigo aluno meu, formado no final dos anos 70. Director comercial de uma grande empresa da distribuição, ganhava na ordem dos 5000 euros mensais. Veio a crise e na mesma empresa, redução de pessoal, redução de rendimento e depois, mais tarde, despedimento. A seguir, de emprego em desemprego, de desemprego em emprego, no último emprego em que trabalhou já ia nos 800 euros. Despedido, mais uma vez, e sempre pelo efeito de funil, concorreu a uma outra empresa e na entrevista final e ainda foi submetido à seguinte pergunta, depois de conhecimento prévio de todo o CV: quanto é que acha que lhe devemos pagar. Aí, este meu antigo aluno levantou-se e, calmamente, disparou: só merece uma resposta. Vá à p. que o pariu. E saiu. Nunca mais o vi. Uma história que não é, em si-mesma, muito diferente do nosso pianista que também era médico, que também era carregador de pianos e de outras cargas mais.
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Portugal a forçar a emigração
Somos pois um país de migrantes, de gente que sai, de gente que entra, de gente que o país quer por fora. E aqui lembro-me de um amigo meu, residente em Faro, marceneiro de vocação e desempregado como profissão
Nesse mesmo ano em que conheci a minha “marechala” russa, quando cheguei ao Algarve, falei com um amigo meu, homem de mãos marcadas por obra de classe ao longo de muitos anos na madeira talhada, sobre a situação de crise no mercado de trabalho de gente não muito especializada. Emprego, pergunto. A resposta? Nem a esperei, vi-a na cara dele. Perguntei-lhe se já tinha ido ao centro de emprego, onde direito a subsídio já não tinha. Diz-me que sim, registou-se como candidato a emprego em obras de carpintaria para a construção e, pasme-se, ofereceram-lhe sem direito a mais nada como compensação a possibilidade de ir ter aulas, gratuitamente, de alemão. Aulas de alemão para um homem desempregado da construção já com 55 anos e, portanto, sem ouvido para aprender alemão ou uma outra língua do mesmo género. Anedótico. Aqui milhares de homens sem emprego e com os prédios da parte histórica de Faro a cair por falta de obras de restauro. E a estes homens, oferecem-lhes aulas de alemão, para emigrarem, para irem servir as necessidades locais da senhora Merkel! Onde está então a afirmação chave da União Europeia, de Juncker, de Draghi, de Schauble, de Merkel, de que a austeridade traz consigo o crescimento ou a afirmação de Passos Coelho, aquando primeiro-ministro de que é preciso empobrecer para depois poder crescer?
Percebi, lembrei-me então do demógrafo catalão de residência, Edward Hugh, e fiquei a saber que ao nível do nosso anterior governo houve gente a pensar que o melhor seria fechar a porta e mandar toda a gente embora, possivelmente para a Alemanha, a confirmar que sonho alemão significa pesadelo europeu. Seria o nosso Primeiro-ministro de então, Passos Coelho ou algum dos seus ministros, que iriam então desligar as luzes e trancar as portas e adicionalmente, para maior segurança da sua obra malvada, colocar-lhes múltiplas correntes e cadeados para ninguém as conseguir abrir e voltar a entrar? Uma mão-de-obra barata, sem direitos e sem Pátria, a vender-se por essa Europa fora, era este um dos resultados desta política, o resultado desta globalização feita a todo o custo e contra todos os direitos de cidadania. Seria pois este o caminho para o estabelecimento do capitalismo global e sem uma governança global, onde o trabalho seria apenas uma variável de ajustamento.
A este nível a União Europeia com as suas políticas de austeridade, com os seus tratados e a sua arquitectura institucional aparece a reforçar essa mesma dinâmica globalizante e selvagem afastando-se por isso mesmo dos ideais da Europa dos cidadãos com que muitos de nós sonhámos. Compreende-se pois que contrariamente ao Tratado de Roma a União Europeia seja agora talvez o espaço económico mais desprotegido em termos de mercado mundial. A globalização, primeiro, a protecção aduaneira, depois!
(continua)
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[1] Nicholas Shaxson, Les Paradis fiscaux : Enquête sur les ravages de la finance néolibérale, ed. ANDRE VERSAILLE, Abril de 2012.
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Para ler a Parte II de Problemas de ontem e de hoje que já não discuto com o meu amigo António Gama, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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Leia também Morreu o Professor António Gama – a homenagem de Júlio Marques Mota, em A Viagem dos Argonautas, acedendo ao link:

