(continuação)
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O que tudo isto nos mostra, e não devemos esquecê-lo, é que a história se repete como tragédia primeiramente e depois como farsa. É o que se passa aqui e agora. Relembremos, a desregulamentação dos mercados na Europa e que levou à crise é uma obra da esquerda, porque queria estar à frente na cavalgada wagneriana para a globalização, para o abismo, sabemos nós agora, dada a situação de crise de onde ainda não se saiu. Isto é a tragédia. A farsa agora é que essa mesma esquerda oficial, aliada agora explicitamente à direita, em nome do euro, da austeridade, da dívida, fazem a grande coligação do arco da governação (esquerda oficial+direita) que se prepara para criar a situação de uma nova crise mais violenta ainda que a anterior, como a colectânea de textos que iremos apresentar no-lo mostra. Fazem-no em nome da Europa, como se para salvar esta União Europeia seja necessário introduzir um fascismo “mole” em todo o espaço europeu, uma vez que a repressão policial do fascismo clássico é substituída pela repressão criada pela precariedade. Farsa igualmente porque os seus defensores estão a destruir a Democracia considerando que a estão a salvar!
Em Portugal estaríamos a seguir o mesmo caminho que a grande coligação francesa (PS+Repulicanos) está a querer seguir, se homens de esquerda como as gentes da liderança actual do PS, do PC e do Bloco de Esquerda não tivessem tido a coragem de minimizar a importância das suas diferenças para maximizar a importância de dizer não à política absurda que os funcionários locais de Bruxelas, Paulo Portas e Passos Coelho, queriam continuar a praticar. Nem é por acaso que se tentou encostar o PS à Coligação de direita, directa ou indirectamente, como foi o caso com o actual ocupante de Belém; não é por acaso que a direita mais reaccionária do PS, mas com um belo discurso, liderada por Francisco Assis, tentou impedir a criação da Coligação à esquerda; não é por acaso que se levantou ao nível dos media a hipótese de Assis ir em frente e de se constituir depois, um grupo independente de deputados que a seguir se encostaria à direita, coligando-se com ela a troco de alguns cedências secundárias ao programa acima referido. Salvava-se o arco de governação pró-euro. O discurso elegante a justificar isso mesmo seria a salvação do País face à ruptura que a Coligação de esquerda faria com a nossa cultura, com os nossos costumes, com os nossos compromissos internacionais, e garantidamente haveria gente para o escrever. Simples, portanto, e tudo isto para se inserir na trajectória de Bruxelas, (pró UE, pró euro, pró reembolso da dívida, pró classes dirigentes actuais no poder ou na sua vizinhança) que como vimos é a submissão ao capital financeiro e é também a fascização das sociedades (duas realidades que se quer agora explicitamente que andem a par).
O leitor deste blog dirá que se está a exagerar. Já com este texto acabado e em fase de revisão, leio num artigo publicado por Social Europe escrito por Wolfgang Kowalsky (um conselheiro do movimento sindical em Bruxelas) um artigo intitulado There A Future For Europe? de onde transcrevo:
Assim, o que deve um trabalhador pensar dos ataques persistentes que são feitos à Europa social? Isto pode parecer uma questão de pura retórica, mas é uma pergunta fundamental, porque se materializou: uma tendência com aspecto duradouro. É a extrema-direita que se estabelece como a única força que diz claramente: ‘Nós acabaremos com este tipo de Europa!’ Na Alemanha temos uma palavra fabulosa para isto : ‘Alleinstellungsmerkmal’ (USP)
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Um grande número de trabalhadores que tem vindo sucessivamente a crescer verifica que o que se está a considerar como correcto e é uma ideia que se difunde rapidamente é que é mais promissor apoiar Le Pen, que se dispõe a pôr um fim nesta Europa através de um referendo a ser organizado após as próximas eleições presidenciais em França. E uma saída da França , comprometeria o projecto europeu muitíssimo mais seriamente do que o Brexit sobre o qual os media andam tão alarmados.
Que podemos aprender com estas eleições regionais francesas? A ausência de debate político sobre o futuro de França durante a campanha foi chocante: nenhum debate sobre o tema, apenas a obsessão com a Frente Nacional de Marine Le Pen que, por seu lado, utilizou grande parte da atenção dos media para fazer campanha em defesa das suas teses. Os debates controversos sobre temas alternativos – não somente a nível nacional mas igualmente sobre um projecto europeu enfermo e desconfigurado – devem ser a pedra angular de todas as eleições na Europa, em vez de se andar a ficar cegos e petrificados como um coelho face a uma serpente.
A política da União Europeia insere-se pois nesta trajectória, a da dominação do capital financeiro, a da fascização das sociedades nacionais, e a UMC será um dos seus instrumentos chave, representando assim um retorno ao que se passou nos Estados Unidos e que deu origem à crise neste país. A União Europeia sete anos depois da crise não tem mais nada que nos dar para sair da crise senão a política salarial deflacionista, senão a economia de papel, do papel dinheiro injectado quer via quantitativc easing, quer via acordos SECRETOS entre o BCE e os bancos centrais nacionais (BCN) chamados ANFA “Agreement on Net-Financial Assets” (acordos secretos sobre os activos financeiros líquidos) e agora com a UMC quer renovar a titularização financeira. Um comentário rápido sobre cada um destes quatro instrumentos:
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Ainda agora o FMI através do seu staff de economistas publica um documento onde continua a defender a aplicação para a Europa da quantitative easing em conjunto com a deflação salarial, ou seja com a baixa dos salários reais nos países em dificuldade. Disso nos falará o texto nº 1 da série.
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Quanto ao quantitative easing este vai continuar, como o declarou Mario Draghi na semana passada, ou seja vai continuar a injecção massiva de dinheiro sob a obrigação de se praticar a política desenhada pela Troika, a política de austeridade, ou de forma mais elegante, sob a obrigação de se aplicarem as reformas estruturais.
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Quanto aos ANFA lembramos aqui que o Banque de France teria 170 mil milhões de euros de títulos no final de 2014 nas suas carteiras ANFA enquanto o Banca da Itália deteria 125 mil milhões de euros.
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Quanto à titularização, os dados pretendidos são o aumento da liquidez. Com efeito, quanto à dinamização da titularização, de resto, a Comissão é bem explícita: “se pudermos levar os volumes de titularização na UE aos níveis médios que se atingiam antes da crise, isto permitiria gerar entre 100 e 150 mil milhões de euros de financiamentos suplementares para a economia”; Quanto a isto um conjunto de ONG num apelo público afirmam:
“Parece pouco verosímil por exemplo que o retorno à titularização possa ajudar as PME dado que é demasiado complexo e dispendioso trabalhar sem subvenções. Além disso, na ausência de escassez de financiamento em média, os bancos podem doravante emprestar mais. Não há então nenhuma necessidade evidente de promover um financiamento pelos mercados em detrimento do sistema bancário tradicional.”
Em suma, a Comissão Europeia está a procurar avançar ainda mais rapidamente para uma nova crise[1] que, a dar-se, poderá ser ainda bem mais violenta que a que se tem vindo a atravessar e de que não se vê o fim ao fim do túnel. No fim, talvez estejam as tropas de choque para manterem esta ordem antidemocrática assim criada.
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[1] A este nível sugiro a leitura de um livro em que sou co-autor, A Crise da Economia Global-alguns elementos de análise, de Júlio Mota, Margarida Antunes, Luís Lopes, Editor LIVRE. Aliás, a livraria WOOK sintetiza muito bem esta obra: “Assinado por três professores da Faculdade de Economia de Coimbra, este livro estabelece uma ponte entre as duas crises maiores do sistema capitalista: a de 1929-1933 e aquela que estamos a viver, desde 2007/2008. De facto, voltar a 1929 – para se compreender a razão de ser das reformas de Roosevelt – é um percurso indispensável para se compreender a dinâmica da crise actual.” Nós agora achamos importante esta obra como uma descrição do caminho para a crise futura. Triste dizê-lo, porque falamos de uma crise futura quando ainda não saímos da crise actual.
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