(continuação)
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Face a um valor dado de produção nacional, o PIB, teremos então uma taxa de lucro para o capital financeiro, (Rf), uma taxa de lucro para o capital da economia real, (Rer), e ignorando outros direitos como patentes, rendas etc, teremos também uma taxa de salário, ou seja o salário por trabalhador. Em síntese, temos três variáveis na repartição, lucros do sector financeiro, lucros do sector produtivo, incluindo rendas e outros factores na repartição, e salários. É neste quadro que os conflitos sociais se desenham e é ao nível do Estado que os mesmos encontram o lugar de articulação ou compatibilização para se evitarem rupturas sociais e políticas.
O sistema repressivo sobre os direitos sociais é também um instrumento para se conseguir reduzir o salário real. Desta forma, contentam-se também franjas da burguesia dos serviços e compensa-se relativamente o capital da industria, uma vez que fixada a taxa Rf (taxa de remuneração de equilíbrio do capital financeiro) através da pressão à baixa da taxa Rer (a taxa de remuneração do capital não financeiro) os detentores de capital não financeiro poderão neutralizar total ou parcialmente esta pressão de Rf à taxa da remuneração do seu capital, (Rer) exercendo-se uma maior pressão do capital como um todo sobre à baixa na remuneração do trabalho e sobre a redução de outros custos, daí o caminho para a desregulação total dos mercados. Basta ouvir em Portugal o patronato do comércio e o da indústria a falar sobre remunerações salariais para se perceber bem o que acabamos de afirmar. Sintonia perfeita quando se trata de reduzir os benefícios sociais. Basta igualmente ver o espectáculo degradante destas confederações a contestarem um aumento do salário mínimo efectivo de cerca de 20 euros! Adicione-se as declarações dos homens da banca, como por exemplo, a de que o povo português aguenta, aguenta a austeridade imposta ( ou seja os trabalhadores no efectivo ou reformados) Isto diz tudo desta selvajaria em marcha.
Neste contexto, o Estado como espaço de gestão dos conflitos entre capital e trabalho, à Nicos Poulantzas, desapareceu, é substituído por um espaço onde se desencadeia uma luta violenta entre os dois tipos de detentores de capital, o que por outro lado, impõe a neutralização da classe operária como classe, ou alternativamente, como outra forma de dizer o mesmo, impõe a fascização das sociedades, pela submissão total de grande parte da população aos desígnios estipulados pelas alianças e desacordos também entre os grupos de capitalistas em presença . É este o processo actualmente em curso e em que a Troika serviu como instrumento de intensificação da sua marcha, que diríamos, a caminho dos anos 30.
A França é deste ponto de vista um bom exemplo do que acabamos de afirmar. Aliás, a propósito das recentes eleições em França e da subida espectacular da Frente Nacional diz-nos Guillaume Bigot em L’euro à la lanterne- Le clivage droite-gauche est redevenu celui de janvier 1793, publicado pela revista Causeur, onde a referência a 1793 é bem significativa pois é o ano em que o rei foi decapitado:
“Considerando o resultado do regionais com um pouco de distância formular-se-á a seguinte hipótese: a Frente nacional tornou-se o primeiro partido de esquerda na França. Uma hipótese que parece deslocada. No entanto, se quisermos considerar os factos, observar os mapas e colocar a novidade dos resultados no tempo longo da evolução social, veremos que se está a dar uma revolução – no sentido astronómico do termo – na definição da segmentação entre direita e esquerda que se esta a desenrolar talvez sob os nossos olhos. (…)
Para compreender o que se passa no xadrez político de França, ligue-se o comportamento eleitoral com o perfil sociológico dos eleitores: 50% dos trabalhadores, 40% dos empregados, 37% dos agricultores votam Le Pen, 30% das categorias intermédias, professores, função pública, funcionários dependentes do Estado, territorial ou hospitalar (fora das categorias A) coloca um boletim FN na urna.
Por outro lado, explica-nos o Instituto de sondagens IPSO relativamente ao perfil social dos eleitores:
“a FN capta 42% dos votos dos trabalhadores, 34% do voto dos empregados e perto de 30% dos eleitores pouco diplomados ou mais modestos. ». (…) Ipsos refere igualmente que o partido frentista começa a realizar percentagens não desprezíveis no conjunto dos quadros (15%) e das profissões intermediárias (16%), profissões normalmente mais inclinadas a votarem pelos partidos do governo.”
Mas continuemos a ler o texto de Bigot:
“A nova frente oferece um traço de memória desconcertante dos sem nada e dos bonapartistas, do PCF e do gaullismo . A Frente Nacional é a nova referência eleitoral de uma França que coloca a igualdade e a autoridade (duas realidades gémeas) primeiro que a liberdade. Esta aliança clássica do nosso romance nacional acaba por se traduzir, às vezes sobre o inevitável e sobre o melhor, o Imperador ou o General e, por vezes, no que há-de pior ou de insignificante, Doriot ou Boulanger.
Segundo a sociologia e a cartografia, observe-se o mercado das ideias. Valls e Sarkozy, por exemplo, utilizaram pelo menos 50% do programa da Frente Nacional (…) . Existem 50% do programa de Le Pen não-disponível para ser utilizado pelos partidos do governo. O resto está ligado à economia. Ora, são estes 50% que geram a nova clivagem entre a esquerda e a direita.
Enraizado sobre terras de esquerda, captando um eleitorado “objectivamente” à esquerda, a nova Frente Nacional (Marine Le Pen) promove um programa económico de esquerda, preconizando a ruptura com o ordoliberalismo (em geral, uma grande parte da dívida monetariza-se e a França sofre mais de uma falta de procura do que de um problema de oferta). Que a FN engane ou não o seu mundo é uma outra questão.
É sobre estas soluções económicas radicais (na realidade muito próximas, sobre este ponto, do que propõe a Frente de esquerda) que Marine Le Pen revela a sua natureza, e não sobre a imigração ou a insegurança. Estas últimas temáticas são recicladas pela direita oficial (LR) ou por uma direita oficiosa que ainda não fez o seu “outing”, ou seja, pelo PS também.
Com os tecnocratas da ENA à cabeça ( ENA- Grande Escola da Administração Pública em França de onde saem os altos quadros da Administração Pública), as pessoas mais velhas e mais bem posicionadas profissionalmente, as categorias sociais de vida mais fácil mas também as classes médias apoiam um conjunto de políticas e de partidos que estão assentes na defesa do euro, na continuação do grande projecto europeu, na necessidade “de uma reforma neoliberal” (levada a cabo ou conduzida por Bruxelas ) e na ideia de que os interesses militares e diplomáticos franceses não devem divergir muito dos interesses dos Estados Unidos. Pró OTAN, pró UE, pró euro, pró reembolso da dívida, pró classes dirigentes actuais, um grande partido conservador em gestação assim é assim criado pela convergência do PS e dos Republicanos sobre este “fundamentais”. O destino destes dois partidos está agora ligado e começa já pelas aparências para evitar que a mesa seja posta de pernas para o ar.
A campanha presidencial levará a um choque entre os socialistas e os republicanos (PS-Republicanos de Sarkozy) contra a FN. O ano de 2017 será vinculado a um debate sobre a identidade do soberano na França de 2015. Em nome de uma utopia simpática, a construção europeia, mas também em nome de uma globalização pensada como uma necessidade, a classe dirigente actual quer deslocar o poder supremo, de Paris à Bruxelas. Perto de um eleitor em cada dois quer cortar a cabeça deste novo soberano. A soberania nacional pertence ao povo, diz ainda a nossa Lei fundamental do 4 de Outubro de 1958. A jacquerie[1] eleitoral vale uma chamada à ordem. À esquerda, os que querem decapitar a Europa e, à direita, os quem querem salvar a sua cabeça. As eleições regionais eram pois mais que um motim. Eis-nos pois chegados ao ponto de partida. Esta revolução redesenha a divisão entre o que compreendíamos até agora como direita e esquerda. A nossa grande nação merece melhor que os dois ramos atuais desta alternativa mas isto é uma outra história.
Em suma, diremos nós, em França o PS e Os Republicanos (de Sarkozy) assumiram 50 por cento do programa de Marine Le Pen, com exclusão do programa económico, e na parte restante a assentarem o seu programa de acção na defesa do euro, na continuação do grande projecto europeu, na necessidade “de uma reforma neoliberal” (levada a cabo ou conduzida por Bruxelas ) e na ideia de que os interesses militares e diplomáticos franceses não devem divergir muito dos interesses dos Estados Unidos. Pró NATO, pró UE, pró euro, pró reembolso da dívida, pró classes dirigentes actuais no poder ou na sua vizinhança, podemos pois dizer que no plano da economia o seu programa é, sem o dizerem publicamente, o programa da Troika, mas sem Memorando de Entendimento assinado.
(continua)
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[1] Insurreição camponesa no Beauvais (França), em 1358. Causas: impopularidade da nobreza depois da derrota de Poitiers (1356) e a miséria provocada pela Guerra dos Cem Anos nos campos abandonados à pilhagem da soldadesca. Começou com incêndios a castelos da região de Compiègne. Em Paris, tentou-se a aliança à “Jacquerie”. No entanto os “Jacques” (de “Jacques Bonhomme”, alcunha desdenhosa que a nobreza dava aos camponeses) foram vencidos pelos nobres chefiados por Carlos “o Mau” e o líder insurrecto, Guilherme Carlos (ou Cale), foi decapitado. Julga-se que milhares de camponeses foram mortos na sequência da repressão.
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