(conclusão)
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No final do texto, o papel do FMI continua a promover a política deflacionista salarial a ser seguida numa grande parte da zona euro. Dado o facto de que a economia da zona euro está já muito próxima do limiar da deflação e dado os problemas existentes com a aplicação da política monetária não convencional, a QE, o FMI está a prescrever uma política que é sabido de que não tem nenhuma possibilidade de ter sucesso .
Qual é então a alternativa? Aqui, o próprio FMI (muito provavelmente de forma inconsciente ) apresenta indirectamente resultados que contradizem o seu próprio conselho de utilizar uma politica salarial moderadamente deflacionista.
Certamente, uma outra encenação explorada no papel do FMI é o que acontece nos cinco países afectados pela crise quando a moderação de salários de 2% não é limitada apenas a eles mas sim a toda a zona euro-área inteira e isto, de novo, na perspectiva de que a política monetária sobre as taxas de juro fá-las levar até zero. Resulta daí, (veja-se a linha a preto e a cheio nos gráficos abaixo) que o resultado é devastador. Os cinco países afectados pela crise teriam de sofrer uma queda do PIB na ordem de 1% e, com inflação a cair por 2%, ficariam, por fim, prisioneiros da deflação. A razão é outra vez o limite zero das taxas de juro. Se o ritmo de inflação continua a descer quando a taxa de juro está a ficar, em termos nominais, constante, a seguir as taxas de juro reais aumentam e consequentemente a procura do consumo de bens duradouros e o investimento (dos bens) irão diminuir.
Este cenário dá uma indicação clara a respeito do que aconteceria se, como a ETUC está a pedir, os salários crescessem e de forma concertada através de todos os Estados-membros da zona euro. Nesse caso, nenhum Estado-membro perderia competitividade face aos restantes estados membros porque todos teriam os salários a subir.
Além disso, com a inflação bem longe do alvo da estabilidade dos preços do BCE, o BCE não tem de todo nenhuma razão para puxar do gatilho das taxas de juro a fim de a fazer descer pela política de sufoco do crescimento e pela disciplina salarial. Contudo, se a inflação subir e o BCE não aumentar as taxas de juro nominais, teremos a seguir as taxas de juro reais a descer e a procura agregada (bens de consumo e de investimento) a subir.
Ou seja as forças a funcionarem na economia vão exactamente no sentido inverso do cenário do FMI acima apresentado segundo o qual os membros da zona euro deveriam moderar a sua evolução salarial. Os resultados esperados podem consequentemente serem o inverso dos resultados descritos pela linha preta nos gráficos precedentes. O PIB nas economias afectadas pela crise não só não cairá mas aumentará de 1%. E a inflação subiria, podendo passar de negativa até se alcançar uma taxa que esteja mais perto do alvo da estabilidade dos preços do BCE.
A questão é então a de se saber porque é que o FMI, em vez de inventar todos os argumentos possíveis e impossíveis a fim continuar a defender a perigosa experiência da desvalorização dos salários, não explora antes o argumento positivo de reconstrução das instituições e da dinâmica dos salários através da zona euro. Não o faz, não o fez. Será por uma questão de cegueira ideológica?
Mas tudo isto nos mostra o colete de forças em que a União Europeia e as restantes instituições internacionais querem enfiar os governos um pouco menos comprometidos no plano da teoria e no plano dos factos, como é o caso do governo de António Costa, com a irresponsabilidade criminosa, direi mesmo, que emana dos grandes centros de decisão na Europa e não só. Resistência e consciencialização das linhas de força que querem confiscar a Democracia, devem ser as directrizes dos democratas de hoje. Se dúvidas há, a forma como a direita e a extrema-direita se comportou no Parlamento são disso um bom indicador da necessidade de reforçar estas mesmas directrizes.
E é tudo.
Coimbra, 4 de Dezembro de 2015.
Júlio Marques Mota.
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Nota- Um texto produzido a partir do artigo de Ronald Janssen intitulado Lost In Contradiction: The IMF And Competitive Wage Dumping In The Euro Area e do trabalho do FMI , intitulado I M F S T A F F D I S C U S S I O N N O T E – Wage Moderation in Crises -Policy Considerations and Applications to the Euro Area da autoria de :
Jörg Decressin, Raphael Espinoza, Ioannis Halikias, Daniel
Leigh, Prakash Loungani, Paulo Medas, Susanna Mursula,
Martin Schindler, Antonio Spilimbergo, and TengTeng Xu
Cliquem nos links seguintes:
https://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2015/sdn1522.pdf
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