A COMISSÃO EUROPEIA A PREPARAR UMA NOVA CRISE – 2. PERDIDOS NA CONTRADIÇÃO: O FMI E A COMPETITIVIDADE PELO DUMPING SALARIAL NA ZONA EURO – UMA MONTAGEM DE TEXTOS PARTIDO DO TRABALHO INICIAL DE RONALD JANSSEN COM ESTE MESMO TÍTULO – por JÚLIO MARQUES MOTA – IV

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Ronald Janssen

(conclusão)

No final do texto, o papel do FMI  continua a promover a política deflacionista salarial  a ser seguida numa  grande parte da zona euro. Dado o facto de que a economia da zona euro está já muito próxima do limiar da deflação e dado os problemas existentes com a aplicação da política monetária não convencional, a QE, o FMI está a prescrever  uma política que é sabido de que não tem nenhuma possibilidade de ter sucesso .

Qual é então a alternativa? Aqui, o próprio FMI  (muito provavelmente de forma inconsciente ) apresenta indirectamente resultados que  contradizem o  seu próprio conselho de utilizar uma politica salarial moderadamente deflacionista.

Certamente, uma outra encenação explorada no papel do FMI é o que acontece nos cinco países afectados pela crise quando a moderação de salários de 2% não é limitada apenas a eles mas sim a toda a zona euro-área inteira e isto, de novo,  na perspectiva de que a política monetária sobre as taxas de juro fá-las levar até zero. Resulta daí,  (veja-se  a linha a preto e a cheio nos gráficos abaixo) que o resultado é devastador. Os cinco países afectados pela crise teriam  de sofrer uma queda do PIB na ordem de  1% e, com inflação a cair por 2%, ficariam, por fim, prisioneiros  da  deflação. A razão é outra vez o limite zero das taxas de juro. Se o ritmo de inflação continua a descer  quando  a  taxa de juro está a ficar, em termos nominais,  constante, a seguir as taxas de juro reais aumentam e consequentemente a procura do consumo de bens duradouros e o investimento (dos bens) irão diminuir.

Comissão Europeiacrise - XV

Este  cenário  dá uma indicação clara a respeito do que aconteceria se, como a ETUC  está a pedir,  os salários crescessem e de forma concertada  através de todos os Estados-membros da zona euro. Nesse caso, nenhum Estado-membro perderia competitividade face aos restantes estados membros  porque todos teriam os salários a subir.

Além disso, com a inflação bem longe  do alvo da estabilidade dos preços do BCE, o BCE não tem de todo nenhuma razão para   puxar do gatilho das taxas de juro  a fim de  a fazer descer pela política de sufoco do crescimento  e pela disciplina salarial.  Contudo, se a inflação  subir e o BCE não aumentar as  taxas de juro nominais, teremos a seguir as taxas de juro reais a descer  e a procura agregada (bens de consumo e de investimento) a subir.

Ou seja as forças a funcionarem  na economia  vão exactamente no sentido inverso do cenário  do FMI acima apresentado segundo o qual  os membros da zona euro deveriam moderar a sua evolução salarial.  Os resultados esperados podem consequentemente serem  o inverso  dos resultados descritos pela linha preta nos gráficos precedentes. O PIB nas economias afectadas  pela crise não só não cairá mas aumentará de  1%. E a inflação subiria, podendo passar de negativa até se alcançar  uma taxa que esteja mais  perto do alvo da estabilidade dos preços do BCE.

A questão  é então a de se saber  porque é que o FMI, em vez de inventar todos os argumentos possíveis e impossíveis a fim continuar a defender a perigosa experiência da desvalorização dos  salários, não explora antes   o argumento positivo de  reconstrução  das instituições e da dinâmica dos salários através da  zona euro. Não o faz, não o fez. Será por uma questão de cegueira ideológica?

Mas tudo isto nos mostra o colete de forças em que a União Europeia e as restantes instituições internacionais querem enfiar os governos um pouco menos comprometidos no plano  da teoria e no plano dos factos, como é o caso do governo de António Costa,  com a irresponsabilidade criminosa, direi mesmo, que  emana dos grandes centros de decisão na Europa e não só. Resistência  e consciencialização das linhas de força que querem confiscar a Democracia, devem  ser as directrizes dos democratas de hoje.  Se dúvidas há, a forma como a direita e a extrema-direita se comportou no Parlamento são disso um bom indicador da necessidade de reforçar estas mesmas directrizes.

E é tudo.

Coimbra, 4 de Dezembro de 2015.

Júlio Marques Mota.

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Nota- Um texto produzido a partir do artigo de Ronald Janssen intitulado  Lost In Contradiction: The IMF And Competitive Wage Dumping In The Euro Area e do trabalho do FMI ,  intitulado  I M F  S T A F F  D I S C U S S I O N  N O T E – Wage Moderation in Crises -Policy Considerations and Applications to the Euro Area da autoria de :

Jörg Decressin, Raphael Espinoza, Ioannis Halikias, Daniel

Leigh, Prakash Loungani, Paulo Medas, Susanna Mursula,

Martin Schindler, Antonio Spilimbergo, and TengTeng Xu

Cliquem nos links seguintes:

http://www.socialeurope.eu/2015/11/lost-in-contradiction-the-imf-and-competitive-wage-dumping-in-the-euro-area/

https://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2015/sdn1522.pdf

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Para ler a Parte III deste trabalho de Júlio Marques Mota sobre textos de Ronald Janssen e do FMI, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A COMISSÃO EUROPEIA A PREPARAR UMA NOVA CRISE – 2. PERDIDOS NA CONTRADIÇÃO: O FMI E A COMPETITIVIDADE PELO DUMPING SALARIAL NA ZONA EURO – UMA MONTAGEM DE TEXTOS PARTIDO DO TRABALHO INICIAL DE RONALD JANSSEN COM ESTE MESMO TÍTULO – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

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