A COMISSÃO EUROPEIA A PREPARAR UMA NOVA CRISE – 2. PERDIDOS NA CONTRADIÇÃO: O FMI E A COMPETITIVIDADE PELO DUMPING SALARIAL NA ZONA EURO – UMA MONTAGEM DE TEXTOS PARTIDO DO TRABALHO INICIAL DE RONALD JANSSEN COM ESTE MESMO TÍTULO – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

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Ronald Janssen

(continuação)

Vejamos agora em síntese as conclusões finais deste trabalho dos peritos altamente qualificados do FMI. Dizem-nos eles:

A política monetária tem de ter em conta o impacto desinflacionista  dos salários e da moderação dos preços para se ter  uma  resposta sustentável,  de base alargada, e positiva quanto ao emprego e à  produção dos países da zona euro. Uma política de rendimentos que realiza uma política de moderação sobre os salários e sobre os preços  nas economias atingidas pela crise pode aumentar a produção mas pode também produzir efeitos de repercussão  negativos  sobre a produção nas economias dos seus parceiros  da zona euro. No curto prazo, vários factores determinam  os efeitos da moderação dos salários e  dos  preços sobre o  emprego e a  produção. A moderação salarial muito  provavelmente acresce  a competitividade  externa e as exportações líquidas. No entanto, o mais baixo crescimento dos salários é provável que venha a aumentar as pressões existentes para a  desinflação, implicando taxas de juros reais mais altas, níveis mais elevados de dívida pública em termos reais  e menor procura interna. As simulações sugerem que os  efeitos líquidos da moderação salarial nas economias atingidas pela crise são positivas para as suas economias,  mas estes efeitos diminuem  quando todas as economias atingidas pela crise passam em conjunto a moderar os seus  salários ao mesmo tempo.  Sob tais circunstâncias, verifica-se uma mais baixa procura  nas economias da zona  euro atingidas pela crise, juntamente com  uma  menor competitividade nas  economias dos parceiros da  zona o que pode significar que o PIB caia  abaixo da linha de base. O resultado é um pequeno efeito negativo para a zona euro como um todo, principalmente porque a política monetária não pode fornecer nenhum alívio  em resposta à baixa inflação, dado que as taxas de juro estão praticamente a zero.

O pessoal do FMI tem defendido firmemente uma política monetária acomodatícia em resposta à queda dos salários e às pressões deflacionárias sobre os preços, incluindo QE, bem como defende reformas estruturais e a flexibilização fiscal em países com margem de manobra política. As simulações aqui centradas sobre  a moderação salarial e a QE mostram  que, estas duas políticas no seu conjunto, s teriam efeitos positivos não só para as economias atingidas pela crise, mas também para os seus países parceiros da zona  euro. O resultado é um efeito positivo sobre o produto na zona euro  como um todo. É importante ressaltar que as reformas estruturais que aumentam a produtividade total dos  factores  dão um apoio mais  forte sobre o consumo e o investimento a curto prazo do que as reformas que aumentam a oferta de trabalho. Vemos os resultados como consistentes com a política monetária não convencional em curso (e outras medidas para ajudar a inverter a fragmentação financeira) e com os apelos a mais reformas estruturais, nomeadamente as medidas que aumentem a produtividade.

Facilitação quantitativa: Não é a varinha de condão que  o IMF finge  ser.

A facilitação quantitativa é basicamente uma política monetária em que o   banco central injecta dinheiro que está a colocar na economia massivamente, passando a comprar  activos financeiros tais como títulos da dívida pública e títulos de dívida privada assim como, em alguns casos, a comprar mesmo acções de empresas. A esperança chave é que este volume de dinheiro extra (e frequentemente enorme) volume de dinheiro venha a ser, de uma maneira ou de outra, a usado por agregados familiares e por empresas para consumir ou investirem mais.

Contudo, se imprimir o dinheiro leva a reacender a procura agregada depende do que aqueles  que detêm  os activos financeiros venham realmente a fazer com o dinheiro injectado na economia, dinheiro esse que eles recebem em troca dos títulos que entregam, que vendem. Os bancos, por exemplo, podem considerar que é ainda mais difícil  emprestar este mesmo dinheiro  extra à economia  se os agregados familiares e as empresas estão já altamente endividados e assim relutantes em aumentarem o seu nível de endividamento. E, quando os agregados familiares ricos (quem possui  o grosso do  volume de activos financeiros) ganharão significativamente mais valor vendendo seu portfólio de activos a mais elevado preço do que o que  pagaram originalmente por eles, as possibilidades são muito reduzidas de que esta liquidez venha a estar a ser gasta  realmente na compra de  produtos e de serviços até porque a propensão relativa dos 1% dos  agregados familiares  mais ricos de 10% a consumir é muito mais baixa do que a média.

O FMI  não está  certamente inconsciente das dificuldades envolvidas em transmitir o dinheiro adicional que é injectado em procura adicional pela utilização do mercados de activos. Contudo, coloca este seu conhecimento desta enorme dificuldade  numa simples nota de rodapé (número 28):

É igualmente válido reconhecer  que as provas relativamente ao efeito das políticas monetárias não convencionais  sobre a evolução do PIB  na saída não são claras, não estão definidas. Chung e outro (2012) concluem que as compras de activos de Federal Reserve (…) não impedem  que a limitação do limite inferior ZERO das taxas de juro  tenha efeitos adversos de primeira ordem na actividade  produtiva e na inflação.

Há contudo uma maneira de nos  assegurarmos  de que o dinheiro que é impresso  pelo banco central acaba eficazmente por dinamizar a  procura agregada, aumentando-a. Se a massa monetária adicional assim criada pelo  BCE é utilizada para financiar directamente os défices públicos e   um aumento das  despesas públicas adicionais, de preferência investimento público, então  o impacto na procura agregada está  inteiramente assegurado.

Infelizmente, esta via está completamente fechada na zona euro. O  problema principal  é que o BCE está proibido explicitamente pelo Tratado europeu de directamente financiar os défices  públicos. Esta obrigação legal podia talvez ser contornada pelo BCE  comprando  imediatamente  no mercado secundário títulos da dívida publica  recentemente  emitida  através de  um “intermediário  financeiro” ( a go between) . Nesse caso, contudo, todas as regras orçamentais  que Europa instalou, do Pacto de Estabilidade ao Fiscal Compact entram em acção e farão disto uma não solução, farão com que estas medidas falhem.   A estrutura orçamental europeia está seguramente  sempre a incidir sobre os cortes nos défices  e nunca sobre a necessidade dos  Estados-membros se empenharem na dinamização da procura agregada através do aumentos dos défices públicos.

A simulação que o FMI faz mantém-se silenciosa quanto a isto: um relançamento comum dos salários impulsionaria o crescimento e restauraria a estabilidade dos preços.

(continua)

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Para ler a Parte II deste trabalho de Júlio Marques Mota sobre textos de Ronald Janssen e do FMI, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A COMISSÃO EUROPEIA A PREPARAR UMA NOVA CRISE – 2. PERDIDOS NA CONTRADIÇÃO: O FMI E A COMPETITIVIDADE PELO DUMPING SALARIAL NA ZONA EURO – UMA MONTAGEM DE TEXTOS PARTIDO DO TRABALHO INICIAL DE RONALD JANSSEN COM ESTE MESMO TÍTULO – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

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Ver os textos originais em:

http://www.socialeurope.eu/2015/11/lost-in-contradiction-the-imf-and-competitive-wage-dumping-in-the-euro-area/

https://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2015/sdn1522.pdf

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