CRÓNICA DE DOMINGO – São Valentim ao serviço do negócio – por Carlos Loures

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Há diversas lendas de São Valentim e sobre a forma como o clérigo romano se transformou no patrono dos namorados. Uma das histórias retrata-o como um mártir que, em meados do séc. III da nossa era se recusou a abjurar da fé cristã. Cláudio II (Marco Aurélio Valério Cláudio), terá proibido que se celebrassem casamentos durante as guerras contra os Alamanos, porque os homens casados eram piores combatentes do que os solteiros. Um sacerdote, Valentim, teria violado este decreto, realizando casamentos secretamente. Descoberta a infracção ao decreto de Cláudio, Valentim teria sido preso, torturado, julgado e condenado à morte. Durante o tempo em que esteve encarcerado, Valentim apaixonou-se pela filha cega de um dos seus carcereiros. Por milagre, claro, a moça recuperou a visão. Quando foi executado Valentim deixou-lhe uma carta em que se despedia, assinando “seu namorado” ou, segundo outras versões, “do teu Valentim”.

Nas diversas versões da lenda, embora com pormenores comuns: São Valentim foi um sacerdote cristão que morreu em 14 de Fevereiro de 269 da nossa era. Segundo julgo saber, a história da ceguinha tem origem numa narrativa que se atribui a Suetónio, tirado da “Historia Augusta”, sobre alguns imperadores romanos, com pormenores de mais do que duvidosa autenticidade. Uma coisa é certa: a Igreja Católica considerou-o mártir e consagrou como dia santo o dia da sua morte – 14 de Fevereiro. Diz-se que, já no século XVII, em França e Inglaterra se celebrava o Dia de São Valentim como Dia dos Namorados. Sobre a escolha da data existe uma outra versão que deixa o São Valentim de fora – 14 de Fevereiro seria o primeiro dia do acasalamento dos pássaros e que, por isso, na Alta Idade Média, os namorados deixavam mensagens amorosas na soleira das portas das raparigas. Ambas as lendas valem o que valem ou seja, quase nada. Quando sabemos que o Pai Natal, que hoje é considerado uma tradição, surgiu em 1929, dois meses depois da Quinta-Feira Negra, 24 de Outubro de 1929, quando a Bolsa de Nova Iorque entrou em ruptura. O Pai Natal, inspirado no Santa Claus nórdico, é uma invenção da Coca Cola para combater a baixa nas compras provocada pelo “Great crash”. Os americanos são muito bons a fabricar tradições.

A questão foi esquecida pela Europa, mas chegou aos Estados Unidos com os emigrantes. Reciclada a história é-nos agora devolvida sob a designação de “Valentine’s Day” para gaúdio de comerciantes e dos que ainda não sabem que o dia dos namorados é quando uma, de preferência duas pessoas querem. Mas não é só desta «tradição» americana que me quero hoje ocupar. É de uma outra tradição americana também levada pelos emigrantes – o gangsterismo que, nos anos 30 do século XX se apresentava em todo o seu esplendor.

Queria lembrar o dia 14 de Fevereiro de 1929 (sempre o ano do “Crash”). Nos Estados Unidos estava-se em plena Lei Seca e o negócio da venda clandestina de bebidas alcoólicas, dominado pelas redes mafiosas, ia de vento em popa. Nesse dia, junto ao muro de uma garagem de Chicago, apareceram sete corpos com vários tiros presumivelmente de metralhadora ligeira Thompson, aquelas de carregador em forma tambor.

Seis deles foram identificados como membros da quadrilha de “Bugs” Moran. O outro pertencia a Reinhardt H., Scwimmer, que se provou não pertencer à quadrilha. Um deles, Frank Gusenberg, foi encontrado ainda com vida, apesar de ter catorze balas no corpo, mas recusou-se a falar: “Ninguém me baleou”, disse pouco antes de expirar.

al capone
(1899 – 1947)

A cilada em que os homens de Moran caíram foi, como toda a gente logo percebeu, organizada pelo gang de Al Capone, um ítalo-americano. Nunca se conheceu o verdadeiro motivo para o crime, presumindo-se, no entanto, que terá sido uma retaliação por uma tentativa mal sucedida para assassinar Jack McGurn, um dos lugar-tenentes de Capone. Segundo se diz, teria sido ele a comandar a armadilha que foi feita com requintes – alguns dos bandidos de Capone estavam com fardas de agentes da polícia. Aliás, a Polícia de Chicago chegou a ser apontada como autora do massacre. Outro motivo, provavelmente o principal, seria a concorrência que o gang de Bugs Moran fazia ao de Al Capone no contrabando de bebidas na área de Chicago.

Este incidente, conhecido como «O massacre do dia de São Valentim» mudou o equilíbrio de forças na área de Chicago. O bando de Moran entrou em declínio. Capone prosperou, gozando de estranhas cumplicidades, inclusive dentro do aparelho policial, conseguiu ir escapando às acusações que lhe iam fazendo por numerosos crimes que o seu bando cometia. Capone controlava informadores, pontos de apostas, casas de jogos, bordéis e redes de prostituição, bancas de apostas em corridas de cavalos, clubes nocturnos, destilarias clandestinas e cervejarias. Chegou a facturar 100 milhões de dólares norte-americanos por ano, durante a “Lei seca”. Lei que para ele foi uma bênção.

Em 1929 (sempre este ano a perseguir-nos) sucedeu uma coisa que só podia acontecer nos Estados Unidos – Alphonsus Gabriel Capone, um criminoso sem escrúpulos, frio e violento, pelo seu êxito dos negócios, foi nomeado o homem mais importante do ano, juntamente com personalidades da estatura moral e intelectual de Albert Einstein e de Mahatma Gandhi. Em 1931, quando estava no auge do seu reinado, um pormenor insignificante perdeu-o: foi condenado por evasão fiscal e esteve preso durante onze anos.

Desejo-vos um bom dia de São Valentim!

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