SINAIS DE FOGO – HOTEL DE LUXO RENDE ORDEM DO CARMO – por Soares Novais

sinais de fogo

 

Em breve o Hospital da Ordem do Carmo começará a ser esventrado para ali nascer um hotel de luxo. Dívidas aos trabalhadores, a fornecedores e à Segurança Social ditaram o fim de uma das mais singulares instituições de solidariedade social da cidade do Porto. O hospital da Ordem do Carmo abriu as suas portas em 1801.
Em breve o Hospital da Ordem do Carmo começará a ser esventrado para ali nascer um hotel de luxo. Dívidas aos trabalhadores, a fornecedores e à Segurança Social ditaram o fim de uma das mais singulares instituições de solidariedade social da cidade do Porto. O hospital da Ordem do Carmo abriu as suas portas em 1801.

Mais do que uma crónica, esta é uma notícia sobre a morte anunciada do Hospital da Ordem do Carmo. Em breve aquele que é um dos mais emblemáticos edifícios da cidade do Porto começará a ser esventrado para ali nascer um hotel de luxo.

O hospital da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, uma das mais importantes instituições particulares de Solidariedade Social do país, sucumbe, assim, a longos anos de má gestão e deixa atrás de si um rosário de dívidas. Sobretudo, aos seus 200 trabalhadores.

A versão oficiosa para justificar a venda do edifício que albergava o Hospital do Carmo é a de que foi a única saída para pagar aos credores. Todavia, Veiga de Faria, Provedor da Ordem afirmou, em declarações ao “Porto Canal”, em Julho do ano passado, que a divida à Segurança Social – 1,2 milhões de euros – estava garantida “através de duas hipotecas constituídas sobre dois imóveis pertencentes à Ordem.”

Veiga de Faria disse ainda que o então ministro da Solidariedade Social, Pedro Mota Soares, comprometeu-se a ajudar a desbloquear a situação de “estrangulamento financeiro”. Mas, pelos vistos, tal compromisso acabou no exacto momento em que lhe saiu da boca para fora…

Mais: a Segurança Social recusou levantar as penhoras e em Dezembro de 2014 foi apresentada uma proposta por um terceiro para regularização da dívida mas a entidade tutelada pelo ministro centrista nada disse sobre tal proposta.

Veiga de Faria declarou também na ocasião: “Há uma sociedade interessada em regularizar a dívida através de pagamento directo à Segurança Social comprando imóveis à Ordem”, mas garantiu que tais imóveis estavam fora da Praça de Carlos Alberto.

Todavia, a situação alterou-se. E, agora, a praça que alberga o Palacete dos Viscondes de Balsemão, casa-nobre do século XVIII que acolheu o exilado Rei da Sardenha e Piemonte, Carlos Alberto de Sabóia, e que em 1958 viu um dos seus edifícios ser útero quente da liberdade anunciada pela candidatura de Humberto Delgado, prepara-se para perder uma das suas mais singulares instituições.

Os problemas que afectavam a Ordem do Carmo há muito que eram denunciados pelos seus trabalhadores. Mas a cidade e as autoridades competentes pouco ou nada ligaram aos avisos saídos das gargantas enrouquecidas daqueles que trabalhavam sem receber os seus salários.

A irmandade de Nossa Senhora do Carmo foi fundada em 1737, na Capela da Batalha. O templo nasceu em 1756 e o hospital foi inaugurado em 1801. A Ordem do Carmo também tinha uma escola primária e uma escola de música e muitos dos mais pobres dos pobres da “Invicta” ali usufruíam das refeições que lhes aqueciam os corpos.

Ao longo do tempo o hospital da Ordem do Carmo tornou-se uma referência e teve ao seu serviço alguns dos mais reputados profissionais de Saúde.

Ali, segundo o Guia do Porto Illustrado, “observa-se extremo asseio e ordem, que são os requisitos indispensáveis a uma boa casa hospitalar. Nos seus dois pavimentos há enfermarias independentes para homens, mulheres, doenças agudas ou para convalescentes, para entrevados ou creanças, e ainda quartos para doentes pensionistas.”

Doentes pensionistas que serão agora armazenados na parte do edifício mais próximo da igreja, que parece ter ficado a salvo da alienação.

Muitas dessas pessoas já passaram a casa dos 90 anos e entregaram à Ordem milhares de contos/milhões de euros, vasto património edificado e artístico. Desejavam ter um fim de vida tranquilo, mas a má gestão de alguns trocou-lhe as voltas…

Leave a Reply