Tempestade sobre a Europa – por Kostas Vergopoulos

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Tempestade sobre a Europa

Kostas Vergopoulos

19 de Fevereiro de 2016

Os dirigentes europeus cometeram face à crise financeira de 2008 o mesmo erro que o presidente americano Hoover depois da crise de 1929. Deram a prioridade ao saneamento das finanças públicas em vez da reactivação da economia. A estimulação da procura é uma condição preliminar à retoma dos investimentos e à baixa do desemprego. Uma análise de Kostas Vergopoulos, professor emérito na Universidade de Paris VIII.

1

 

Despedidos

Quando a 24 de Outubro de 1929, a Bolsa de Wall Street se tinha desmoronado, Herbert Hoover, presidente dos Estados Unidos, pediu a opinião aos “melhores economistas” de Harvard sobre o que fazer. Como se sabe estes consideraram que se tratava apenas “de uma simples e banal” queda bolsista e que não era conveniente preocupar-se com isso enquanto que os fundamentais da economia americana permanecessem “sãos”. Além do mais, insistiram sobre a necessidade de combater “o excesso de liquidez” pela redução da despesa pública. A crise bolsista, de acordo com estes “sábios” era apenas uma questão de confiança dos investidores para com a capacidade do Estado em garantir os seus equilíbrios fundamentais. Seguidamente, todos os Estados se comprometeram na redução dos seus défices, assim como das suas despesas públicas.

Ora confirma-se que esta escolha, em vez parar a crise, teve apenas como efeito a sua ampliação. Terá sido necessário que Franklin Roosevelt chegasse ao poder (1933), para aplicar a sua prescrição, em oposição ao que estava a ser feito, sobre o crescimento da despesa pública – seja por alargamento provisória dos défices – de modo a que a economia americana reiniciasse e reencontrasse o seu nível anterior de actividade económica.

Desde o início do ano de 2016, a morosidade atinge a economia internacional, sobretudo a Europa, primeira região económica do mundo. Os fundamentais “sãos” não protegem a zona euro de um desemprego particularmente “doentio”. Na Alemanha, o modelo “correto”, apesar do seu défice zero e do seu excedente externo de 8% do PIB, o investimento não arranca. De 24% do PIB antes da crise de 2008, tem-se situado em apenas 16% nos últimos anos e Sigmar Gabriel, o Vice-Chanceler alemão, empenhou-se em conduzi-lo a 20% nos próximos 4 anos. No conjunto da zona euro, o défice público é apenas de 1% do PIB e no entanto o investimento também não arranca, enquanto que o dos Estados Unidos não deixa de continuar a aumentar. Desemprego persistente em Europa, forte regressão nos Estados Unidos.

Se hoje a crise está de regresso à escala mundial, isto é tanto mais inquietante para “o velho continente” onde os seus sintomas são mais forte que noutros lugares. Nos Estados Unidos, a curva do desemprego está desde há muito tempo invertida e a da formação do capital retomou, desmentindo as antecipações negativas dos especialistas europeus. Oito anos depois de ter ocorrido a crise nos Estados Unidos e desta se ter difundido na Europa, a zona euro permanece fixada na obsessão do saneamento das contas públicas e dos seus fundamentos, mas com resultados medíocres no que diz respeito ao nível de funcionamento da sua economia.

 

A retoma é uma condição prévia ao saneamento

Os Estados Unidos, de onde a crise partiu, parecem terem-na ultrapassado, sobretudo nunca passaram pela terapêutica europeia: ao contrário, do que reclamaram sempre “os abutres” dos défices e dos cortes nas despesas públicas, o Presidente Obama aceitou o alargamento do défice público até aos -12,5% do PIB, o que lhe permitiu relançar o investimento, reduzindo substancialmente o desemprego para menos de 4,5% da população activa. O défice americano reduziu-se, contudo não como uma condição para a retoma, mas sobretudo como uma consequência da retoma. “O saneamento” precede não a retoma, mas pelo contrário é esta última que torna possível o saneamento. Decididamente, subsiste sempre um equívoco entre os dois lados do Atlântico. A flexibilidade quantitativa (QE), ou seja o aumento da oferta de dinheiro barato que permitiu a correcção económica nos Estados Unidos não produz os mesmos efeitos na Europa. Com “a regra de ouro” dos défices zero na Europa, os governos não têm nenhuma margem de manobra para se aproveitarem da abundância monetária. Por outro lado, diferentemente do QE americano que tem injectado dinheiro barato na economia, o dinheiro barato do BCE é 4 vezes mais pequeno em quantidade em relação ao do FED e só é confiado aos bancos que recusam injectá-lo na economia .

Ainda mais decisivo é o grau de financeirização das famílias de ambos os lados. A exposição financeira das famílias norte-americanas é de 3 a 4 vezes maior em comparação com as famílias alemães, francesas ou holandesas. Os europeus permanecem até hoje significativamente menos dependentes dos investimentos financeiros do que os americanos. Toda a oferta de moeda é imediatamente reflectida no consumo das famílias nos EUA, apesar de não ter o mesmo efeito na Europa. Como resultado da QE, a procura interna dos Estados Unidos cresceu 15,3%, o que “puxou” pela retoma dos investimentos. Na Europa, o QE não produz um efeito significativo sobre a riqueza das famílias, nem sobre os seus gastos, a procura interna não arranca, se não é que regride mesmo, a política europeia continua obcecada com a busca de mercados estrangeiros. Mas uma vez que dois terços do comércio exterior dos países europeus é realizado entre eles, quando eles começam simultaneamente a aplicar a “dieta”, gera-se inevitavelmente não só um défice na procura agregada interna mas também na procura interna dos países seus parceiros . Ao contrário dos EUA, na zona euro nem o consumo das famílias nem a procura interna são estimulados pela QE, o que é, no entanto, condição necessária para a retomada dos investimentos.

O investimento depende previamente da procura

Como por todo o lado , o investimento não precede, mas sim depende da procura que o antecede. Porque é que deveria ser diferente na Europa? Para a Europa, a procura externa é realmente a sua própria procura interna e a QE não está a dar o efeito desejado. Mais do que outras regiões económicas do mundo, o velho continente deve impulsionar a despesa pública a nível continental, não menos importante, nem que fosse para compensar a despesa privada actualmente insuficiente. Deve fazê-lo especialmente através de grandes projectos de infra-estruturas, energia verde e protecção ambiental a nível europeu, não só para dar emprego aos seus desempregados, reforçando assim a coesão social, mas também para estabilizar a estrutura macroeconómica que é condição necessária de recuperação da economia. A Europa, em vez de esperar a retoma por boletins meteorológicos, ainda torna a retoma tão necessária muito mais improvável pelas escolhas austeritárias, sendo claro que faria bem melhor em ser menos dependente do dogmas abstractos e estéreis e em inspirar-se nas experiências mais positivas feitas noutras partes de mundo.

 

Kostas Vergopoulos, TEMPÊTE SUR L’EUROPE, publicado pelo sítio Boulevard Exterieur, disponível em: http://www.boulevard-exterieur.com/

http://www.boulevard-exterieur.com/Tempete-sur-l-Europe.html

 

Leave a Reply