UMA CARTA DE UM VELHO QUE SOU EU A UMA AMIGA MINHA A PROPÓSITO DE DINHEIRO – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

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júlio marques mota

Coimbra, 7 de Março de 2016

 

Minha amiga

(CONTINUAÇÃO)

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Uma informação da Moody’s de Fevereiro de 2016.

A oferta pública  que expira a  11 de Março, tem a finalidade de  libertar  o Lander de Caríntia  das suas garantias bancárias  impondo uma perda para os credores de cerca de   EUR 3 mil milhões. Contudo, se a oferta não é aceite,  os credores de Heta podem entrar no plano da legalidade e enfrentar uma situação de incumprimento de  Heta e, potencialmente, de  Caríntia. Nunca houve um incumprimento de um Lander na Áustria, e não há nenhuma lei  específica para tal caso.

Heta deixou de continuar a pagar  o seu serviço da dívida em Março de 2015, quando a autoridade austríaca do mercado financeiro (FMA) anunciou que iniciaria medidas de resolução  para o encerramento da entidade financeira  e ordenou uma moratória para o pagamento até ao dia  31 de Maio de 2016. As autoridades austríacas expressaram repetidamente a sua relutância em fornecer   mais apoio depois de terem  injectado para já um total   de  €5.5 mil milhões  em Heta entre 2009 e 2014. Na Áustria, a lei  federal Federal Banking Restructuring and Resolution Act (BaSAG)  que transpõe a directiva sobre a União Bancária, European Union’s Bank Recovery and Resolution Directive (BRRD)  da  União Europeia para a lei  austríaca, aplica-se igualmente  à liquidação desta  entidade. . A oferta pública  inclui a compensação para a garantia subsidiária do Lander de Caríntia. Um trust público criado por Caríntia, Kaerntner Ausgleichszahlungs-Fonds, está-se a  oferecer para  comprar cerca de €10.8 mil milhões de obrigações de Heta que beneficiam  de uma garantia subsidiária emitida pelo Lander  austríaco  de Caríntia . O trust   está a oferecer  75% do valor nominal das obrigações (que incluem os juros até ao dia  1 de Março de 2015) para as obrigações seniores  e 30% para as obrigações subordinadas.

A oferta é válida até 11 de Março de 2016 e está sujeita a que dois  terços dos credores façam propostas para a recompra das suas obrigações. Se a oferta for aceite, quer os  credores participantes quer os  credores não participantes terão de suportar os mesmos cortes. Estes credores  vão perder o direito de reclamarem  a diferença (ou seja, de  25% ou 70% que é a tesourada que levam os seus créditos ao banco consoante são seniores ou não ) sobre o Lander de Caríntia, porque a garantia subsidiária de  pagamento de Caríntia será reduzida  pelo montante da redução aceite. Esta redução no valor da garantia é tornada  possível graças a uma emenda à lei de estabilidade do mercado financeiro da Áustria, aprovada em Dezembro de 2015. O preço da oferta proposta tem quatro componentes. A primeira componente  é um valor de recuperação projectado mas incerto sobre os activos de 59,91%,  que só se aplica aos credores seniores sem garantia de Heta. A oferta não prevê nenhuma recuperação de activos para os detentores de dívida subordinada. A  segunda componente é um prémio para atrair a aceitação de ambas as classes de credores; 4,12% para as obrigações  seniores não garantidas por Caríntia e 19,03% para os credores subordinados. A  terceira componente  é um montante compensatório para a garantia subsidiária de pagamento por Caríntia, que é 10,97% pontos percentuais para ambas as classes de dívida. Por fim,  os credores beneficiam  de uma opção de compra que retém o potencial de alta   se a resolução e o cancelamento dos activos de  Heta levarem  a melhores valores de recuperação do que os 60% projectados (a chamada “cláusula de earn-out”). Qualquer retorno de caixa desta quarta componente  não será conhecido antes de Heta encerrar, o que será concluído  em 2020, no mais tardar.

Velho - VII

Assumindo que a taxa de aceitação de  dois terços é atingida, o governo  austríaco irá fornecer o financiamento  até € 7,8 mil milhões para os Kaerntner Ausgleichszahlung-onds, a fim de compensar os detentores de obrigações logo a seguir, ou seja, apenas alguns dias depois de a oferta publica ter expirado. O financiamento inclui € 6,6 mil milhões que reflectem  a taxa de recuperação assumida de  59,91% para a dívida sénior sem garantia (de 0% para a dívida subordinada) e o prémio. A contribuição de Caríntia  de € 1,2 mil milhões, ou seja, de  10,97% da dívida pendente, destina-se a compensar a garantia subsidiária de pagamento do Lander  austríaco  ligada às obrigações sobre Heta e é também  financiada  pelo governo.

Mas a oferta pública e a instituição da estrutura de liquidação de Heta levam os credores a assumir pesados riscos também. A própria oferta e a incerteza em torno de todo o reembolso a partir da estrutura de liquidação dos activos de Heta apresentam aos credores riscos legais e económicos importantes. Se a oferta é aceite,  os credores tirarão proveito de um pagamento em dinheiro imediato, incluindo a taxa de recuperação dos activos  de cerca de  60% como foi proposto, mas têm que  renunciar  a qualquer outra exigência relativamente à cobrança destes créditos. Os investidores  poderiam, contudo, rejeitar a oferta publico  e, em vez disso,  confiar na garantia subsidiária assinada pelo  Lander  de Caríntia , esperando que a República da Áustria honre a garantia dada pelo seu Lander,  honrando  o valor facial dos títulos em dívida. Contudo, se a oferta pública é rejeitada e o governo federal escolheu não respeitar as regras quanto aos compromissos assumidos, a possibilidade de  retorno imediato do  dinheiro  torna-se nula  e uma eliminação acelerada de activos de Heta (possivelmente num cenário de insolvência ) pode conduzir para abaixar mesmo o valor de recuperação na liquidação dos activos de Heta. Neste último caso, os credores podem igualmente encontrar-se envolvidos numa situação difícil  numa longa disputa legal  sobre o valor da garantia pública concedida a quando da emissão dos títulos.  Os credores igualmente enfrentam o risco que a Autoridade do mercado financeiro de Áustria, a entidade  responsável  pela estrutura de liquidação de Heta que nunca aprovou  nem validou o rácio da recuperação dos activos possa vir  a  anunciar uma taxa de recuperação mais baixa. Isto é porque, na  Áustria, BaSAG, que transpõe a  BRRD da União Europeia para a lei austríaca,  também se aplica  a Heta.

Bom, na Áustria de todo é que o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado não irá investir.  Aqui vale  tudo, sob a direcção assumida ou consentida da União Europeia e das suas Instituições. É o Far-West instalado e na ausência de lei vale a força de quem ainda é suposto ser lei. Quanto ganha o senhor Carlos Costa e o senhor Draghi,  mensalmente.  à escala de cada um deles  por nos imporem esta farsa?

E o nosso homem muito bem vestido e ainda melhor calçado percebe que sob a égide de Draghi a Áustria representa um verdadeiro Far-Oeste  onde todos as entorses às regras são admissíveis desde que não tenham nada a ver com os gregos. Não, aqui é que não se pode investir. Mesmo que se  admita que o senhor Draghi lhes coloca a mão por baixo, como quem protege um menino. A vigarice tornou-se pois rainha nesta União Europeia, nesta zona Euro.  Mas vejam os paralelos com a situação de Portugal. São muitos. Porque não somos a Áustria, somos bem mais frágeis,  avança-se  um pouco mais na falta de respeito e a passagem dos títulos para o banco mau no BES é  isso mesmo, um passo a mais na escalada do desrespeito pelo dinheiro de cada um.  E assim a  pata do BCE  e do senhor Draghi, por um lado, e a do senhor Schauble, por outro, bem  nos pressionam para nos  esborrachar.  Bem tentam encostar à parede o governo PS como o fizeram com  Syriza e, no fundo, para gáudio da nossa imprensa local que tanto parece estar a desejar esta mesma pressão de morte, porque, lá bem no fundo, o que desejam é o  regresso da direita pura e dura para completar a sua tarefa, a de destruir Portugal. É nesse sentido que se pode entender a presença de Passos Coelho a inaugurar escolas, a inventar acontecimentos, sempre coberto pela televisão ou pelos jornais, sempre a inventar iniciativas para estar sempre nos meios audiovisuais,  a dizer que está disponível para governar Portugal.

E poder-se-ia investir num paraíso fiscal como Andorra?

Não, aqui também não. O nosso homem muito bem vestido e  ainda melhor calçado indaga e fica a saber:

Andorra ameaçada por uma crise bancária de grande dimensão

Andorra arrisca-se a  pagar caro o desenvolvimento do seu sector bancário. (Créditos: Reuters) As autoridades americanas ameaçam punir  o quarto banco do coprincipado por   branqueamento. Uma decisão que ameaça o equilíbrio precário deste pequeno país.

Na  semana que acaba de se  termina ter-se-á visto o sector financeiro de Andorra  agitado por uma forte tempestade. Terça-feira 10 de Março, com efeito, a divisão do Tesouro americano encarregado da luta contra o crime financeiro,  FinCEN, indicou que abria um inquérito contra o Banca Privada de Andorra (Banco privado de Andorra, BPA) por  branqueamento. Imediatamente, a autoridade reguladora bancária andorrana, o Instituto nacional andorrano das Finanças (INAF), anunciava que assumia  o controlo do BPA. Paralelamente, em  Espanha, o Banco central decidia igualmente tomar o controlo da sucursal espanhola do BPA, Banco de Madrid

As criticas de  FinCEN

De que é  o FinCEN  acusa o  BPA? Ter permitido, mediante grandes  comissões recebidas por certos dirigentes, o depósito de somas procedentes do crime organizado e da  corrupção. Uma vez colocado  nas caixas do BPA, este dinheiro ficava “honesto” e podia regressar ao sector financeiro americano. O Tesouro americano cita três casos precisos. O primeiro é o do Russo Andreï Petrov, preso em Fevereiro de 2013 na Espanha por  branqueamento, e que, de acordo com as autoridades americanas, está ligado a um “dos dez fugitivos procurados pelo FBI”, o Ucraniano Simon Mogilievitch, um dos padrinhos da máfia russa. Segundo caso: o do chinês Gao Ping, preso em  Espanha em Setembro de 2012, que teria utilizado o BPA para branquear o dinheiro da máfia chinesa e teria pago “ comissões exorbitantes” aos dirigentes  do banco de Andorra. Por último, o Tesouro americano sublinha que o BPA teria sido utilizado para branquear o desvio de cerca de dois mil milhões de dólares da companhia petrolífera  pública venezuelana PDVSA.

Mas teremos um país seguro, a Alemanha, interroga-se o nosso homem muito bem vestido e ainda melhor calçado. Passa os olhos pela imprensa financeira e que vê?

Investir então  no sistema bancário alemão?

Uma olhadela rápida sobre o que se passa pelas terras de além-Reno.

Düsselhyp, primeira vítima do banco austríaco , anunciava o jornal Les Echos de Março de 2015.

 “O BAD bank” austríaco Heta, onde  estão alojados os activos para  liquidação do  banco Hypo Group Alpe Adria, já fez uma vítima. A Federação dos bancos privados alemães (BdB) tomou sob o seu controlo em  16 de Março o banco Düsseldorfer Hypothekenbank (Düsselhyp), que detinha 348 milhões de euros de créditos sobre o banco austríaco. “Mas o problema  não é apenas  Düsselhyp, diz Sam Theodore, de Scope  Ratings. É também a credibilidade do mercado  dos  “ Pfandbriefe” alemães e  das “obrigações cobertas”  na Europa.” No caso de falência desta pequena entidade financeira , estes instrumentos de refinanciamento estratégicos para os bancos irão ficar extremamente fragilizados.

Velho - VIII

Diz-nos a Reuters  A federação dos bancos privados BDB aceita a compra do banco em crise, o  DuesselHyp  por  Lone Star

– Duesselhyp teve que ser resgatado devido à exposição a Heta

–  Outros bancos também  tem exposição a  Heta

BERLIM, 16 de Março A Alemanha espera que o problema de  Duesseldorfer Hypothekenbank AG (DuesselHyp) permaneça um caso isolado deste banco ter sido resgatado  devido à sua exposição ao banco mau Heta  pertencente ao Hypo Alde Adria

A associação alemã de bancos privados  BDB  disse na  segunda-feira que os seus órgãos de decisão  tinham aprovado uma aquisição maioritária do banco pelo investidor  Lone Star dos E.U.

“Com a aquisição do banco a continuação do banco foi garantida no interesse dos  seus clientes e da estabilidade de mercados financeiros,” disse o director administrativo Michael Kemmer de BDB.

O BDB tinha alcançado um acordo no fim-de-semana  com a supervisão dos mercados financeiros, Bafin, o Bundesbank e autoridade de resolução do mercado financeiro FMSA para se fornecer uma garantia para a detenção de cerca de 350 milhões  que DuesselHyp   tinha em obrigações emitidas por  Heta que estão  sujeitas a uma moratória de dívida  imposta pelos  reguladores financeiros austríacos.

O ministro das Finanças  disse que os reguladores do sistema bancário continuam a estudar o impacto da moratória sobre os  bancos alemães mas caracterizou os problemas de  DuesselHyp como “um caso isolado”.

“O Bafin e FMSA continuam a estarem sempre prontos para utilizarem as  medidas de crise que forem necessárias sob a lei da supervisão das operações  bancárias e sobre as novas regras de resolução e de recuperação  de activos, acrescentou.

Um  pequeno banco regional na Áustria e olhem os estragos que faz! E pelos sub-entendidos  do texto da Reuters haverá muitos mais casos como  este na Alemanha. Percebe-se agora o que todos já sabíamos: o sistema alemão estava cheio, a aborratar de créditos de má qualidade internos e externos. Os créditos externos levaram  a senhora Merkel a afundar toda a Europa para salvar os bancos alemães,  transferindo a dívida privada para dívida pública e para que isso fosse feito o mais rapidamente possível, impos uma austeridade de ferro a lembrar os tempos  que antecederam a ascensão de Hitler, a lembrar a derrocada da República de Weimar.

Depois de tudo o  que  por aqui fica descrito, mesmo  que de forma ligeira, a forma de uma carta escrita na urgência da sua decisão de blindar o seu dinheiro fresco no covil dos ladrões, num dos seus cofres, resta-me dizer-lhe minha querida amiga, a si e ao nosso homem muito bem vestido e ainda melhor calçado, que apesar de discordar da vossa decisão,  esta é  contudo bem racional, bem vista a realidade em que vivemos. Mas se a realidade em que vivemos torna racional o que é irracional, só há uma tomada de posição imediata a tomar, mesmo que de efeitos apenas a  médio prazo,   que seja verdadeiramente racional: lutar com todas as nossas forças contra a ordem instituída que é responsável por esta inversão total dos valores em que deve assentar uma sociedade.

E repare minha amiga como esta ordem que contestamos é diariamente justificada  pelos media. Diga-me viu alguma coisa do que aqui está escrito nos nossos jornais? Não, e não é por acaso, porque uma das funções da nossa imprensa é exactamente a de esconder a podridão do sistema.

E em jeito de despedida, deixe-me apontar-lhe por uma vai passar muito em breve a nossa linha de resistência, a de querer salvar o que nos resta de Ensino Público,  de Saúde Pública, de Segurança Social. A alta finança depois de comprar Portugal em saldo posto pela Troika e leiloado  pela direita portuguesa  irá   em breve partir ao assalto do que resta da Economia Social, da Saúde, da Educação. Olhe para o que se passou na Áustria e por um partido social-democrata no poder, como se explicou acima.  Irá assistir a belas coberturas mediáticas, a discursos muito bem feitos, a prospectos emitidos pelos bancos bem atraentes, irá depois assistir aos Leopardos de referência em Portugal hoje,  que bem poderão ser Francisco Assis e Vital Moreira, a justificaram a ganância da alta finança, com nomes bem sonantes como JP. Morgan, como Goldman Sachs ou outros e todos eles bem apoiados na directiva sobre o investimento a longo prazo criada  pelo lobista da City e actual Comissário europeu,  Jonathan Hill, dinamizando a titularização, afinal o instrumento de referência que nos trouxe para a crise.  Irá assistir a  textos teóricos muito bem escritos produzidos a partir de um centro de intoxicação neoliberal, um think tank, o INSEAD em França, a escola de referência do homem que vendeu grande parte de Portugal, António Borges.

(continua)

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Para ler a Parte II desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

UMA CARTA DE UM VELHO QUE SOU EU A UMA AMIGA MINHA A PROPÓSITO DE DINHEIRO – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

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