

Há quem não goste de estreias teatrais, mas eu continuo a gostar. Antes do 25 de Abril, íamos ao teatro na estreia ou num outro dia qualquer e ali encontrávamos alguém que comungava do mesmo objectivo, independentemente da ideologia socialista, social-democrata ou democrata-cristã que professasse: a queda do regime fascista! Foi como espectador de teatro que fiz muitas amizades; logo após a chamada «Revolução dos Cravos», o entusiasmo à volta do teatro foi enorme, cimentaram-se algumas das companhias que corajosamente lutaram pelo teatro português e pelo teatro em Portugal de qualidade no antigo regime e outras companhias se formaram. O teatro de amadores, com a sua associação saída da clandestinidade (APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores), reafirmou-se e, em muitas localidades do país, foi graças ao amor pelo teatro dos seus membros que os vários públicos puderam ver espectáculos de teatro, não com a qualidade do teatro profissional, mas com o amor e a espontaneidade que às vezes não vemos entre os profissionais, chegando a APTA a ter mais de 600 grupos associados.
Com o passar dos anos, os orçamentos governamentais para a cultura foram diminuindo, apenas com um aumento casual no primeiro governo de António Guterres, ao mesmo tempo que o monopólio partidário se foi apoderando do país, mas isto é assunto para analisar num outro tipo de crónica, não cabendo nesta. Com esta diminuição orçamental e também com uma péssima distribuição resultante de muito compadrio, algumas companhias teatrais viram-se em sérias dificuldades para prestar o serviço público para que se mostraram sempre disponíveis. Evidentemente que o compadrio na distribuição dos apoios foi atingindo as companhias que mais incómodo causavam ao sistema político criado pelo monopólio partidário. A Companhia Teatro Aberto é uma das que resistem com coragem, coragem essa que assenta não só no amor ao teatro dos seus responsáveis, mas também pela consciência que tem da necessidade do teatro na sociedade em que está inserida.
Mas voltemos à ligeireza que para esta crónica se pretende.
As estreias de teatro já não são como dantes. Agora, muitos dos amigos que encontrávamos já não aparecem, uns morreram e outros ficam pelo sofá caseiro, olhando a estupidificante televisão, tão esquecida do teatro, e uma ou outra série de qualidade («Justified», com argumento desse excelente escritor que foi Elmore Leonard, recentemente falecido, chegou ao fim). Desta vez, para além da Vera San Payo de Lemos, do João Lourenço e do Melim Teixeira, naturalmente, lá vi, como é habitual, o Carlos Fragateiro, velho companheiro do teatro de amadores e de outras andanças, aparecendo logo de seguida o Augusto Sobral, que eu não via há já muito tempo, autor de uma das mais belas peças de teatro, «Os Degraus», editada pela Presença em 1964, sucessivamente ignorada pelas companhias de teatro portuguesas, o mesmo acontecendo com uma outra grande peça, «O Quarto», da autoria de Costa Ferreira, proibida pela censura do anterior regime e só editada em Outubro de 1974 pelos Serviços Sociais dos Trabalhadores da CGD. São duas obras que urgentemente têm de subir ao palco de um teatro deste país, numa prestação de serviço público para que as companhias são subsidiadas. Ou representar autores portugueses não é considerado serviço público?
Apareceu também o Rogério Vieira, que eu conheci na antiga Lourenço Marques, onde eu concluí a minha comissão na guerra colonial de má memória no Hospital Militar a dar instrução aos soldados, e ele ainda ali continuou por mais algum tempo no cumprimento daquele «dever patriótico», como então se dizia. Desta vez não vi a Irene Cruz, mas fiquei a saber, quando por ela perguntei, que lá estava, e por isso aproveito para lhe enviar um abraço com a amizade de sempre.
A conversa não podia deixar de referir a demissão de João Soares e a metafórica ameaça das bofetadas, o que originou divergências no grupo, uns dizendo que os críticos eram merecedores das bofetadas e outros, como eu, dizendo que João Soares foi por fim digno ao demitir-se, acrescentando eu ainda que, com tal gesto, ganhou a cultura. O Carlos Fragateiro insurgiu-se, em particular, contra o Augusto M. Seabra, por algumas críticas injustas que este terá escrito, com o que estive de acordo ─mas não necessariamente sobre os mesmos textos─ sendo ele um crítico de quem muitas vezes discordei. Desta vez, ele criticou a acção do ministro João Soares, que é um direito que lhe assiste, como crítico e cidadão, e o ministro deveria procurar responder pela acção positiva que viesse a desenvolver em prol do país e da cultura, desmentindo assim o crítico. A acção do ministro já me tinha parecido errática noutra matéria, o CCB, não por ter despedido o António Lamas, admitindo haver razões para isso, mas a forma como o fez, mostrando ser herdeiro da arrogância do pai e não de algumas das qualidades que a Mário Soares são reconhecidas. Claro que fiquei contente pela nomeação do Elísio Summavielle, não só pela amizade mas, sobretudo, por reconhecer nele qualidades para fazer um bom trabalho. Como vem sendo já normal neste país, esta polémica não tocou na questão de fundo e que tem a ver com a necessidade de um ministério que verdadeiramente apoie a criação e defenda o património, quando, na verdade, o que temos é um ministério da cultura que gasta a maior parte do orçamento miserável com que é dotado a manter uma estrutura. E ainda há quem aceite ser ministro da Cultura!
Perguntou alguém: quem será o substituto de João Soares? Vários nomes foram referidos, mas ninguém acertou, surpreendendo António Costa com a nomeação do Embaixador-Poeta (ou Poeta-Embaixador?) Luís Filipe Castro Mendes. Não conheço a sua obra poética, nem a ensaística, falha minha que procurarei colmatar. Diz-se que se situa na ala esquerda do PS e que militou no MES – Movimento de Esquerda Socialista, para além de ter sido assessor de Melo Antunes e do Presidente Ramalho Eanes, factos que, para mim, abonam a seu favor; no entanto, espero para ver a sua acção no Ministério da Cultura, onde lhe desejo a maior das fortunas.
Mas, reparo agora, ainda não falei da peça a que assisti.
Foi a estreia mundial ─deixemos de ser modestos, até por respeito à nossa História─ do texto «Ao Vivo e em Directo», de um autor para mim desconhecido, Raul Malaquias Marques, vencedor do Grande Prémio de Teatro Português de 2014, prémios estes que, graças à companhia do Teatro Aberto, os portugueses têm tido a possibilidade de ver em palco. É uma das suas formas de prestar serviço público, como outras companhias, não todas, o fazem também e sem o devido reconhecimento das entidades públicas.

Não vou fazer a crítica do espectáculo, não é esse o objectivo desta crónica ligeira e também não sou crítico de teatro, não resistindo, no entanto, a dizer alguma coisa sobre o autor.
Trata-se do jornalista Francisco Malaquias Marques, o qual, como nos mostra o programa elaborado para o espectáculo, é autor de uma obra significativa para crianças –poesia, teatro e narrativa- e, para adultos, abrangendo as mesmas áreas, sendo significativa a parte dedicada ao teatro, que já vai em 4 textos, o que facilmente se compreende se citarmos, da conversa com Vera San Payo de Lemos e Marta Dias no citado programa, a seguinte passagem: «A linguagem teatral é, ainda hoje, aquela que eu tenho como a mais directa. (…) Para mim, a linguagem cénica, teatral, tem um impacto, uma proximidade que toca as pessoas de uma maneira que eu não sinto que aconteça com o cinema, por exemplo. É quase uma fisicalidade, que a mim me fascina. Confesso que hoje vejo muito mais teatro do que cinema. Toca-me mais, sinto mais presente, a minha inteligência e a minha sensibilidade se repassam melhor da “mensagem” de uma peça de teatro do que da de um filme.»
Foi com alguma expectativa que me sentei para ver o espectáculo, expectativa que não saiu gorada. Espero agora ter oportunidade de ver mais textos do autor em palcos portugueses, ele merece e é a demonstração clara de que ao teatro português não faltam autores com qualidade, sendo é necessário que as companhias teatrais se disponham a levá-los à cena.
No elenco há uma mistura de actores consagrados e jovens actores, que nos dão a garantia de que, neste aspecto, o futuro do teatro português está garantido. Hoje, actrizes e actores jovens têm uma formação que há uns anos não era habitual, para o que muito tem contribuído a Escola Superior de Teatro e Cinema e outras escolas de teatro, havendo mesmo actrizes e actores –isto é para contentar o Bloco de Esquerda- que procuram formação em boas escolas no estrangeiro.
Entre os consagrados, está Rui Mendes, que pela primeira vez vi num dos mais extraordinários espectáculos de teatro a que pude assistir, com os meus 19 anos, no que incluo espectáculos estrangeiros em Portugal e em diversos países, «O Render dos Heróis», de José Cardoso Pires, numa brilhante encenação de Fernando Gusmão e numa não menos brilhante interpretação de Rui de Carvalho, estreado pelo Teatro Moderno de Lisboa, no cinema Império, em Janeiro de 1965. Os consagrados de então logo me disseram que o Rui viria a ser uma das primeiras figuras do teatro português, no que não se enganaram. Está também a Maria Emília Correia, por quem tenho um carinho muito especial, que conheci aquando da vinda, julgo que em 1972, do TEP a Lisboa, com a encenação do Ángel Fácio de A Casa de Bernarda Alba, de Federico Garcia Lorca, no que terá sido o primeiro «travesti» do meu companheiro de várias lutas Júlio Cardoso, o qual, como não poderia deixar de ser, fui abraçar no final do espectáculo, assim conhecendo pessoalmente a Maria Emília e que sempre vejo em palco com enorme prazer. Ainda nos consagrados está o Francisco Pestana, também ele dramaturgo premiado, de quem não me recordo na companhia «Os Bonecreiros», mas me lembro muito bem no início de «A Comuna», com o João Mota, a Manuela de Freitas, a Maria Emília Correia e outros. Entre os consagrados e os jovens, aparece Paulo Pires, já com larga experiência no cinema, no teatro e na televisão, que sabe entregar-se às personagens que lhe são distribuídas com um profissionalismo exemplar, como neste espectáculo mais uma vez demonstra. A terminar, não posso deixar de referir os jovens, actrizes e actores, por o agradável que foi sentir que o teatro português não será por eles que deixará de ter futuro.
Parabéns a todos e ao Fernando Heitor e aos técnicos que tornaram possível este espectáculo, parabéns ao Teatro Aberto, sobretudo por ter dado mais uma vez oportunidade a um autor português. E o obrigado do espectador e do amador de teatro que continuo a ser, por mais um espectáculo que do teatro me aproxima ainda mais.
A finalizar, a todos os leitores desta crónica ligeira um pedido: vão ver o espectáculo do Teatro Aberto, com a certeza de que darão o tempo por bem empregue.
Portela (de Sacavém), 2016-04-24
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António Gomes Marques solicitou que fosse feita a rectificação seguinte:
“Há um erro indesculpável no meu texto, o autor de “Ao Vivo e em Directo” chama-se Raul Malaquias Marques e não Francisco …
O meu pedido de desculpas ao autor, a todos os intervenientes no espectáculo, ao Teatro Aberto/Novo grupo e aos leitores.
António Gomes Marques”.