
Apresentação da nova série de textos, O drama dos migrantes numa Europa em declínio e capturada por Erdogan e Obama
Um amigo meu de longa data escreveu-me o seguinte:
“Obrigado amigo Júlio
Tenho lido com muita atenção todos os trabalhos que me tens mandado. Naturalmente que em muitos deles tenho sentido muita dificuldade em percebe-los na sua totalidade. Mas, de cada vez que leio um trabalho dos que recebo de ti, sinto que fiquei um pouco mais rico em conhecimentos. Por isso e mais uma vez os meus agradecimentos.
Vivemos num País em que as pessoas se preocupam apenas com os resultados de futebol e em que os governantes tudo podem fazer, porque “isso de política” não interessa.
Mas isto é um mal que já vem de há muito tempo. Lembro-me perfeitamente que, uma dos pessoas que mais admirava na nossa terra quando era pequeno, era o teu pai, o saudoso tio Adriano, que era das pessoas mais esclarecidas da nossa terra. Com ele aprendi algumas coisas e, agora contigo, continuo a aprender.
Uma das coisas que mais me está a custar neste meu “regresso” a Portugal é precisamente a falta de interesse das pessoas mas, também já compreendi que com a comunicação social que temos, não podia ser melhor. É por isso que, embora considerando que não é a ideal, continuo muito mais ligado à informação alemã. E, tenho assistido a muito bons debates. Ainda ontem assisti a um em que se fazia a pergunta de estar a senhora Merkel refém do Presidente Turco. Muito bom.
O assunto relacionado com os “offshores” tem sido tema de debate e, tem sido motivo de denuncia aos governos da UE, inclusive os governos alemães quer do CDU quer do SPD porque sempre se recusaram a fazer algo contra.
Recuso-me a ver televisão portuguesa por isso desconheço como é que estão a tratar este problema mas, acredito que estarão mais interessados em encobrir do que em esclarecer.
Um grande abraço amigo Júlio. Zé Eduardo.”
Um grande amigo meu com quem pela primeira fez terei percebido bem o que era teoricamente a Troca Desigual, a exploração internacional de uma nações pelas outras via preços de produção formados nos mercados mundiais, onde os capitais são móveis e o trabalho relativamente imóvel. E o exemplo partia da mulher dele. Funcionária de uma grande empresa alemã a trabalhar em Frankfurt-sur Maine, se viesse para Portugal viria para a mesma empresa e a fazer exactamente a mesma coisa ganhar na ordem dos 40 por cento do que ganhava na Alemanha. O mecanismo exacto da Troca desigual, assente na mobilidade do capital, na diferenciação salarial e na imobilidade absoluta ou mesmo relativa do trabalho. Neste caso, a chamada deslocalização no local, com os seus enquadramentos legais ou sem eles, tão agora em voga assegura a diferenciação salarial. Mas isto é Teoria Económica pura, deixemo-la, portanto.
Este meu amigo de longa data fala-me aqui da questão levantada na Alemanha, a saber, se Merkel é ou não prisioneira de Erdogan. Peguei nesta sua ideia e fui à procura. Nessa sequência reuni um conjunto de textos relacionados com esse mesmo tema e chega—se à conclusão que talvez a Europa e Merkel com ela, porque Merkel agora é a Europa, esteja prisioneira de um par de alto risco-Erdogan-Obama. É difícil engolir esta ideia mas a sequência de textos encontrada alinha com a tese de que o meu amigo Zé acima me fala. Desta longa série basta-nos ler por exemplo:
-
A Europa, homem doente da Turquia de Gil Mihaely
-
Merkel – Erdogan: o verdadeiro par que dirige a Europa de Roland Hureaux
-
Obama-Erdogan : o par de alto risco de guerra, de Bernard Plouvier
-
Alemanha: Schengen ano zero, de Laurent Gayard
-
Abidjan, Ankara : os atentados em rede, de Michel Lhomme, politólogo
-
Os meios de comunicação social andam a enganar a opinião pública sobre a guerra na Síria. Stephen Kinzer
A série será concluída por quatro textos, todos eles longos mas sinceramente penso que são de leitura quase que obrigatória sobre estas matérias e que são :
A verdadeira natureza de Erdogan, de Alexandre del Valle
Porque é que os árabes não nos querem na Síria de Robert F. Kenedy Jr
Robert Kennedy Jr. Denuncia o conflito na Síria : uma « guerra por procuração» por causa de um pipeline, Taïké Eilée
Uma nova guerra já começou – quebremos o silêncio, de John Pilger,
Se tivermos em conta a posição assumida por John Kerry e o que dela relata o Washington Post:
“Secretary of State John Kerry said at Wednesday’s hearing that Arab counties have offered to pay for the entirety of unseating President Bashar al-Assad if the United States took the lead militarily.
“With respect to Arab countries offering to bear costs and to assess, the answer is profoundly yes,” Kerry said. “They have. That offer is on the table.”
Asked by Rep. Ileana Ros-Lehtinen (R-Fla.) about how much those countries would contribute, Kerry said they have offered to pay for all of a full invasion.
“In fact, some of them have said that if the United States is prepared to go do the whole thing the way we’ve done it previously in other places, they’ll carry that cost,” Kerry said. “That’s how dedicated they are at this. That’s not in the cards, and nobody’s talking about it, but they’re talking in serious ways about getting this done.
https://www.washingtonpost.com/blogs/post-politics-live/liveblog/the-houses-syria-hearing-live-updates/#e68f139f-e012-476c-876e-2467ba30e5e3
percebemos bem a importância dos últimos textos e lembramo-nos de uma outra guerra sobre o Iraque também ela paga. Desses tempos e dessa outra guerra também paga relembro uma análise dos mercados financeiros sobre um grande operador nos mercados obrigacionistas porque, contra qualquer expectativa, contra qualquer sinal, perdeu uma fortuna. E a razão era afinal muito simples e não estava no seu radar: num dado dia, a Arábia Saudita em dificuldade de dólares para pagar a guerra vendeu milhões de títulos do Estado americano, estes desceram e mecanicamente as taxas de juro aumentaram. A complexidade dos mercados financeiros fez o resto. Bastou-lhe, por exemplo, terem apostado na descida das taxas de juro e elas terem subido, como no Barings! Mas isto são outras histórias.
Com estes textos ficamos claramente a perceber que o drama migrantes, refugiados, o de agora, é um drama criado e que o Tribunal da História julgará, mesmo que postumamente, os seus responsáveis. Mas com a situação criada é a própria Europa que está ameaçada por tanta crueldade, por tanta incompetência.
E, neste contexto, há aqui um pormenor curioso: durante anos a Europa teve como seu aliado para conter a imigração o presidente Kadhafi da Líbia. Este foi publicamente sodomizado e morto, para gáudio de Hilary Clinton. Actualmente, esta Europa doente, de milhões de desempregados sem amanhã, de milhões de migrantes fora e dentro dos seus próprios países europeus, contrata agora, a preço de 6 mil milhões e não só, um quase verdadeiro sultão, para fazer o trabalho de Kadhafi, Erdogan. Não será isto mais um evidente sinal do declínio europeu?
Obrigado a este meu amigo, o José Eduardo, por me ter sugerido implicitamente esta série. Eu também não imaginava o que iria ler.
Coimbra, 3 de Maio de 2016
Júlio Marques Mota

