O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 12. PORQUE É QUE OS ÁRABES NÃO NOS QUEREM NA SÍRIA, por ROBERT F. KENNEDY, JR. – I

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Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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Porque é que os árabes não nos querem na Síria

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Robert F. Kennedy, Jr., Why the Arabs Don’t Want Us in Syria,

Politico Magazine, 22 de Fevereiro de 2016

 

Eles não detestam as nossas liberdades. Eles detestam que tenhamos traído os nossos ideais nos seus próprios países por causa do petróleo.

ROBERT F. KENNEDY, JR

Em parte porque o meu pai foi assassinado por um árabe, esforcei-me pessoalmente em compreender o impacto da política americana no Médio Oriente, e particularmente sobre os factores que fundamentam, por vezes, as respostas sanguinárias por parte do mundo islâmico para com o nosso país. Enquanto nos concentramos sobre a emergência do Estado Islâmico e procuramos saber qual a origem da crueldade que ceifou tantas vidas inocentes em Paris e San Bernardino, poderíamos querer olhar para além das explicações confortáveis relativas à religião e à ideologia. Deveríamos sobretudo examinar as explicações mais complexas da História e do petróleo e como é que elas apontam um dedo acusador para as nossas próprios margens..

O pouco glorioso registo de intervenções violentas americanas na Síria, muito pouco conhecido dos Americanos mas contudo muito conhecido dos Sírios, criou um terreno fértil a um djihadismo islâmico violento que muito dificulta qualquer resposta efectiva dos nossos governos para enfrentar o desafio do Estado Islâmico. Assim e enquanto a opinião pública americana e os políticos ignorarem este passado, as intervenções próximas vão provavelmente limitar-se apenas a agravar a crise. O secretário de Estado John Kerry anunciou esta semana um cessar-fogo “provisório” na Síria. Mas como os meios e o prestígio dos Estados Unidos na Síria são muito fracos – e que o cessar-fogo não se refere a beligerantes importantes como o ÉI e al-Nosra – este cessar fogo está condenado a limitar-se, no melhor dos casos possíveis, a uma frágil trégua. Do mesmo modo, o reforço da intervenção militar do presidente Obama na Líbia – os bombardeamentos aéreos dos USA visaram um campo de treino do ÉI na semana passada – isto vai provavelmente reforçar os radicais em vez de os enfraquecer. Como o New York Times referiu a 8 de Dezembro de 2015, os chefes políticos do ÉI e os seus planificadores em estratégia procuram provocar uma intervenção militar americana. Sabem por experiência que isso aumentará fortemente as suas filas de combatentes voluntários, calará as vozes da moderação e unificará o mundo islâmico contra a América.

Para compreender esta dinâmica, devemos olhar para a história numa perspectiva dos Sírios e particularmente quanto às fontes do conflito actual. Bem antes da nossa ocupação do Iraque em 2003 que desencadeou a revolta sunita e que veio a transformar-se em Estado Islâmico, a CIA tinha alimentado um djihadismo violento utilizando-o como uma arma em período de guerra fria e tinha posto em situação difícil as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a Síria.

Isto não se passou sem controvérsia. Em Julho de 1957, depois de um golpe de Estado falhado na Síria e conduzido pela CIA, o meu tio, o senador John F. Kennedy irritou a Casa-Branco de Eisenhower, os líderes dos dois partidos políticos, e os nossos aliados europeus, com um discurso de antologia em que apoiava o direito a um governo independente no mundo árabe e disposto a colocar um fim na ingerência imperialista americana nos países árabes. Ao longo de toda a minha vida, e particularmente durante as minhas frequentes viagens ao Médio Oriente, inúmeros Árabes recordaram-me da boa vontade deste discurso como mais a clara expressão de idealismo que esperavam dos Estados Unidos. O discurso de Kennedy era um apelo de modo a que a América se empenhe de novo nos elevados valores que o nosso país tinha defendido na Carta Atlântica; cuja promessa solene de que todas as antigas colónias europeias teriam direito à autodeterminação após a Segunda Guerra mundial. Franklin D. Roosevelt tinha torcido o braço de Winston Churchill e dos outros responsáveis aliados de modo que assinassem a Carta Atlântica em 1941 como pré-condição do apoio americano na guerra europeia contra o fascismo.

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O Procurador-Geral dos Estados Unidos, Robert Kennedy, pronuncia um discurso em 2 de Setembro de 1964

Mas em grande parte graças a Allen Dulles e à CIA, cujas intrigas em matéria de política estrangeira estavam frequentemente em total oposição com as declarações políticas da nossa nação, o caminho idealista traçado na Carta Atlântica não foi tomado. Em 1957, o meu avô, o embaixador Joseph P. Kennedy, fez parte de uma comissão secreta encarregada de inquirir sobre os golpes condenados ao fracasso e promovidos pela CIA no Médio Oriente. O relatório designado “Relatório Bruce-Lovett”, de que era signatário, descrevia as conspirações de golpe de Estado da CIA na Jordânia, Síria, Irão, Iraque e Egipto, bem conhecidos pelos povos dos respectivos países mas praticamente ignorados do povo americano que tomava sempre como certos e correctos os desmentidos do seu governo. O relatório responsabilizava ainda a CIA pelo anti-americanismo larvar que estava então a enraizar-se misteriosamente em “numerosos países do mundo de hoje.” O relatório Bruce-Lovett sublinhava que tais intervenções eram contrárias aos valores americanos e tinham comprometido a proeminência americana internacional e a sua autoridade moral sem que o povo americano nada saiba disso mesmo. O relatório dizia também que a CIA nunca não tinha encarado como reagir face a tais actuações se um governo estrangeiro as fomentasse no nosso país.

Tal é a história sangrenta que os modernos intervencionistas como George W. Bush, Ted Cruz e Marco Rubio esquecem quando recitam o seu discurso narcisista segundo o qual os nacionalistas do Médio Oriente “ nos odeiam devido às nossas liberdades.” Na maioria dos casos é falso; em vez disso, odeiam-nos pela forma como traímos estas liberdades – o nosso próprio ideal – no interior das suas fronteiras.

Para que os Americanos compreendam realmente o que se passa, importa recordar certos detalhes desta história sórdida mas ignorada. Durante os anos 50, o presidente Eisenhower e os irmãos Dulles – Allen Dulles, director da CIA e John Foster Dulles, Secretário de Estado – afastaram as propostas de tratado soviéticas que visavam fazer do Médio Oriente uma zona neutra na guerra fria e deixar os Árabes governar a Arábia. Em vez disto, os americanos elaboraram uma guerra clandestina contra o nacionalismo árabe – que Allen Dulles considerava como equivalente ao comunismo – em especial quando a autogestão árabe ameaçava as concessões petrolíferas americanas. Forneceram uma ajuda militar americana secreta aos tiranos na Arábia Saudita, na Jordânia, Iraque e no Líbano, favorecendo marionetes de ideologia djihadista conservadora que consideravam como um antídoto certo ao marxismo soviético. Aquando de uma reunião na Casa-Branco em Setembro de 1957 entre Frank Wisner, director dos programas da CIA, e John Foster Dulles, Eisenhower aconselhou a Agência: “Deveríamos fazer tudo o que nos seja possível para insistir sobre o aspecto “guerra santa”,” de acordo com uma nota tomada pelo seu secretário de equipa, o general Andrew J. Goodpaster.

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A CIA começou a intervir activamente na Síria em 1949 – um ano apenas depois da criação da Agência. Os patriotas sírios tinham declarado a guerra aos nazis, expulsos os administradores coloniais franceses do governo de Vichy e elaborado uma frágil democracia laica inspirada do modelo americano. Mas em Março de 1949, o presidente sírio democraticamente eleito, Shukri-al-Quwatli, hesitou em dar o seu acordo à construção de um pipeline trans-arábico, um projecto americano destinado a ligar os campos petrolíferos da Arábia Saudita aos portos libaneses através da Síria. No seu livro, “Legacy of Ashes” [“a Herança das Cinzas”], Tim Weiner, o historiador da CIA, conta que para se vingar da falta de entusiasmo de Al-Quwatli em relação ao pipeline americano, a CIA organizou um golpe de Estado que substituiu Al-Quwatli pelo ditador que ela tinha escolhido, um vigarista anteriormente condenado, de nome de Husni al-Za’ im. Al-Za’ im mal teve tempo de dissolver o Parlamento e de aprovar a instalação do pipeline americano antes de que os seus concidadãos o destituam, com apenas quatro meses e meio de exercício do poder.

Na sequência de várias repercussões no país frescamente desestabilizado, o povo sírio tentou mais uma vez a democracia em 1955, elegendo de novo Al-Quwatli e o seu Partido Nacional. Al-Quwatli tinha sido sempre um defensor da neutralidade na guerra fria, mas, espicaçado vivamente pela implicação americana na sua destituição, ele virou-se então para o campo soviético. Esta atitude força Dulles, o director da CIA, a declarar que “a Síria está madura para um golpe de Estado” e enviar os seus dois magos em golpes de Estado, Kim Roosevelt e Rocky Stone, a Damasco.

(continua)

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Ler o original em:

http://www.politico.com/magazine/story/2016/02/rfk-jr-why-arabs-dont-trust-america-213601#ixzz48H4aOVtd

Ler a introdução de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas:

O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 12. PORQUE É QUE OS ÁRABES NÃO NOS QUEREM NA SÍRIA, por ROBERT F. KENNEDY, JR. – a introdução de JÚLIO MARQUES MOTA

 

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