Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media | 1. Fim do euro – uma análise dos argumentos para retardar o inevitável, a queda do euro II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições  Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais  e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos

(conclusão)

Diz-nos o texto do banco Natixis:

A « segmentação » da cadeia valor

Desde os anos de 1990, os processos de produção têm sido segmentados entre os diferentes países em função das suas vantagens comparativas, pois que diferentes componentes são montados e o produto final realizado. Isto explica uma parte do aumento do peso das importações dos países da zona euro com origem nos países emergentes. Veja-se gráfico 5:

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Esta segmentação da cadeia de valor implica que os produtos importados se tornaram complementares dos produtos fabricados internamente (estes são componentes do mesmo produto final) e já não têm substituto fabricado internamente.

Isto explica que a elasticidade preço das importações se tornou nula: a depreciação do euro já não reduz as importações em volume como é visível desde 2010 segundo o gráfico 6a e 6b:

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No total, a desvalorização não traria senão desvantagens. Mas aqui a questão ainda mais curiosa é o que Natixis considera: considera as relações até aqui verificadas e mais ainda, considera que uma saída do euro não representa uma outra política, uma outra política industrial, uma outra política agrícola, uma outra política comercial, com alguns efeitos de reajustamento industrial de curto prazo dolorosos, é certo e sabido, mas se criadas condições de reajustamento a médio prazo que poderão ser poderosos e contrapostos completamente às correlações até aqui apresentadas e nos gráficos mostradas. Natixis fica aqui muito longe do muito liberal Paul Samuelson para quem mais vale um salário condigno que preços mais baixos de 20% em Walmart ( derivados desta globalização) e estar desempregado.

Ainda a este nível a leitura de Natixis releva da pura ideologia quando na sua base está a ideia de que o comércio internacional resulta das vantagens comparadas. Nunca o comercio internacional feito na base de salários de 1 para 8 pode representar vantagens comparadas. Vantagens comparadas pressupõem técnicas diferente, técnicas relativamente diferentes, e não salários diferentes. No tempo de Ricardo, o homem que criou o conceito de vantagens comparadas, os salários seriam mais ou menos homogéneos à escala internacional e foi nessa base que desenvolveu o conceito de vantagens comparadas. Este teorema, o das vantagens comparadas, foi estabelecido na base de hipóteses extremamente restritivas que hoje não sequer se verificam. Fundar a especialização internacional neste princípio releva pois ou da mais profunda demagogia ou da mais profunda ignorância

Dito por outras palavras, estamos muito longe da análise de Natixis quando este banco nos explica que a depreciação do euro ou os direitos alfandegários têm apenas como efeito fazer subir o preço das importações como se viu em 2010-2011 e depois a partir de 2014 na zona euro (gráfico 7), e reduz consequentemente o poder de compra do rendimento interno.

De novo aqui Natixis pensa o amanhã de um qualquer país a sair da zona euro como se os comportamentos e as relações económicas sejam no futuro as do passado, as desta União Europeia e do seu ultraneoliberalíssimo, as da globalização selvagem e soberana, o que é igualmente um absurdo tanto no plano político como no plano económico.

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Na lógica de Natixis a depreciação das taxas de câmbio e a aplicação de tarifas têm apenas como efeito aumentar o preço das importações, como se viu em 2010-2011 e depois de 2014, na zona do euro (ver gráfico 7) e, assim, reduzir o poder de compra do rendimento do agregado familiar.

Na lógica de Natixis a depreciação do valor da moeda nacional e o proteccionismo são pois no mundo de hoje empobrecedores para os países que praticam este tipo de políticas. Portanto, nesta lógica deve-se deixar tudo o que é política económica aos mercados e assegurar sobretudo que estes sejam soberanos. Ora, o resultado de tudo isto está bem à vista.

A indústria (e os serviços relacionados com a indústria) procuram aumentar a sua eficiência, para manter uma rentabilidade de capital, para lutar contra os excedentes de capacidade produtiva que resultam da fraqueza da procura global por produtos industriais (gráfico 8), concentrando-se num menor número de regiões (por exemplo, Ásia do sudeste, Europa Central, México, gráfico 9).

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Aqui retomamos o que é dito acima. As fábricas deslocam-se dos Estados Unidos para as maquiladoras do México não porque haja vantagens comparadas mas sim porque há salários mais baixos. O mesmo se passa com o Sueste Asiático e com os PECO. Trata-se de concorrência desleal e daí as medidas propostas por economistas como Palley, como Maurice Allais, Jean-Paul Guichard e outros para regular as transacções internacionais. E exige-se uma outra concepção do que é integração económica, desde os clássicos como James Meade, um liberal, que não seja a integração pela concorrência selvagem. E isto não tem nada a ver com o que diz o redactor do texto de Naxitis, Patrick Artus.

Tomando como referência esta temática mas no sentido oposto ao de Artus e de Natixis diz-nos Aurélien Bernier na Revista Causeur:

Para este incondicionais do liberalismo, “a mundialização 2.0 acentua a fragmentação do processo de produção, cujas etapas intermédias são realizadas por fornecedores diferentes, com uma interconexão dos empregos além as fronteiras através das cadeias de valor mundiais” 1. Nada de novo, mais uma vez, por conseguinte, a não ser que é apenas o desenvolvimento das redes que acelera ainda mais a mundialização e tornar a concorrência internacional sempre mais violenta.

O que é necessário recordar, é que em face desta realidade – a mundialização –, duas respostas são possíveis. A primeira consiste em aceitar a concorrência internacional como se aceita o facto que a Terra é redonda, que ela gira e que em termos do tempo há as quatro estações do ano . Se a concorrência for um fenómeno inevitável, então, certamente, é necessário procurar ganhar em competitividade. É necessário tentar rivalizar com o modelo chinês ou indiano, que fazem a economia de quase de todas as protecções sociais e ambientais, que não conhecem o que é uma greve, por assim dizer. É necessário ser concorrenciais em face ao trabalho destacado permitido, sem surpresa, pela ultraliberal União Europeia. Enquanto se escrevia o projecto de lei EL Khomri, a Urssaf e a Inspeção do trabalho controlavam uma sociedade húngara que intervinha sobre um estaleiro fotovoltaico na Gironde: remunerados oito horas por dia para uma duração efectiva de trabalho de 11 horas e meia, seis dias sobre sete, e os assalariados destacados ganhavam 2,22 euros à hora 2. Eis pois para onde nos leva, lentamente mas certamente, a “reforma ” do trabalho num contexto de mundialização.

Nenhuma lei natural nos diz que devemos sacrificar os nossos empregos

A segunda maneira de reagir é pelo contrário recusar a concorrência internacional, sair. Tenho consciência do carácter quase inconcebível desta afirmação. Têm-nos apresentado tanto esta concorrência como um fenómeno natural que o integramos no nosso imaginário social. No entanto, nenhuma lei natural nos diz que devemos sacrificar os nossos empregos para comprar mais barato os produtos procedentes das deslocalizações. Nenhum princípio físico conduz à destruição dos acervos sociais na Europa, enquanto que mesmo os acervos sociais para as classes populares não progridem sequer de um iota nos países de baixo custo de mão de obra. Desde os anos 1970, os nossos líderes sucessivos, de direita ou supostamente socialistas, fizeram a escolha da mundialização. Mas esta escolha, podemos desfazê-la.

Como? Instaurando o proteccionismo, certamente, de forma a produzir localmente aquilo que aí se pode produzir. Saindo do euro, esta moeda única sobreavaliada, concebida na mais pura lógica liberal, e que nos coloca sob a tutela dos mercados financeiros. Saindo da União europeia que, directiva após directiva, impõe os dogmas ultraliberais e proíbe aos Estados que criem o direito que não seria compatível com o deles. Esta ruptura com a ordem económica tem um nome : a desmundialização. Não a de plástico, de Arnaud Montebourg, que fingia acreditar que o “proteccionismo europeu” é possível, mas sim a do filósofo altermundista Walden Bello, que sempre pensou o proteccionismo nacional como uma medida progressista, de esquerda, como um meio para quebrar com a dominação das grandes empresas e da finança.

Esta desmundialização de esquerda não tem nada a ver com a versão de direita do proteccionismo. Não se trata de restaurar a competitividade da França numa concorrência internacional inalterada. Não se trata de reatar com os Trinta Gloriosos e o seu produtivismo cego . Trata-se de acabar com esta concorrência e de a substituir , progressivamente, por outras relações entre Estados, fundadas sobre a cooperação.”

Uma coisa aqui é certa mas ultrapassa o âmbito desta nota: a decadência imposta na Europa pela mundialização, o fragmentar do ensino e da formação, muitas vezes formação de coisa nenhuma, o desemprego massivo da juventude, levarão cada vez mais a não termos gente capaz de poder responder atempadamente aos desafios que a outra política exige. Se lermos o relato que fiz num texto sobre o 25 de Abril, muito simplificado mesmo, de quatro jovens desempregadas, percebemos que o desemprego de longa duração tem inclusive como efeito a evaporação de competências e a criação de resistências tenazes às exigências que uma outra política, não neoliberal, exigiria para a reformulação dos processos produtivos e para a consequente retoma da economia. E este é um dos grandes desafios não muito evidentes porque toda a gente se recusa a enfrentar esta realidade. Enfrentá-la significa correr o risco de se ser visto como estando a criticar-se a si-próprio, ou a criticar os seus pais, filhos, sobrinhos, netos, primos ou amigos e ninguém o quer fazer. Uma postura totalmente errada, pois estamos a falar de um sistema que não responde às necessidades e não de pessoas, sejam elas quais forem. Veja-se o que se passa em Portuga. Haveria todo um trabalho a fazer, politicamente pouco rentável mesmo que extraordinariamente eficiente a médio prazo, quer quanto a carreiras profissionais a reconstituir, quer quanto a programas de ensino a refazer, de políticas de formação séria a aplicar. E isto passa-se a todos os níveis de ensino. Mas estamos a falar de uma lógica de ensino que se traduz no oposto ao que se tem feito nos últimos dez anos em termos de ensino. A reforma de Bolonha no ensino superior está aí a mostrá-lo à evidência, para falarmos somente deste nível de ensino. E não podemos esquecer que a reforma de Bolonha é, objectivamente, imposta pela União Europeia e com o objectivo primeiro, de poupar nos custos de formação.. Ainda para esta mesma faixa etária de estudantes veja-se a verdadeira mistificação que é o programa Erasmus ou outros conexos. Que poderá um estudante aprender em seis meses num outro país com uma língua que ele não conhece sequer. Dir-me-ão que vai ter aulas em inglês. Mas não me façam rir ou chorar. A maioria dos estudantes portugueses, e estes são melhores que a média europeia por razões que têm a ver com a estrutura fonética da nossa língua, não sabe inglês suficiente para isso. E o que vai aprender, deduz-se então… E quando se vai para um sítio em que não se sabe a língua do país de acolhimento e TAMBÈM não se sabe inglês? Conheci casos destes, ou talvez esteja apenas a imaginar. Um programa Erasmus ou outro com o mesmo objectivo, sério e dedicado à formação e ao amadurecimento intelectual da nossa juventude, exige a confirmação de resultados mas exige bem antes que isso outro tipo de custos, de estruturas de apoio, de bolsas que não sejam de miséria, de formações paralelas, em suma de investimentos na juventude, que os Estados não querem ou não podem fazer. É então melhor continuar a fingir que é o que de há anos para cá se anda a fazer com o programa Erasmus. Mas isto mostra como se vê a juventude ao nível da União Europeia. No caso em análise dir-me-ão que cabe aos governos nacionais garantir as condições óptimas para um tal ensino: como, se agora só há um objectivo que é o de minimizar o Estado Providência, o mesmo é dizer, minimizar as despesas públicas. E sem falar explicitamente nisso, o texto de Natixis coloca de facto esta questão no que se refere ao curto prazo e à renovação do tecido produtivo nacional. Saibamos então descorticar o não dito neste trabalho do banco Natixis.

Esta outra política de ensino, formação e investigação, com todo o seu leque de exigências estaria pois em clara oposição ao que afirma Natixis e o seu ideólogo, Patrik Artus, que mais parece um neoliberal puro de gema a justificar a ocupação da Europa desindustrializada pelos países emergentes, a justificar o Nada há a fazer contra a situação actual. Daí a pergunta de Jean-Paul Guichard: será que Patrick Artus é um consultor dos interesses chineses?

Não há dúvida de que o retorno da soberania monetária vai ser uma estrada difícil. A monetarização prevista no blog [2], no âmbito do respeito de todos os contratos, é a solução menos perigosa, mas é claro que o problema do retorno para uma mais elevada auto centralização de actividades industriais e agrícolas iria consumir muito tempo e o obstáculo mais importante não é o capital em busca de uma maior valorização mas a disponibilidade de mão-de-obra qualificada em muitas profissões esquecidas na globalização das cadeias de valor.

No entanto, os custos consideráveis de um retorno à soberania devem ser comparados com os de manutenção de um sistema monetário com efeitos catastróficos na vida económica, social e política. [3] Entre a recuperação difícil de uma ordem económica e social ou a marcha para a barbárie, é necessário escolher.

La crise des années 2010,  Fin de l’Euro: arguments pour retarder l’inévitable. Texto disponível em : http://www.lacrisedesannees2010.com/2016/03/fin-de-l-euro-arguments-pour-retarder-l-inevitable.html e de Natixis : Ce que ne comprennent pas ceux qui veulent sortir de l’euro ou qui préconisent le protectionnisme, disponível em : http://cib.natixis.com/flushdoc.aspx?id=90392

[1] http://cib.natixis.com/flushdoc.aspx?id=90392

[2] http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/08/fin-de-l-euro-et-fin-de-la-privatisation-des-monnaies.html

[3] http://www.lacrisedesannees2010.com/2016/02/bien-comprendre-la-logique-devastatrice-de-l-euro.html

Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media | 1. Fim do euro – uma análise dos argumentos para retardar o inevitável, a queda do euro I

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