REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 13. PORQUE É QUE O BREXIT É UMA BOA NOTÍCIA. NÃO FAÇAM CONTAS, TRATA-SE DE UM ASSUNTO DO CORAÇÃO, por CLÉMENT SIRDEY.

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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Causeur_svgPorque é que o Brexit é uma boa notícia. Não façam contas, trata-se de um assunto do coração.

Clément SirdeyPourquoi le Brexit reste une bonne nouvelle. Posez vos calculatrices, il s’agit d’une affaire de cœur!

Revista Causeur.fr, 8 de Julho de 2016

Talvez a história venha a acabar por nos mostrar porque é que  a Inglaterra era mais feliz quando estava  na União Europeia. Talvez. Seja como for, duas semanas após o resultado do referendo britânico, o Brexit permanece um acontecimento profundamente entusiasmante.

Sirdey - I
Loja de recordações em Veneza (Photo : SIPA.REX40438440_000001)

O dia 23 de Junho, é “um goodbye” assombroso pronunciado em uníssono por  52% dos Britânicos que votaram a favor do Brexit. Um grito salutar, lançado a plenos pulmões, a expressão bruta de um rancor incubado  desde há já demasiado  tempo. Como na canção de Brassens, o sofrimento  finalmente começou  a ser drenado nestas Midlands britânicas devastadas pelo desemprego e pela incerteza, nestes  baldios pós-industriais onde o denso nevoeiro  nunca deixou passar os raios calorosos da mundialização. Tal como o ferreiro de Rimbaud maltrata Louis XVI e lança-lhe o seu boné vermelho à cabeça, enquanto que em baixo  a multidão revolucionária  treme e movimenta-se como um  mar agitado, o povo britânico encontrou suficientemente cólera nele  mesmo para lançar o seu boletim de voto contra a burocracia bruxelense, e intimar o seu governo a abandonar esta União que não lhe trouxe, di-lo  com força, nada de bom.

Algumas horas depois,  tudo o  que a Europa conta de europeístas  felizes apressavam-se a  concluir ainda a  quente: como geralmente, como sempre, o povo efetivamente não  compreendeu a pergunta. Incultos e mal alimentados, estes camponeses britânicos tinham-se deixado levar por políticos desonestos, tinham-se deixado ir – sabe como são estas pessoas – atrás das suas inclinações xenófobas, da sua obsessão anti-imigração, dos seus delírios de insulares cercados. Olhem a Escócia, olhem a Irlanda do Norte, vejam  como alguns deles se souberam mostrar  razoáveis! A imprensa francesa, que está sempre disposta a classificar como  “ besta imunda” qualquer coisa que se assemelhe de perto ou de longe a  uma decisão popular, não se cansou de insultar estes arrogantes que ousam (como ousam?) afirmar a sua soberania.

No que diz respeito às consequências económicas do Brexit, pouco importa que tenham  razão: o importante, é que o povo respondeu claramente a uma questão  que lhe foi posta. Se cada eleitor dispõe ou não dos dados do problema é acessório: a história política não é uma questão de subtrações e de percentagens, é primeiro que tudo e sobretudo uma questão de sentimento, de desejo. Os Ingleses dizem “nós não podemos mais, partimos”, e para isso não têm necessidade de fornecer um inventário detalhado dos seus argumentos. Aí está porque é que o referendo é um magnífico instrumento da democracia moderna, talvez o último à nossa disposição. Não, é não. Assim mesmo.

O malogro da estratégia do medo

Mas esta “não” é uma afronta insuportável para a clique dos  comentadores  que fazem desde há décadas da defesa das instituições europeias  a sua forma de vida, o seu ganha pão. Citemos dois em especial: Jean Quatremer e Arnaud Leparmentier, respectivamente correspondentes em Bruxelas do Libération e diretor editorial do Le Monde,  que passaram  o último mês a desacreditar a própria ideia do referendo britânico, depois o seu resultado,  lá do autoproclamado alto do seu julgamento. O primeiro, num  post do seu  blog no dia seguinte à votação,  saúda com um risinho “o sentido do sacrifício” da nação inglesa e deseja-lhe, de forma sarcástica, “ anos de incertezas, de tormentas, de rupturas”. O segundo, com todo o sentido da medida que ele conhece, apresentava alguns dias antes um panorama apocalíptico da Inglaterra postBrexit, no qual “o reino dividido” entra em recessão; em conclusão do artigo, um Boris Johnson arrependido pede, em desespero de causa, “a suspensão do procedimento de saída da UE”. Tudo isto, escrito sobre um  tom de  humor, naturalmente…

Estas previsões que amedrontam poderiam fazer sorrir se não servissem, realmente, um objetivo muito sério: fazer bulir os cidadãos, dissuadir a Inglaterra, e todos os países que virão a seguir, de se  afirmar  como nação em frente das instâncias da União. Porque perdemos tempo com estes dois  jornalistas? Porque estes encarnam, pelo seu trabalho nos seus jornais respectivos,  pelo espantoso desrespeito que mostram  (recordar-nos-emos sempre, por exemplo, deste selfie debochado dirigido aos manifestantes reunidos na Bastilha  aquando do referendo grego no verão 2015), a obsessão da grande máquina burocrática a organizar a sua vidinha sem  conhecimento das nações — essas velharias — e o com o maior desrespeito pelas  populações que  as  compõem.

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Para esta panelinha, a denúncia da estrutura  da União — e, à passagem, da esmagadora dominação ideológica da Alemanha no seu seio — não é nada menos do que um crime de lesa-majestade, que se  deve  sancionar  o mais rapidamente possível. Para isso,  todos os argumentos são bons: incultura congénita, esquerdismo de um outro tempo, criptofascismo, velho rancor germanófobo, e assim sucessivamente.  Recordemos, em 2005, o tratamento que reservaram aos 54,7% de Franceses que votaram  “não” ao tratado que estabelecia  uma constituição europeia…

Não que o povo inglês tenha necessariamente razão em toda a  linha: talvez a história venha a dizer  que a Inglaterra estava mais feliz na União. Of course,  nada também nos  diz  que o caos económico anunciado por todos os  grandes editoriais  (The Guardian, Le Monde, Der Spiegel) virá a ser uma realidade.  Deste ponto de vista, a incerteza é total, e os nossos meios de comunicação social e económicos, verdadeiras sumidades, já  provaram suficientemente a sua nulidade, quando se trata de prever seja o que for, de explicar, veja-se a crise dita de  subprime de 2008 e as suas várias réplicas nas nossas sociedades abertas aos quatro ventos. Desconfiemos pois das suas diatribes,   tipo Nostradamus.

Para dizer a verdade, não se devia estar à espera de uma outra coisa da  parte dos meios de comunicação social às ordens, propriedade  de industriais milionários e de exilados fiscais na sua maior  parte, que devem hoje ser consideradas por aquilo que são: a correia de transmissão de uma União com um comportamento monstruoso, burocrática e vingativa, que se arrogou o direito de vida e de morte sobre cada um dos Estados que a compõem. Os povos não conseguem acertar o passo? Terão que se adaptar.  Os eurocratas, muito compenetrados da grandeza das suas ideias, têm com efeito dificuldade em  admitir que na Europa, as nações existem ainda, e escandalizam-se quando uma de entre elas não quer entrar mais no seu jogo.

Assim a Inglaterra deu  um passo ao lado. Veremos se ela se  tornará,  sob a pressão dos conservadores e dos tubarões da finança, um paraíso fiscal ou uma zona sem direitos sociais, como se ouve agora falar por toda a parte. Reteremos de tudo aquilo que a maioria silenciosa disse o que tinha a dizer e que isso marca como sendo um regresso da democracia sobre o continente. Este “goodbye” dos Britânicos é uma bela  resposta a Jean-Claude Juncker, que declarava calmamente  durante a crise grega que “não pode haver escolhas democráticas contra os tratados europeus”. Ironia da história, esta bravata alucinante foi talvez a primeira pazada de terra lançada sobre o túmulo da Europa de Maastricht e do tratado de Lisboa. O voto a favor do  Brexit é a ocasião de uma recordação histórica: foram as nações democráticas que fundaram a União Europeia, e não o inverso. Que uma de entre elas, e não  uma das  menores, decida sair, é apenas o regresso desta  antiga e bela ideia  segundo a qual os povos têm o direito de dispor deles próprios. Um escarro para as elites desenraizadas e engravatadas de Bruxelas; uma excelente notícia para nós, para toda a gente.

Clément Sirdey, Revista Causeur, Pourquoi le Brexit reste une bonne nouvelle

Posez vos calculatrices, il s’agit d’une affaire de cœur!. Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/brexit-ue-royaume-uni-elites-quatremer-leparmentier-39084.html

 

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