UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (142)

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INCÊNDIOS

Toda a gente sabe porque há tantos incêndios em Portugal.

Portugal será, em termos absolutos, o país com maior área de eucaliptal plantado em toda a Europa e, devido às mais variadas circunstâncias, temos 3,5 vezes mais incêndios do que a média dos países mediterrânicos e 2,5 vezes mais área ardida. As razões (?), estão detectadas e até há leis para prevenir e punir os comportamentos que provoquem o aparecimento dos incêndios. Mas, a Lei não é aplicada, as matas continuam por limpar e não há, na maioria dos lugares, corta-fogos para circulação de bombeiros. Para além disso, há gente que continua a fazer fogueiras e queimadas onde e quando não deve, e há por aí muitos parvalhões que continuam a atirar cigarros acesos para as bermas das estradas através das janelas dos carros. E ainda há pior, há outros energúmenos que continuam a atear fogos, criminosamente, movidos pelas mais variadas motivações.

Ver as notícias televisivas das centenas de fogos que dia-a-dia nos afligem, com aproveitamentos sórdidos da desgraça de muitos dos nossos concidadãos, é triste. Não vi nenhum dos “jornalistas” a tentar ajudar, por pouco que fosse, as pessoas que entrevistavam, antes, a aproveitarem-se da situação para aumentar audiências

Para além da tristeza que é o ver parte do meu país no meio de fogo (algum dele ateado criminalmente durante a noite), ver, em especial, o Funchal a arder magoou-me imenso. Tenho por aquela parte do meu país um carinho muito especial. Não percebi a atitude do Presidente do Governo Regional, que, a meio da tarde de Terça-feira, em conferência de imprensa disse não precisar de ajuda. Não entendo porque é que a Região ainda não tem, à sua disposição um helicóptero polivalente para transporte de doentes e combate a incêndios. Não percebo porque é que as políticas se sobrepõem às reais necessidades de um povo.

No meio de toda esta tragédia, sobressaem os voluntários, de todas as vertentes, desde os populares que se entreajudam, até aos Bombeiros que a troco de quase nada, nos salvam e aos nossos pertences. Mas fazem falta muitos mais. Ser voluntário para ajudar os outros é de uma riqueza inimaginável. E às vezes basta só uma pequena ajuda através de um sorriso, um afago, companhia.

Toda a gente, nestes dias é entendida no assunto, basta ver a corrida de inteligentes às mais diversas televisões a fim de serem entrevistados e de dizerem umas coisas, ocas ou verdades de La Palice, quais salvadores da Pátria.. Mas resoluções de fundo, nada.

Daqui a dois meses, com o Outono à porta, tudo se esquecerá.

E para o ano, já se sabe, há mais.

 

A propósito disto tudo, lembrei-me da Bombeira Josefa e do texto que, faz agora seis anos, escrevi.

Aqui o republico.

Para Estes Não Há Funerais de Estado

18/08/2010 por José Magalhães

Conheci-a num Centro Comercial. Vendeu-me alguns artigos de que eu necessitava e alguns outros que eu não sabia que queria. A sua simpatia era contagiante e o seu sorriso alegrava a alma.

A conversa, essa, veio naturalmente, e ficamos como que amigos. Fiquei a saber que o trabalho era bom e gratificante, que gostava do que fazia e que fazia o que gostava. Só tinha vinte anos mas já trabalhava há perto de quatro. Por incapacidade económica não tinha estudado mais que até ao fim do ensino obrigatório. Talvez que um dia continuasse. Por agora, sentia-se bem assim. Estava a subir na carreira de ‘balconista’, e até já mandava em parte da sua secção. Para além disso, tinha outros interesses que lhe tomavam todo o tempo disponível. Era bombeira voluntária. Andava nas ambulâncias a transportar doentes de e para os hospitais, e também no terreno a apagar os fogos que outros atearam em terrenos que não eram dela. E era assim, porque queria que assim fosse. Sentia-se bem a fazer o bem à comunidade, e como ela, havia mais umas quantas na sua corporação. Não era a única bombeira.

No Sábado anterior, tinha saído do seu trabalho pelas dez da noite, dirigiu-se a casa, pegou na farda e foi para o quartel, de onde seguiu para o Gerês. Foi ajudar a apagar o fogo que já lavra há muitos dias por aquelas bandas. Regressou perto das quatro da manhã e às dez, já estava de novo no seu posto de trabalho, no Centro Comercial, uma vez que o seu horário, rotativo, implicava estar lá à abertura da loja. As dificuldades superam-se quando outros valores mais elevados aparecem, disse-me.

Não lhe perguntei pelas motivações que a levavam a fazer o que faz. Não sei que exemplos familiares, ou de amigos, a levaram a enveredar por aquele caminho. Não lhe perguntei pelo medo que teria muitas vezes de sentir, ao ver-se rodeada de labaredas, ou se valia a pena tanto sacrifício. Falou-me disso e do seu voluntariado como bombeira, com o à vontade e a naturalidade de quem se sente bem consigo mesma, e com orgulho, como se fosse um objectivo de vida.

Lembrei-me da bombeira Josefa, morta enquanto combatia o fogo ateado por fanáticos intolerantes ignorantes e básicos a mando de energúmenos, e do silêncio a que os bombeiros, na sua generalidade são votados. Ninguém lhes reconhece o valor, nem tão pouco o sacrifício individual e anónimo mas esperamos sempre que cumpram a sua “obrigação”. Só nos lembramos deles em alturas de aflição, ou quando são notícias de jornais e televisões pelos piores motivos, quando se aleijam gravemente ou quando morrem durante o combate às chamas. E estes homens e mulheres só lá estão por dedicação social, nunca pelo que recebem ou podem vir a receber em termos económicos. Mesmo assim, para estes, os que morrem, não há funerais de estado, não se dá o seu nome a ruas, não se ouvem discursos laudativos dos políticos, nem há pensões gordurosas e vitalícias para os seus familiares.

Quantos de nós seríamos capazes de dar tanto da nossa vida aos outros, sem reconhecimento que não seja o de sabermos que cumprimos com o que consideramos que é de direito, seja qual for o voluntariado a que nos dediquemos, bombeiros, ajudantes e acompanhantes de doentes, tratamento dos sem abrigo e de tóxico-dependentes, ou quaisquer outros.

A minha nova amiga merece tudo o que de bom lhe possa acontecer na vida. Guarda os seus momentos de lazer num lugarzinho pequeno e arrumado, gastando o seu tempo livre em proveito da comunidade com a simplicidade que só alguns, bons, conseguem.

 

 

 

Entretanto,

a cidade do Porto está cercada pelos fumos dos incêndios!

Isto não pára?

 

 

 

2 Comments

  1. Isto não pára?
    Não, nunca irá parar enquanto tivermos juízes (??) que mandam para casa (com termo de identidade e residência… patético ) bêbados que semeiam fogos com jantes sem pneu.Tão doutos na sua sapiência e tão nefastos na sua existência..
    As ervas daninhas só existem..porque há quem as deixe crescer.

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