REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 17. O QUE É QUE SIGNIFICA BREXIT, SE É QUE SIGNIFICA ALGUMA COISA? – por SATYAJIT DAS

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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política.

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Satyajit Das: O que é que significa Brexit, se é que significa alguma coisa ?

Satyajit Das

Publicado em Naked Capitalism por Yves Smith

Satyajit Das, um antigo banqueiro e autor cujo livro mais recente é “ A Banquet of Consequences’ (publicado na América do Norte como a ‘Idade de estagnação’, para evitar confusões com um livro de receitas)

Satyajit Das, What If anything does brexit really signify?

Naked Capitalism, 28 de Junho de 2016

 

O debate Brexit fez exigências sem precedentes no vocabulário, nos adjetivos e nas hipérboles . A palavra ‘histórica’ está esgotada.

O único fato a salientar é que a maioria dos britânicos votaram pela saída deste país da União Europeia. Tudo o mais é pura conjectura.

Alguns analistas políticos, super-meteorologistas, os interessados nas sondagens, os estabelecimentos de apostas e os mercados financeiros anteciparam o resultado. Destemidas, as mesmas pessoas estão agora a delinearem as consequências e os resultados prováveis. Embora uma leitura mais nos indique que o consenso banal é ‘incerteza’. A familiaridade com quatro palavras – “I do not know”- “não sei” – é coisa que infelizmente está por aqui a faltar.

Talvez o comentário mais interessante depois da votação foi o humor picante e incómodo de um especulador: “Brexit poderia ser seguido por Grexit, Departugal, Italeave, Czechout, Oustria, Finish, Slovakout, Latervia e Byegium. Parece que só Remania vai ficar”.

Satyajit - I

Quando se sentarem para nos informarem do veredicto final sobre o dia 23 de junho de 2016, os futuros historiadores vão refletir sobre várias questões.

Primeiro, o fato de que o referendo tenha sido feito irá causar frustração. O dirigente conservador David Cameron comprometeu-se a realizar o referendo para aplacar os grupos anti-UE do seu próprio partido e bloquear um desafio já então sentido do partido da independência do Reino Unido UKIP. Dada a sua frequente menção sobre os riscos de Brexit, a ideia de querer o referendo continua a ser, primeiro que tudo, altamente intrigante.

David Cameron, que fez muito para tornar os Tories elegíveis e ganhou uma vitória famosa, foi embora, deixando para trás um partido conservador dividido. O Partido Trabalhista também está dolorosamente atingido e pode mesmo vir a ter um novo líder. O seu apoio à campanha do Remain, permanecer na UE, colocou-o em desacordo com os seus círculos eleitorais mais importantes. O episódio deixou para trás um país dividido, que será difícil unir ou mesmo manter em conjunto.

Em segundo lugar, o debate pouco edificante merecerá uma análise cuidadosa. O tom era estridente, faltando-lhe mesmo civismo. A morte de uma deputada trabalhista foi um sintoma da atmosfera febril criada.

A participação de respeitados analistas, comentadores e funcionários públicos supostamente independentes não trouxe nenhum crédito à campanha. Os fatos são que as pessoas molharam-se ao embarcarem na campanha apoiando posições partidárias. Um futuro de condenação económica fora da UE e um reviver do Império sem império são atitudes igualmente ilusórias. Um debate sobre a política de imigração não é automaticamente racista em si-mesmo. .

Plenipotenciários estrangeiros, incluindo o Presidente dos EUA, tentaram pesar na votação com conselhos sobre como os britânicos devem votar. Um governo europeu pagou mesmo anúncios de jornal, buscando influenciar a votação. Haverá especulação sobre os efeitos destas intervenções sem precedentes sobre o resultado.

Em terceiro lugar, a surpresa no resultado entre aqueles que votaram pela permanência será analisada. A ignorância deliberada do fluente, educado e cosmopolita sobre como estava dividida e polarizada a sociedade britânica é de espantar. A estrutura da votação espelhou divisões ao longo das linhas de classe, da posição econó mica, educação, idade, residência e da etnia.

 O debate foi sempre entre a economia e a soberania (sob o disfarce da imigração e do controlo de fronteiras). As posições exageradas quanto aos prejuízos económicos, baseados em modelos macroeconómicos que falharam repetidamente nos últimos anos, para gerarem o medo foram rejeitadas. Curiosamente, algumas regiões do Reino Unido dependentes de exportações para a UE votaram massivamente pelo Brexit, pela saída da UE.

Para os menos favorecidos, os frutos do crescimento, do investimento e do comércio internacional permanecem inatingíveis. As ameaças, sentidas apenas ou reais, em termos de empregos e da incerteza quanto à nacionalidade são poderosas. Os inconvenientes da linha da EU relativamente à imigração de pessoas não pertencentes à UE, a liberdade de movimento ou a capacidade de possuir uma casa para férias não abrange aqueles que não têm essas oportunidades. Como um eleitor disse ao Guardian com impressionante simplicidade: “Se tem dinheiro, vai votar in … se não tem dinheiro, então vai votar out “.

Em quarto lugar, a importância da decisão final sobre as principais crenças serão rapidamente estudadas.

O fracasso dos argumentos económicos para influenciar o voto pode significar o fim do racionalismo económico que começou com Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Pode ser que a votação contra a UE tenha sido em parte um voto de protesto contra as mudanças de longo prazo na estrutura económica da economia do Reino Unido que tem destruído muitas vidas de trabalhadores e da classe média.

Na medida em que a decisão representa um recuo em termos de nacionalismo económico e das fronteiras fechadas, isto pode realçar o apelo à diminuição da importância da globalização. A livre circulação de bens e serviços, a redução das barreiras comerciais e o trabalho estrangeiro mais barato não beneficiou toda gente. A observação do político conservador americano Pat Buchanan em Pittsburgh Post Gazette em 3 de janeiro de 1994 permanece desconfortavelmente exata: “…. são os americanos de colarinho azul, que perdem os seus empregos quando caem as barreiras ao comércio, são as crianças de classe trabalhadora que sangram e morrem em Mogadíscio… os melhores e mais brilhantes tendem a escapar às piores consequências das políticas que eles promovem… Isto pode explicar… porque é que as sondagens nacionais mostram repetidamente que os melhores e mais ricos americanos são os mais ardentes internacionalistas em termos da segurança e das questões económicas… “

O crescente ceticismo sobre peritos e conselhos de especialistas, também pode ser um dos efeitos. Igualmente não foram considerados os pontos de vista do governador do banco da Inglaterra e do Arcebispo de Canterbury.

Num momento crucial da campanha, desafiados a nomear um único perito que pensasse que o Brexit beneficiaria economicamente a Grã-Bretanha, a resposta desafiante do Secretário de Justiça Michael Gove foi de que: “Acho que as pessoas neste país estão fartas de especialistas”. Atacado por ser considerado um anti-intelectual, a posição de Gove sublinhava o fato de que especialistas, supra convencidos e arrogantes, em especial, sobre as questões económicas, têm sido frequentemente incorretos ou até mesmo desastrosos.

A realidade é que os especialistas já não dizem grande coisa às pessoas comuns. A ortodoxia política, tal como a livre-troca, a desindustrialização e, na sequência da crise de 2008, a austeridade e a política monetária não convencional, não beneficiaram grande parte da população. A apetência das pessoas comuns pelo sacrifício em troca de benefícios futuros quantificáveis prometidos por especialistas tem diminuído fortemente. A atração gravitacional, central no conservadorismo de Margaret Thatcher e de Reagan, desvaneceu-se quando a economia do trickle-down começou a trair muita gente.

Em quinto lugar, a obsessão pelos efeitos de mercado financeiro, na sequência da decisão irá confundir a posteridade. Os mercados complacentemente assumiram que a Grã-Bretanha continuaria a ser membro da UE e sustentavam essa posição com o dinheiro de outras pessoas. Não há nenhuma garantia de que seus pontos de vista altamente mutáveis sejam confiáveis. Atribuir um resultado de 45% aos defensores da saída da Grã-Bretanha da UE num resultado que era sempre binário não deixa de ser curioso. O pânico dos donos do universo ao menor sinal de incerteza não confirma as suas pretensões em termos de perspicácia, de superioridade e da compreensão dos riscos.

Os efeitos imediatos sobre ps mercados cambiais e as taxas de juros foram significativas. Mas vai levar tempo para ver se há grandes perdas como resultado das apostas altamente alavancadas habituais ou ainda para se saber quais são os efeitos de mais longo prazo. Os efeitos da economia real e no plano político vão levar tempo a aparecer e são altamente dependentes de eventos ainda não conhecidos.

A decisão de rebaixar o rating de crédito do Reino Unido para um ‘ ainda muito forte ‘AA’ foi curiosa. A capacidade do Reino Unido em cumprir as suas obrigações não mudaram em nada. Nunca fez parte da moeda única e tem a capacidade de criar libras esterlinas para cumprir com as suas obrigações. Com taxas de juro perto de zero, o efeito de qualquer mudança na avaliação é provável mínimo.

Em sexto lugar, a história irá mostrar se a votação foi simplesmente um motim na Britannia de Sua Majestade ou se vai ter influência sobre a forma do mundo moderno, sobre a estrutura da sociedade e sobre os valores cuja ressonância venha a influenciar as mudanças noutros países. Se isto se mostra correto, então o evento provará ser verdadeiramente significativo.

A campanha promovida pelos Leave pode ter ganho a votação, mas há uma confusão sobre a redefinição das relações do Reino Unido com a UE. A manutenção do Reino Unido com um acesso especial aos mercados europeus exigiria ter de aceitar muitas políticas rejeitadas pela maioria daqueles que votaram. A decisão por Boris Johnson, um antigo aluno de Eton como David Cameron e de similares tendências de fundo, em apoiar o Brexit mostrou um cálculo implacável e uma sensibilidade política bem precisa. A sua posição refletiu as suas aspirações para a liderança, não a solidariedade para com os eleitores do Leave ou nem com uma pretensão de mudanças fundamentais de política. Num editorial depois da votação, Boris  Johnson falou em post Brexit Bre-gret ou Bre-morse e sugeriu que as mudanças globais na relação entre o Reino Unido e a União Europeia eram agora desnecessárias.

As perspetivas de uma reforma significativa no seio da UE também parecem remotas. O Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, falando para um número de países da Europa oriental, admitiu que as visões utópicas da UE não são partilhadas por pessoas comuns. Mas outros dirigentes, especialmente na Comissão Europeia não reconhecem o problema sequer. O Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier prometeu que “não vamos deixar que ninguém nos tire a Europa.” Uma infeliz indefinição linguística (sobre o “nós”; se era referido à Alemanha se à UE) pôs em evidência um problema central, um problema não resolvido.

A UE está a jogar à defesa, pintando a Grã-Bretanha como um relutante Europeu e pretende puni-la para dissuadir outras nações de ações semelhantes. De uma forma agressiva, o Presidente da Comissão da UE Jean-Claude Juncker resumidamente reflete esta visão: ” Não é um divórcio amigável, mas de todo modo não era um caso de amor “.

Uma posição que podemos apelidar de intelectual é apresentada como dissonância cognitiva por Kenneth Rogoff, Professor de economia e políticas públicas da Universidade de Harvard, que viu a situação como um caso de “Roleta russa para Repúblicas”. Ele queixou-se que o sistema de maioria simples daqueles que votaram (36% dos eleitores votaram Leave) era um valor absurdamente baixo. O professor Rogoff argumentou que uma decisão tão importante não deveria ser tomada sem se assegurar dos controlos adequados. Num editorial para o Business Insider, o americano Josh Barro classifica a decisão como uma “birra”. Os eleitores britânicos tinham feito “uma má escolha”. Foi um “erro de democracia direta”. Tais decisões importantes não devem ser decididas pelos eleitores mas sim deixados nas mãos das autoridades eleitas e informadas.

Em essência, para aqueles que acreditam que eles nascem para governar, Brexit assinala a necessidade de limitar a democracia para garantir que decisões importantes sejam deixadas para os peritos. O Presidente do Parlamento Europeu Martin Schultz foi relativamente bem claro: “Não é a multidão que pode decidir do destino da filosofia da União Europeia “.

A História bem pode registar que pouco mudou como resultado do Brexit, depois do longo e torturado processo de negociação quanto aos termos da saída e aos acordos comerciais e outros temas com a UE. Aqueles que ficam encarregados das negociações e as suas respetivas comitivas continuarão, como o blogueiro britânico John Ward escreveu em 2015, a ignorar o indivíduo, a soberania do Estado, as montanhas de dívidas, as realidades de moeda, a pobreza, as suas responsabilidades e toda e qualquer restrição de ordem legal e constitucional ao seu poder.

Se a profunda base económica e as divisões sociais dentro da Grã-Bretanha ou noutras sociedades não podem ser tratadas pacificamente e através dos processos existentes, o risco é que isso venha a desencadear a fúria do nacionalismo e do isolacionismo com resultados que podem ser totalmente imprevisíveis.

Satyajit Das, Naked Capitalism: What If Anything Does Brexit Really Signify? Ler o original em:

http://www.nakedcapitalism.com/2016/06/satyajit-das-what-if-anything-does-brexit-really-signify.html

 

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