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E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O cadáver da União Europeia – O fim de uma ilusão, o início de uma outra?
Jacques Sapir, Le cadavre de l’UE
Russeurope, 5 de Julho de 2016

O Brexit obriga os diversos dirigentes dos países da União Europeia a uma tomada de consciência da crise que esta última está a sofrer. Verifica-se que são os dirigentes franceses que têm mais dificuldade em integrar esta nova realidade e em fazer-lhe frente. A saída do mundo das ilusões parece particularmente penosa, quer seja para François Hollande ou para Manuel Valls.
No entanto, este regresso à realidade impõe-se porque a questão hoje posta já não é a de uma “reforma” da UE mas a da sua transformação radical, acionando a partir daí o fim do projeto federalista. É neste sentido que se insere o Apelo assinada por vinte intelectuais, entre os quais eu próprio (1). A necessidade de manter entre os países europeus – todos os países europeus –estruturas que permitam formas adaptadas de cooperação, é evidente. Mas as instituições da UE já não estão em condições de assegurar esta função. Neste sentido, a UE morreu.
Esta morte da UE implica que se tome consciência das realidades. Ora, algumas de entre elas são particularmente incómodas para um cérebro que está cheio da propaganda europeísta, como é o caso para uma larga parte da nossa classe política.
1) “O casal” franco-alemão morreu. Esta morte é antiga e convém aqui dizer que este “casal” não funcionou nunca como o terá pretendido a imagem complacentemente difundida em França. Este casal entrou em agonia logo que a Alemanha procedeu à sua reunificação. As tentativas para o manter chocaram-se com esta realidade de que uma Alemanha, quanto a ela, recuperando a sua soberania já não tinha necessidade de uma aliança específica com a França. É verdade que as hesitações, as posições que se contradizem umas às outras, os dirigentes franceses, de Nicolas Sarkozy à François Hollande, acabaram por dá-la como acabada. Por causa de não terem tido a coragem de falar firmemente com a Alemanha e de a colocar face às suas responsabilidades, devemos hoje enfrentar uma crise bem pior do que se, em 2010 ou em 2011, tivéssemos posto os dirigentes alemães em frente às suas responsabilidades e tivéssemos dissolvido a zona Euro.
2) As divergências entre Alemães e Franceses quanto ao futuro da UE são irreconciliáveis. A Alemanha não vê outros interesses numa UE reforçada que não seja o controlo que poderá indiretamente exercer sobre as escolhas orçamentais dos países vizinhos. Não quer sob nenhum pretexto comprometer-se na via de mais solidariedade. A França, ou mais exatamente os dirigentes franceses, quer se trate de François Hollande ou Alain Juppé, continuam a fazer crer que uma UE reforçada é possível enquanto que não temos nenhum meio para impor à Alemanha as transferências orçamentais que uma UE reforçada exigiria. Excepto, naturalmente, enviar uma brigada blindada para ocupar Berlim… A única forma de UE reforçada admissível para os líderes alemães é a da extensão da política austeritária. Se não, eles enfiar-se-ão numa Europa dos Estados que lhes convirá doravante extremamente bem (2). A viragem de Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, não foi realmente compreendida, nem mesmo percebida (3). O seu apoio à Europa das Nações mostra uma mudança significativa na posição oficial da Alemanha.
3) Estas divergências foram reveladas cruamente com o Brexit e pela questão da atitude a adotar no que diz respeito à Grã-Bretanha. Se o governo francês defender “um divórcio” rápido, choca-se contra o governo alemão que, tanto por pragmatismo económico como por simpatia política com os conservadores britânicos, entende, de acordo com a fórmula, dever “dar tempo ao tempo”.
4) O estado estrutural incompleto da zona euro e da União Económica e Monetária atingiu actualmente o seu ponto crítico. O aumento das más dívidas no balanço dos bancos italianos e portugueses, a crise fiscal que se anuncia na Grécia para o fim do verão são claramente sintomas de uma crise profunda.

Poids des mauvaises dettes dans les bilans
Nesta situação, é evidente que quanto mais tempo se permanecer na incerteza mais pesado será o preço a pagar.
Esta crise da UE conduz a uma situação onde há apenas más soluções para o conjunto dos países. No braço de ferro subtilmente travado pelo governo conservador britânico com a UE, ou uma posição firme é adotada e a Grã-Bretanha poderá recorrer às diversas medidas de dumping fiscal para fazer de modo que esta “firmeza” seja paga e de forma muito cara pela UE, ou um compromisso razoável é encontrado e dá-se conta imediatamente que se pode sair da UE sem se estar a ter nenhuma catástrofe. Para já, e de imediato, quer seja nos Países Baixos, na República Checa e até mesmo na Itália, é já visível o crescer de importância política da oposição à UE. Portanto, a União Europeia é apanhada entre dois fogos: ou procura minimizar o custo do Brexit e coloca-se na mão dos seus oponentes, ou procura “fazer pagar” a Grã-Bretanha, como o disseram muito imprudente e muito estupidamente certos jornalistas, mas então entra-se numa situação onde as medidas de retorsões britânicas lhe custarão caro, o que dará mais outros argumentos aos adversários da UE.
A única solução inteligente consiste em publicar o falecimento da UE e, como já o escrevemos, organizar uma conferência entre os países que quererão nela participar para elaborar um novo tratado, substituindo completamente os tratados precedentes, e mesmo num certo sentido até o tratado de Maastricht, e pondo em seu lugar uma comunidade das Nações. Tal era o sentido desta iniciativa de intelectuais. Naturalmente, não se pode estar a ter ilusões sobre este Apelo. Mas, é necessário saber que um novo sistema de relações será em todo caso um elemento indispensável para os países europeus.
A União europeia morreu. Temos a escolha de viver com o seu cadáver, e as suas pestilências, com todos os riscos que uma tal política comporta, ou temos a escolha de a enterrar. Mas, para isso, é necessário um novo tratado, não um tratado cópia disfarçada do anterior, mas um tratado refazendo profundamente uma comunidade em vez de uma União. Tal era, e é sempre, o sentido do Apelo assinado. Nós não estaremos na verdade desembaraçados desta UE senão quando o seu sucessor estiver já no seu lugar. Mas, para nos pormos realmente a trabalhar, é claro que necessitaremos de uma outra classe política bem diferente daquela que fazendo parte da maioria no poder ou da oposição, existe hoje na França.
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- http://www.lefigaro.fr/vox/monde/2016/06/30/31002-20160630ARTFIG00290-brexit-vingt-intellectuels-eurocritiques-lancent-un-appel-pour-un-nouveau-traite.php↩
- http://www.spiegel.de/international/europe/brexit-triggers-eu-power-struggle-between-merkel-and-juncker-a-1100852.html↩
- http://www.irishtimes.com/opinion/derek-scally-germany-signals-rethink-on-europe-post-brexit-1.2710212↩
