
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Algumas questões sobre os défices orçamentais. Parte 1. O Défice público.
Bill Mitchell, Deficit Spending
Billy Blog, 21 de Fevereiro de 2009
Muitas pessoas me pediram por email para explicar porque é que não nos devemos preocupar com os défices e porque é que estes não têm de ser financiados através da dívida (mesmo que os governos normalmente aumentem a sua dívida quando entram em défice). Neste sentido, nas próximas semanas irei escrever alguns textos para explicar essas coisas complicadas. Primeiro, vou explicar como é ocorrem os défices e como é que estes atuam sobre a economia. Em particular, temos de nos desiludir quanto à ideia de que quando se cria um défice público pela despesa, o governo passa automaticamente por pedir emprestado e aí exerce pressão sobre os mercados de dinheiro (onde têm limitados os fundos disponíveis para empréstimos) e daí que se faça subir as taxas de juro e se pressione à baixa os investimentos privados, gastando o que é produtivo. Esta cadeia de argumentos é absurda e é facilmente eliminável. Num outro texto irei analisar o motivo que leva o Banco Central a emitir obrigações (dívida pública).
Podemos utilizar o diagrama seguinte para melhor se perceber a argumentação. Eu sugiro mesmo que o imprima e o tenha ao seu lado ao ler o texto.

Défíces orçamentais ou excedentes ocorrem numa economia monetária moderna. Uma economia monetária moderna como a Austrália e quase todos as principais economias tem quatro características essenciais:
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Uma taxa de câmbio flexível que liberta a política monetária da necessidade de defender a moeda estrangeira;
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As economias monetárias modernas usam dinheiro como unidade de conta para pagar os bens e serviços. Uma noção importante é que o dinheiro é uma moeda fiduciária, ou seja, é convertível só em si mesma e não é legalmente convertível pelo governo em ouro como era , por exemplo, sob o padrão-ouro.
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Um governo soberano tem em exclusivo o direito legal de emitir uma moeda fiduciária própria, que ele também exige quando do pagamento de impostos – deste modo tem o monopólio da produção desta sua moeda fiduciária.
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A viabilidade da moeda fiduciária é assegurada pelo fato de que é a única unidade que é aceitável para o pagamento de impostos e outras exigências financeiras do governo.
