
Partido Socialista Português – um novo PASOK?
por António Gomes Marques
Há duas questões que amigos meus me vêm colocando há já anos e que têm a ver com José Sócrates e com a minha permanência como militante do PS.
À primeira respondo que já disse e escrevi, neste mesmo blogue, o que tinha a dizer sobre o caso José Sócrates, aguardando pacientemente o que a Justiça vier a decidir, condenação ou absolvição, confessando, no entanto, que com a Justiça portuguesa se exige paciência de santo, o que não sou, e cuja demora na resolução dos processos muito tem contribuído para a diminuição do investimento estrangeiro em Portugal.
À segunda questão fui respondendo que não havia alternativa, que havia acordado com outros camaradas e amigos que, a sair, o faríamos em conjunto, o que ainda não se proporcionou; agora, perante a solução encontrada por António Costa, já me encontro mais isolado, pensando que o Secretário-Geral deve ser apoiado, apesar de não me esquecer do que ele fez aquando da primeira eleição de Marcos Perestrello para a FAUL, relatado em texto que publiquei também neste blogue. Quer isto dizer que considero termos um governo de esquerda? De maneira nenhuma, quero apenas dizer que temos um governo bem melhor do que o anterior e, provavelmente, o melhor governo do pós-25 de Abril, a partir dos governos Cavaco Silva. Se estiver enganado, tomarei outra posição, dando a mão à palmatória.
No texto que intitulei «O Caso José Sócrates», escrevi, depois de tentar mostrar a sua desastrosa gestão como 1.º Ministro:
«Não pretendo alongar-me mais neste texto, o que escrevi tenta mostrar o perfil que julgo ser o de JS, que nunca foi um socialista, e que justifica que eu, numa reunião de militantes do PS, membros da corrente de opinião Esquerda Socialista (COES), criada no interior do partido de acordo com os seus estatutos, declarasse que, caso JS encabeçasse a lista concorrente às eleições legislativas que ele acabaria por perder, não votaria no Partido Socialista. E não votei!
É esta a minha condenação de José Sócrates. À política o que é da política, à Justiça o que é da Justiça, dizem responsáveis do PS, afirmação que aceito, mas com que não concordo. Haja esperança de que um dia eu possa dizer que, por fim, a Justiça funciona como deve em Portugal, mas não é com a prisão preventiva de JS que me atrevo já a tal afirmação.»
Julgava eu nunca mais ter de escrever algo relacionado com José Sócrates, se não o pior 1.º Ministro que Portugal teve no pós-25 de Abril, seguramente foi um dos que mais prejuízos causou ao país, no que é bem acompanhado por Cavaco Silva e Durão Barroso; no entanto, o recente convite para protagonizar uma palestra na Universidade de Verão da JS de Lisboa e do Departamento Federativo das Mulheres Socialistas, o que aconteceu a 23 de Setembro, obriga-me a voltar à carga, facto este agravado com a homenagem que alguns socialistas e amigos lhe prestaram no dia seguinte. Este segundo facto é menos importante, mas não deixa de nos permitir especular com alguns favores que tais militantes e amigos lhe deverão, o que será apenas um problema deles se não vier a provar-se que alguns prejuízos resultaram para o país. O primeiro caso é mais grave, não só por trazer dificuldades no interior do partido ao seu Secretário-Geral, talvez um dos objectivos de José Sócrates, e por poder constituir um sinal da degradação do Partido Socialista, que, com tais militantes e acções, poderá vir a tornar-se num novo PASOK.
Lembremos um pouco o que foi o percurso deste partido socialista grego.
Andréas Papandreu, um dos adversários activos da ditadura militar que dominava a Grécia, após a queda desta, anunciou a fundação do Movimento Socialista Pan-Helénico (PASOK), no dia 3 de Setembro de 1974, dizendo que o Movimento visava promover na Grécia a independência nacional, a soberania do povo, a emancipação social e o processo democrático.
O novo partido submeteu-se às urnas, pela primeira vez, nas eleições legislativas de Novembro de 1974, onde conseguiu eleger 15 deputados, correspondentes a 13,5% dos votos, e, nas eleições de 1977, duplicou a percentagem e obteve 92 lugares, o que lhe deu o estatuto de oposição ao governo.
Em Outubro de 1981 foi o grande êxito: 48% do eleitorado votante e 173 deputados, ou seja, a maioria parlamentar, com Andréas Papandreu como 1.º Ministro do primeiro governo socialista da Grécia; em Junho de 1985, com Andréas Papandreu confirmado como Presidente do PASOK no ano anterior, venceria de novo as eleições, agora com 45% dos votos e 161 deputados, formando mais uma vez um governo autónomo.
No período que vai de 1984 a 1993, contando já com os apoios dos Programas Mediterrâneos e do 1.º Quadro Comunitário de Apoio, a Grécia viu melhoradas as suas infra-estruturas, assim desenvolvendo a economia e, consequentemente, melhorando o nível de vida também nas zonas periféricas e nas áreas rurais. A melhoria dos transportes e a construção de pequenos hotéis em várias regiões do país também contribuíram para o aumento das receitas, nomeadamente, as do turismo. Este é o lado simpático do que na Grécia se foi passando.
Mas há também um lado menos simpático, bem negro na história deste país, como os factos que vieram a lume o demonstram, a começar com a manipulação dos números pelo Goldman Sachs, que permitiram à Grécia a entrada sem problemas na UE, até à já habitual –com que tristeza o afirmo- corrupção de políticos, membros do governo ou não, onde nem sequer faltaram os submarinos alemães, logo quatro, e os corruptores germânicos. Pelo menos, na Grécia houve condenações; em Portugal, … a Justiça continuará a investigar até que, provavelmente, os prazos caduquem.
Os problemas do PASOK começariam em 1989, sendo envolvido no chamado escândalo Koskotás, agravados com os problemas cardíacos do seu Presidente e 1.º Ministro, perdendo as eleições.
Koskotás era Presidente do Olympiacos e do Banco de Creta, vindo a ser acusado de um desfalque de cerca de 608 milhões de dracmas, montante que terá sido utilizado para a compra de atletas, mas aqui o que nos interessa referir é que o PASOK e o seu Presidente se viram envolvidos no escândalo, mas Andréas Papandreu viria a ser completamente ilibado, o que não deixou de afectar o partido nas eleições, e a doença já referida de A. Papandreu também deve ter contribuído para o resultado eleitoral. E assim voltou o PASOK a ser a oposição oficial, com 39,1% dos votos e 125 deputados, ou seja, menos 26 deputados do que o necessário para ter a maioria absoluta (metade + 1).
Com o Tribunal Especial a declarar Andréa Papandreu inocente, em Outubro de 1993 voltou à vitória eleitoral, obtendo 46,9% dos votos e 170 deputados.
Passados 2 anos, o PASOK entrou em crise por conflitos internos, tendo como consequência a saída de personalidades importantes do partido, nomeadamente um membro do Comité Central, Dimítris Tsovólas, vindo a estar na origem da fundação do Movimento Democrático Social, seguindo-se uma nova crise cardíaca de Andréas Papandreu, que obrigou ao seu internamento e à renúncia do cargo de 1.º Ministro em Janeiro de 1996, levando o grupo parlamentar do PASOK a escolher Konstantinos Simítis para ocupar o cargo de 1.º Ministro. Em Junho de 1996 faleceu A. Papandreu e foi eleito Presidente do partido o então 1.º Ministro.
O novo Presidente do PASOK ganhou as eleições de Setembro de 1996 (41,5% dos votos e 162 deputados) e as seguintes, em Abril de 2000 (43,8%/158). Mas em Fevereiro de 2004 seria K. Simítis a renunciar à presidência do partido, sucedendo-lhe o filho de Andréas, Geórgios Papandreu.
Em 2004 e 2007 o PASOK ficou em 2.º lugar com uma votação de grande partido, 40,5% e 38,1%, respectivamente, para voltar à vitória em 2009, com 43,9% e a maioria absoluta, com 160 deputados.
A partir de Maio de 2012, começa a derrocada, obtendo nestas eleições 13,2% dos votos e elegendo 41 deputados, ou seja, passou de 1.ª força a 3.ª força política, ganhando as eleições a Nova Democracia e aparecendo o SYRIZA como a 2.ª força política, dispondo-se o PASOK a manter-se no governo numa coligação com a Nova Democracia, já sob as orientações de Bruxelas e da «troika» (UE, BCE e FMI), com assinatura de um memorando com as conhecidas políticas de austeridade que deveriam seguir, projecto este que não chegou à materialização e obrigou a novas eleições, nas quais o PASOK caiu para 33 deputados, correspondentes a 12,3% dos votos, mas desta vez, com a Nova Democracia em grande ascensão, acabou por entrar no governo de coligação para tentarem «salvar» o país com as regras impostas pela «troika», seguindo sempre as mesmas políticas de austeridade com os resultados conhecidos e que os portugueses também sentiram e continuam a sentir na pele, com a particular preocupação de promover cortes no gasto público, com incidência nas despesas sociais (como, a título de exemplo, a privatização dos serviços públicos), e redução dos salários, mas com um único objectivo, há muito traçado: acabar com a Europa social e construir a Europa liberal, como Mário Draghi afirmou sem papas na língua, em entrevista ao «Wall Street Journal», em 24 de Fevereiro de 2012, afirmando que a Europa social está a desaparecer, apresentando o caso da Espanha como exemplo, como poderia apresentar Portugal ou a Grécia. Quem tiver dúvidas, deve consultar o estudo da Cáritas, intitulado «A crise europeia e o seu custo humano», onde é analisada a situação social de Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha e Itália. Também convém atentar no que informa a Organização Internacional do Trabalho, responsabilizando as políticas de austeridade pelo aumento do desemprego na Europa, atingindo 116 milhões de pessoas só na UE, uma taxa de 24%. Esta mesma organização também responsabiliza estas mesmas políticas pelo facto de, em 2013, existirem mais 800.000 crianças em situação de pobreza do que cinco anos antes, sendo de referir outros acontecimentos trágicos, como o progressivo aumento de suicídios, que só na Grécia, num dos anos de grande austeridade, tiveram um aumento de 40%. As organizações financeiras e também económicas que dominam o Mundo não descuram quaisquer pormenores, como se comprova pelo ensino da disciplina de economia nas Universidades de quase todos os países, onde os alunos são formados na economia liberal, como se de rigoroso conhecimento científico se tratasse, como se não houvesse alternativa na análise da realidade económica. O fracasso da política liberal não leva à mudança no ensino da disciplina, o que já deu origem a protestos de estudantes de economia nos EUA e na Europa.
Voltemos à Grécia e ao PASOK. Nas novas eleições de Janeiro de 2015, o chamado Movimento Socialista Pan-Helénico continuou em queda acentuada, elegendo apenas 13 deputados e a caminho da irrelevância, segundo as sondagens, sendo hoje o SYRIZA o maior partido da esquerda grega, mas a formar governo com uma força da direita que defende valores absolutamente contrários. O que pode a vontade/ambição de manter o poder!
Foi longa esta passagem rápida pela história do PASOK, mas interessa-nos chamar a atenção dos portugueses e, em particular, dos militantes socialistas para o que pode vir a acontecer ao Partido Socialista Português.
José Sócrates continua a tentar convencer os portugueses da sua inocência e, até prova em contrário, temos de lhe dar o benefício da dúvida. Nas suas últimas aparições nas televisões, vimos um homem assustado, não aquele «animal feroz» que se apresentava aos portugueses quando detinha o poder. Será que José Sócrates está convencido, assim como os seus amigos –ou deverei escrever «amigos»?-, que, mesmo que saia ilibado, poderá vir a ser de novo 1.º Ministro ou Presidente da República? Sente-se, isso sim, um desejo de vingança –António Costa que se cuide!- que nunca o poderá levar a bom porto e muito menos à conquista do poder. Os portugueses jamais lhe darão uma vitória eleitoral, é esta a minha convicção, mesmo que dos crimes de que é acusado venha a ser ilibado, o que parece provável com a incapacidade que a Justiça parece cada vez mais demonstrar para provar o contrário.
O prejuízo que já causou ao Partido Socialista, não só com a desastrosa governação que imprimiu ao país, no que é acompanhado por vários 1.ºs Ministros, a começar em Cavaco Silva, uma verdadeira gestão danosa que a lei deveria punir e que a Justiça não teria dificuldade em provar, como também com os comportamentos que vem assumindo envolvendo nisso o partido de que em tempos foi Secretário-Geral, que apenas contribuirão para dificultar a vida ao PS e ao seu Secretário-Geral, contribuindo para transformar o partido num novo PASOK e, muito pior do que isso, para trazer grande prejuízo ao país e aos portugueses.
Tudo o que atrás escrevo contribuirá para me manter como militante do PS, o que será um voto seguro contra José Sócrates.
Portela (de Sacavém), 2016-09-27
Leituras recomendadas:
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Navarro, Vicenç, «Ataque a la democracia y al bienestar», Editorial Anagrama, S. A., Colección Argumentos, Barcelona, 2015;
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_Socialista_Pan-hel%C3%A9nico
