

Algumas questões sobre a sustentabilidade da dívida – Parte 2

Bill Mitchell – Fiscal sustainability 101 – Part 2
Billy Blog, 16 de Junho de 2009
Esta é a parte 2 da minha pequena mini-série sobre o que poderíamos conceber como sendo a sustentabilidade orçamental. Na Parte 1, considerámos o debate em curso no National Journal, que é um site americano onde especialistas são convidados a debater um tema ao longo de um período de dias. Ao opormo-nos às diferentes perspectivas que foram apresentadas na discussão, podemos facilmente ver de onde é que o público recebe as suas ideias mal concebidas, ou seja a partir dos trabalhos sobre défices públicos e sobre a dinâmica do sistema monetário – dos seus líderes. O meu objetivo nesta série de 3 partes é o de querer avançar ainda mais na compreensão de como é que um sistema monetário de moeda fiduciária opera para que os leitores deste blog possam, então, tornar-se os dirigentes de pleno direito e permitir uma melhor formação sobre estes conceitos cruciais. Então continue a ler para a parte 2.
Lembrem-se que ontem o Presidente do Federal Reserve Ben Bernanke definiu a sustentabilidade orçamental como :…
como sendo o alcançar-se um rácio estável da dívida pública e dos juros da dívida relativamente ao produto interno bruto e definindo as taxas de tributação em níveis que não impeçam o crescimento económico.
Em toda a parte 1 desta série fomos dando umas dicas sobre o que pode ou não pode ser incluído numa definição sensata de sustentabilidade orçamental – o que é baseado numa compreensão abrangente da forma como o sistema monetário assente em moeda fiduciária funciona. . Aqui está a lista de sugestões desenvolvidas até agora na parte 1:
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Dizer que um governo pode sempre creditar contas bancárias e aumentar as reservas bancárias e cada vez que o faça, tal facto não significa que deveríamos gastar sem levar em conta o que é que se pretende obter com esse aumento de despesa
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Avançando com a finalidade pública é uma outra componente do que a “sustentabilidade fiscal” significa. Não se pode defini-la nos seus próprios termos contabilísticos – uma qualquer medida da dívida relativamente ao PIB qualquer que ele seja.
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Não vamos encontrar uma definição de “sustentabilidade orçamental ” concebida para nenhum nível do rácio dívida pública/PIB
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A sustentabilidade orçamental está diretamente relacionada com a extensão a que os recursos do trabalho são tomados em conta na economia. O objetivo é gerar o pleno emprego.
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O conceito de sustentabilidade orçamental não é definido em termos de uma qualquer noção de solvabilidade pública. Um governo soberano é sempre solvável (a menos que ele escolha por razões políticas, não o poder ser!).
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O conceito de sustentabilidade orçamental não incluirá qualquer noção de limite de “financiamento” estrangeiro ou de preocupações estrangeiras sobre a solvabilidade do governo soberano.
Então voltemos às contribuições para o debate do National Journal para ver se podemos desenvolver mais alguns princípios que nos irão ajudar a definir a sustentabilidade orçamental.
O comentador seguinte considerado especialista (não!) é Grover Norquist, referido como o Presidente de Americans For Tax Reform, que é um organismo criado a pedido de Ronald Reagon e que defende um governo pequeno e uma baixa tributação. Diz-nos ele:
A sustentabilidade orçamental significa que nos movimentamos de um sistema de pensões por repartição, de um sistema de benefícios definidas, de um sistema de financiamento à Ponzi, da Segurança Social e de Medicare para um sistema de pensões e de saúde totalmente financiados caracterizado por contribuições definidas . Este não é apenas um problema de financiamento do governo. As empresas privadas que têm regimes de pensões de reforma assentes no sistema de benefício definidos encontraram-se em situação nada competitiva quando comparados com sistemas de pensões de reforma de contribuições definidas.
Note-se que as famílias (entidades do setor privado) são vistas em analogia novamente com a entidade governo . Falhado na sua estrutura ou seja na sua essência mas tem sido continuamente defendido pelos defensores da lógica do padrão-ouro. . Deviam fazer uma pausa neste seu trabalho e lerem um pouco de história. Eles poderiam centrar-se na década de 1970 e poderiam descobrir então que Bretton Woods entrou em colapso porque lhe foi retirada a convertibilidade entre as moedas e com isso se fizeram desaparecer praticamente os sistemas cambiais assentes em taxas de câmbio fixas (certamente como um referência mundial) e tudo a que a estes regimes estava ligado. Então eles poderim perceber como é o seu discurso soa a uma enorme ignorância quando eles fazem estas declarações.
Eles podem estar melhor se dissessem … bem os governos por motivos políticos – para apaziguar o neoliberalismo desenfreado que ajudaram a criar – colocam restrições voluntárias sobre si mesmos e agem como se eles ainda estivessem na época de Bretton Wood – ou seja, que eles podem impor voluntariamente regras artificiais de financiamento sobre si-mesmos. Mas na realidade isto é uma negação da essência do sistema monetário fiduciário em que agora vivemos e, portanto, não existe nenhuma base económica para estes construções. Mas politicamente nós apoiamo-los porque eles deslocam o poder para os mais ricos e para os detentores de capital, mantendo o desemprego elevado e têm sucessivamente redistribuído e com êxito o rendimento nacional auferido pelos trabalhadores a favor do aumento da massa de lucros.
Se eles dissessem isto, eu teria mais respeito pela sua honestidade. Não há um pingo de respeito pelos seus valores. Mas pelo menos é o que realmente está a acontecer . O problema é que eles não dizem isso. Eles mentem e distorcem o debate público – através do seu fácil acesso aos meios de comunicação, etc- e fazem com que estas restrições voluntárias pareçam de facto restrições económicas e intrínsecas. Ninguém pode dizer que eu estou a desdenhar desta hipócrita lógica!
Sugestão: o conceito da sustentabilidade orçamental não incluirá nenhuma noção dos imperativos do financiamento que um governo soberano enfrenta nem invocará a analogia falaciosa entre um agregado familiar e o governo.
Robert Reischauer, presidente do The Urban Institute, que está provavelmente no lado progressivo do debate aponta no sentido de se avançar com uma política de interesse público para melhorar os centros urbanos. Reischauer diz:
… sobre um tempo mais longo, nós devemos perguntar se nós nos queremos ou não queremos viver sempre na fronteira da não durabilidade orçamental ou, se ao contrário, seria preferível termos um setor público que esteja um pouco mais afastado da beira da falésia mas mais capaz da responder às inevitáveis crises económicas/políticas que sempre ocorrerão. Nós temos que perguntar a que nível nós queremos estabilizar q dívida relativamente ao PIB : deve estar em 80 por cento, 40 por cento, ou, talvez os 25 por cento alcançados em meados de 1970?
Conclusão: podemos eliminar este ponto de vista e imediatamente. Fixando um rácio Divida Pública relativamente ao PIB é uma tarefa inútil e sem sentido. Se não quisermos que o sector privado venha a ter mais opções para deter ativos financeiros, então o governo soberano pode sempre parar de estar a vender títulos. Simplesmente assim. Os défices vão continuar como planeado, mas os novos activos financeiros correspondentes que são adicionados pelos défices serão ainda detidos nas mãos do setor privado – como as reservas bancárias ou de outras formas que eles escolhem. O governo só poderá negar-lhes a capacidade de converter as reservas bancárias de baixa ou mesmo nula rentabilidade em títulos do governo geradoras de juros.
Sempre que o setor privado fica doente por ter esta escolha seria bom para qualquer governo soberano. Eles podem facilmente abordar as implicações monetárias disto (nenhuma questão quanto a emissão de dívida) permitindo apenas à taxa de juros de curto prazo de cair para zero ou qualquer nível de suporte a que o banco central paga o depósito de excedentes de reservas em moeda banco central. O governo poderia facilmente criar uma equivalência entre as reservas dos bancos e a dívida pública, pagando a taxa de juro objectivo de curto prazo (o objectivo do banco central) sobre o excedente de reservas overnight . Então o banco central manteria o controle sobre o seu objectivo de política monetária e nenhuma dívida pública teria que ser emitida para drenar o excesso de reservas e condicionar a concorrência interbancária por fundos overnight. Simplesmente assim!
Reischauer expressa aqui os sentimentos de uma “pomba do défice”. Vejam-se os meus textos onde eu discuti o que pensam as pombas do défice. Recorde-se que são características que não repugnam intrinsecamente os défices (como alguns dos conservadores) mas são enganados assim pela mentira que nós ainda hoje estamos num padrão-ouro ou que adoptam uma cautelosa abordagem dos défices e falam em termos do rácio Divida/PIB estável– exactamente como a nota de Bernanke acima citada. Muitos dos considerados economistas progressistas caem neste campo (infelizmente).
Assim nós obtemos esta lógica:
Quanto mais alto é o rácio da dívida a que a relação de estabilidade é alcançada, maiores são os défices que o governo pode incorrer ao manter a relação estável. Quanto mais alta é a relação, maior a fracção da despesa dedicada aos pagamentos dos juros e mais o orçamento é exposto aos movimentos e à pressão adversa da taxa de juro dos nossos credores estrangeiros. Além disso, os contribuintes já incomodados por não receberem o valor do seu dinheiro em serviços, não ficarão contentes quando uma fração crescente de seus impostos serve para pagar serviços passados — que é o que os pagamentos dos juros representam. Por estas razões, a sustentabilidade a longo prazo deve envolver a descida do rácio Dívida/ PIB dos 80 por cento positivos projetados para se voltar aos níveis que são mais compatíveis com o crescimento económico saudável e a estabilidade política.
(continua)
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Ver o original em:
Posted on Tuesday, June 16, 2009 by bill
