«NÓ CEGO», ESTREIA AUSPICIOSA DE CARLOS VALE FERRAZ – por Carlos Loures

um-retrato

Numa das suas excelentes novelas, o escritor britânico Somerset Maugham (1874-1965). cria uma interessante personagem numa situação complicada – a de um grande escritor que, já velho, com uma obra extensa e prestigiosa obra de dezenas de livros, traduzido em numerosas línguas, acarinhado pela crítica e numerosas vezes proposto para o Nobel, que sente uma grande frustração e tem crises de irritabilidade, quando críticos e renomados jornalistas continuam a apresentá-lo como o autor de… e lá vinha o título da incipiente novela de estreia, publicada sessenta anos antes.

Não defino Carlos Vale Ferraz com o o «autor de Nó Cego», pois do ponto de vista estritamente literário, o percurso evolutivo entre esse romance de estreia e «A Mulher do Legionário» é evidente; esta obra de 2013 é  visivelmente superior e é bem notória a evolução positiva de Vale Ferraz no domínio da escrita, da efabulação e na sábia contenção com que arquitecta o percurso das personagens e as situa em contextos diferentes.

Em Nó Cego, Vale Ferraz é muito ajudado pelo alferes, tenente, capitão Matos Gomes. Nas suas obras mais recentes, o escritor, não enjeitando a ajuda do oficial comando, revela uma fluência de escrita que ao longo de trinta anos conquistou. De comum entre o primeiro e os mais recentes romances de Carlos Vale Ferraz, algo que tem mais a ver com a qualidade humana do escritor e do coronel de fugir ao eufemismo, de ser frontal e acutilante. As suas obras mais recentes conservam a frescura de há três décadas, mas profissionalizou a construção de personagens, cenários e situações. Diria que Nó Cego é obra de um militar que escreve, enquant0 actualmente Vale Ferraz é um escritor que viveu a experiência da guerra.

Na editora Salamandra, onde lia os originais que, em considerável quantidade afluíam, por amizade ao Bruno da Ponte, sócio maioritário da empresa, redigindo no final da tarefa da leitura, um relatório sobre a qualidade literária e, sobretudo sobre a sua viabilidade comercial. Lembro-me de uma noite em que me deitei cedo, antes da meia-noite, me decidi a pegar no dactilo-escrito de capa cinzenta com o título sugestivo de Os lobos não usam coleira. Nascia já o sol quando terminei a leitura e, do meu escritório, telefonei ao Bruno aconselhando a publicação, conselho que formalizei em relatório escrito. Infelizmente, a editora teve de encerrar pelo motivo do costume – incapacidade financeira para prosseguir.

Tive depois o prazer de ver o livro transposto para o cinema, numa, quanto  a mim, das mais conseguidas obras do realizador António Pedro de Vasconcelos. Discordei da mudança do título, mas considero que Nicolau Breyner revelou ser um actor a sério e não apenas o histrião de graçolas sem graça e Joaquim de Almeida demonstrou não ser o canastrão de filmes norte-americanos onde lhe reservam o papel de bandido sul-americano, de traficante de droga. Da sua filmografia hollywoodesca, apenas recordo com agrado a sua participação em Only You, realizado por Fisher Stevens  e onde contracena com  Marisa Tomei, Robert Downey Jr., Bonnie Hunt. Este filme não trai, pela falta de meios, como aconteceu com Crónica dos Bons Malandros, de Mário de Zambujal – um excelente romance, um filme desastroso.

Em suma, há muito anos, um jovem capitão de Abril começa a escrever – hoje, o militar escreve com a presteza com que lutava e a série BISCATES prova que usa na escrita a acutilância própria de um soldado comando. Num próximo artigo abordarei  a  tradição dos militares escritores.

One comment

  1. Sinto-me muito bem retratado e muito bem tratado. Não conhecia a pequena história dos Lobos Não Usam Coleira na Salamandra… O Nó Cego também andou inicialmente numa pequena editora, no caso a Centelha, de Coimbra

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