FRATERNIZAR – Padre Américo-Casa do Gaiato – É TEMPO DE FALAR OU DE CALAR E EXTINGUIR? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Outubro, 22. À mesma hora em que decorria o lançamento do meu novo Livro “de CRISTÃO a HUMANO, Crónicas Exemplares”, Seda Publicações, na sede da AJHLP, decorria uma sessão pública de homenagem ao nosso querido Padre Américo, o pai fundador da Casa do Gaiato/Obra da Rua. Uma obra que, no sábio entender dele, deveria durar o menos tempo possível e sempre a modos de Grito na Cidade e no País, de Vento, simultaneamente, rajada e brisa, até que deixasse de ser necessária, por falta de rapazes pobres e abandonados à sua sorte nas ruas e caminhos, de famílias degradadas e condenadas a ter de viver em barracos com ratos e terra batida a fazer de chão, doentes e deficientes deixados à sua sorte por familiares e vizinhos. Uma Perversão social, com causas bem concretas e bem conhecidas dele e de quem como ele tenha dois dedos de testa e não se faça de politicamente ingénuo e parvo, por isso, causas da nossa exclusiva responsabilidade, que então urgia, e ainda hoje urge denunciar e atacar, não manter-perpetuar. Para que ganhe progressivamente forma uma sociedade outra, pós-cristã e sororalmente humana, integradora de todos os seus membros em condições de dignidade.

A homenagem consistiu na apresentação de um Livro “É tempo de falar do Padre Américo”, MODODELER, convocada para junto da estátua do Padre Américo na Praça da República, numa tenda cedida pela CM do Porto e presidida pelo respectivo presidente de turno, Dr. Rui Moreira, acolitado, como era de esperar, pelo Bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, e – espante-se! – por Padre Júlio, o actual Director da Casa do Gaiato/Obra da Rua. Mas, obviamente, sem a a presença, nem visível nem invisível, do homenageado que para sempre repudiará este tipo de iniciativas carregadas de vaidade, de hipocrisia e de manipulação das mentes das populações, tão do gosto dos grandes que mandam na cidade e no país, concretamente, as minorias dos privilégios e do poder político e religioso-eclesiástico, sempre ao incondicional serviço das elites do poder financeiro que fabricam pobres e pobreza em massa com a mesma frieza com que fabricam automóveis e guerras de todos os jeitos e feitios, para darem que fazer às suas fábricas de produção contínua de armas e de toda a maquinaria de destruição maciça. Só mesmo a este tipo de minorias interessa perpetuar no tempo o que, em determinado momento concreto, nasceu para durar o menos possível.

Surpreendente, a raiar o escândalo, nesta homenagem com tudo de insulto e de agressão à pessoa do Padre Américo, é, pois, a presença de Padre Júlio, o actual Director da Casa do Gaiato/Obra da Rua. Nada, nem o facto de, como confessa, não ter conhecido o Padre Américo em vida, justifica semelhante traição à vontade e ao lúcido entender do fundador da Obra da Rua, profundo conhecedor de quão maquiavélicos são os poderes e seus agentes históricos de turno e as suas homenagens. Mas quem não conhece o Padre Américo, mesmo que o não tenha conhecido em vida visível? Ele continua a viver, de modo pleno e definitivo, para lá daquele brutal acidente que o matou na estrada nacional entre Valongo e Paredes. Todas as pedras e oficinas da Casa do Gaiato e do Calvário têm a sua marca, o seu Sopro, o seu Cheiro, o seu Perfume, a sua Luz. E as sucessivas edições do Jornal O Gaiato, por ele fundado, mai-los livros que a partir dos seus escritos foram compilados, continuam a dar-nos o Padre Américo de corpo inteiro como não o teremos conhecido antes, quando, como qualquer de nós, vivia confinado aos locais por onde visivelmente passava.

Dói muito esta traição e esta cedência do Padre Júlio às elites do poder que estão no Porto, quando deveria ter-se oposto à homenagem. E, se, mesmo assim, a homenagem fosse para a frente sem ele, como foi sem a presença do homenageado, a sua recusa seria a actualização do Grito que a cidade e o pais mais precisam de escutar neste nosso hoje, tremendamente anestesiado e politicamente desmobilizado. É com traições deste peso e desta eficácia anestesiadora, que a Casa do Gaiato e a Obra da Rua perpetuar-se-ão no tempo, contra o manifesto querer do respectivo pai fundador. Aliás, só um cego que não queira ver e um surdo que não queira ouvir é que não vê e não ouve o Grito do Padre Américo, mediatizado na Casa do Gaiato e da Obra da Rua.

Ironicamente, este seu Grito figura, em forma de um texto seu, inserido no próprio folheto tríptico, anunciador da homenagem com tudo de insulto e de agressão. “A tendência da obra é que sejam rapazes os seus próprios continuadores: por isso mesmo escolha-se entre eles o mais avisado e dê-se-lhe preparação. Os padres da Rua não devem ter funções administrativas. É melhor que os trabalhos agrícolas, as indústrias e mais actividades sejam dirigidas e exploradas por rapazes idóneos, segundo a escolha do Superior, a quem devem prestar contas e dar todos os esclarecimentos. Dê-se ao rapaz o sabor de comer o pão, em nossas casas, com o suor do seu rosto. Chame-se cada um a esta responsabilidade e não se lhe falte com o salário justo.”

À luz deste querer do pai fundador, a Obra da Rua já deveria ter sido extinta, por desnecessária. Pelo menos, já não deveria ter padres à frente dos seus destinos. Jamais deveria ter-se convertido numa instituição mais, de caridadezinha, apesar de recusar estatutariamente ser considerada uma IPSS. Se é dos rapazes e gerida pelos rapazes, não poderia ter-se transformado numa instituição mais, de caridadezinha, dirigida por clérigos. Muito menos numa empresa que continua a receber dinheiro sem conta entregue por pessoas que continuam a ser levadas a pensar que se trata de uma Obra pobre, quando não é.

“O problema maior da Obra da Rua é a abundância de dinheiro que aqui entra”, disse-me, há anos, em “off”, com manifesta dor e preocupação, um dos padres que a integra. O endeusamento e a manipulação do Padre Américo por parte dos padres da Obra da Rua e de O Gaiato, que fazem dele pau para toda a colher, atingiu nesta homenagem dos poderes cúmplices dos fabricadores de pobres e de pobreza em massa e de indignidades sociais inomináveis, o seu ponto mais baixo em degradação.

É mais do que tempo de se deixar de falar do Padre Américo. É mais do que tempo de se extinguir a Obra da Rua por ele fundada. Neste nosso hoje, o Padre Américo não só não fundaria a Obra, como já a haveria extinguido, por ter deixado de fazer qualquer sentido, nos moldes em que continua aí a funcionar. O seu Grito, feito Obra da Rua, tem a curta duração de um qualquer outro grito. Transformar este seu Grito num institucional mais, impossibilita ainda mais a sociedade de atacar as causas que arrastam rapazes para as sarjetas e, em sentido inverso, ajuda a engrandecer os grandes que o Grito do Padre Américo vergasta com a força das suas palavras-chicote-e-rajada e com a fecundidade do seu Sopro sororal, todo colo e brisa para com os Ninguém, que os intervenientes da homenagem continuam criminosamente a fabricar.

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