HIERONYMUS BOSCH E CARAVAGGIO EM MADRID – I – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

Será que Warren Buffett leu Lénine? - por António Gomes Marques

I – Introdução

Os Museus de Madrid fazem da cidade uma das minhas favoritas. Desta vez, foram as exposições de «Hieronymus Bosch», no Museu do Prado, e de «Caravaggio e os Pintores do Norte», no Museu Thyssen-Bornemisza, que me levaram a mais uma visita à capital de Espanha ou, para alguns amigos espanhóis não se zangarem comigo, «à capital das Comunidades reunidas num país a que chamamos Espanha».

Deixemos esta questão, o nosso propósito é falar da vida e da obra pictórica dos génios que a Madrid me levaram mais uma vez.

Ia com grandes expectativas, absolutamente satisfeitas no caso da exposição no Prado, e um pouco goradas com a exposição no Thyssen-Bornemisza, não por a exposição não ser excelente, mas apenas por eu julgar que ia ver muitas das obras de um dos meus pintores preferidos, Caravaggio. De facto, deste génio –rebelde, talvez devasso, mas um inovador cheio de coragem-, não chegou a uma dezena os quadros ali expostos, dos quais já tinha visto «Santa Catarina de Alexandria, neste mesmo Museu, dado que faz parte da exposição permanente do Thyssen-Bornemisza. O quadro «A Crucificação da São Pedro» (que vi no Hermitage, Sampetersburgo), que eu julgava de Caravaggio, será uma variante do original do pintor e a sua autoria foi atribuída ao seu amigo Lionello Spada. No Museu do Prado pode sempre ver-se, como eu vi várias vezes, uma das suas grandes obras, «David e Golias». Este quadro e, na National Gallery, em Londres, «Salomé recebe a cabeça de São João Baptista» e «A Ceia de Emaús», terão sido as primeiras obras de Caravaggio que tive oportunidade de ver.

Mas vamos por partes, falemos primeiro de Hieronymus Bosch.

II – Hieronymus Bosch


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Nascido em ‘sHertogenbosch, ou Bois-le-Duc, cidade integrada na Holanda, cerca de 1450 (ou de 1453, como diz José Luís Porfírio), foi registado com o nome de Jeroen (ou Jheronimus) van Aeken tendo criado o seu pseudónimo a partir do nome em flamengo da sua cidade natal.

A cidade onde nasceu caracterizava-se por ter uma população maioritariamente burguesa, que vivia de uma intensa actividade comercial, e com uma não menos intensa vida religiosa, graças à existência de vários mosteiros e conventos, cuja prosperidade terá gerado grandes rivalidades com os comerciantes da zona, naturalmente a não gostarem da concorrência, o que não foi exclusivo desta região, mas que foi uma constante da época na Europa, gerando mesmo alguns conflitos. A imaginação de vários pintores que viveram tal período dá disso testemunho. Os frades e prelados foram acusados de cometerem alguns dos pecados capitais, nomeadamente do pecado da gula e também do pecado da luxúria, pecados estes que a literatura mostrou terem-se estendido aos séculos seguintes na Europa, nomeadamente em Portugal, como a obra de Camilo Castelo Branco ilustra muito bem. A obra pictórica de Hironymus Bosch é bem a prova disso.

Sobre a sua vida pouco se conhece; no entanto, sabe-se que terá recebido influências ou do seu pai ou do seu tio, dado que, um deles, era proprietário de uma oficina de pintura, onde H. Bosch se terá iniciado. Nem do seu pai nem do seu tio se conhecem quaisquer obras, todas tendo desaparecido. Também se pensa, tendo em conta a ausência de documentos que comprovem o contrário, que viveu e trabalhou sempre na sua cidade natal.

Bosch não facilitou a vida aos seus biógrafos, não havendo uma documentação que permita um conhecimento pormenorizado da sua vida, nem sequer se encontrando cartas suas ou mesmo algum registo diarístico. Sabe-se que casou com uma senhora mais velha, Aleyt Goyaerts van den Meervenne, detentora de uma boa fortuna, numa data compreendida entre 1479 e 1481. Terá sido um devoto da Virgem pois, ao que se julga, pertenceu à Confraria de Nossa Senhora, fundada na sua terra natal em 1318, para quem executou algumas obras, assim como os seus familiares, pai, tio, um dos irmãos, todos eles pintores.

Como se diz na obra de Walter Bosing, “Filipe, o Belo, duque de Borgonha, encomendou um altar a «Hieronymus van Aken, chamado Bosch». É aqui que se encontra, pela primeira vez, a designação do pintor pelo seu local de nascimento. O quadro devia representar o Juízo Final, o Céu e o Inferno.” Esta obra ter-se-á perdido, pensando-se que há um fragmento da mesma obra em Munique, assim como há quem pense que seja “o tríptico Juízo Final, de Viena de Áustria, uma pequena réplica do altar executado por Bosch.” (W. Bosing). Ainda e seguindo o que nos diz o mesmo autor, a última referência a Bosch que aparece nos documentos da citada Confraria diz respeito à sua morte em 1516, indicando-se ainda que no dia 9 de Agosto do mesmo ano se celebrou uma missa pela sua alma.

A sua pintura, ao longo dos tempos, tem provocado as mais diversas interpretações. No século XVI, segundo Filipe de Guevara («Commentarios de la pintura», Madrid, 1788), era considerado como um «inventor de monstros e quimeras», enquanto Karel van Mander ou Carel van Mander (Meulebeke, 1548 – Amesterdão, 1606), pintor flamengo e historiador de arte, na sua obra «Schilderboeck», uma extensa obra com a biografia de vários pintores, escreveu que as pinturas de Bosch eram «fantasias milagrosas e estranhas… causando muitas vezes uma impressão de horror em vez de agradável», até que, chegados ao século XX, «Alguns autores viram Bosch como uma espécie de surrealista do século XV cujas formas inquietantes surgiam do seu inconsciente. O seu nome é, muitas vezes, evocado juntamente com o de Salvador Dali. Outros viram nessa arte o reflexo das práticas esotéricas da Idade Média e relacionaram-na com a alquimia, astrologia e bruxaria.» (Walter Bosing). Na referência a Salvador Dali, toma-se Bosch como uma das fontes do movimento surrealista, o que, na minha modesta opinião, me parece perfeitamente aceitável.

Também há quem defenda que Bosch terá sido membro de uma seita herética, uma das muitas que existiram na Idade Média, onde terá obtido os seus conhecimentos em sonhos e, sobretudo, em alquimia, interpretação essa que a análise dos seus quadros poderá permitir, mas há também quem defenda que não passa de especulação, tendo em conta que não há provas concretas de tal facto.

Por isso, se é que foi um facto real, terá sido perseguido pela Inquisição, mas não conheço documentação que me permita afirmar que tal perseguição aconteceu. Já me é mais aceitável que a sua obra pictórica tenha sofrido influência dos rumores do Apocalipse que terão sido divulgados no final do século XV, inícios do século XVI, tomando aqui o Apocalipse como sinónimo da condenação dos pecadores ao Inferno eterno e dos não pecadores como tendo direito ao reino do céu, ou seja, trata-se de uma visão profética do Juízo Final.

O alemão especialista em literatura popular e também na obra de H. Bosch, August Ludwig Wilhelm Fraenger (Erlangen, 1890 – Potsdam, 1964), defende a tese de que Bosch pertencia a uma seita herética, a Congregação do Espírito Livre, fundada no século XIII e que viria a ter existência durante vários séculos na Europa, em que «a promiscuidade sexual constituía uma parte dos seus ritos religiosos, através dos quais procuraram readquirir o estado da inocência que Adão possuía antes da sua queda. É por esse motivo que também são chamados adamitas.

Fraenger pensa que o Jardim das Delícias foi pintado para um grupo adamita residente em ‘sHertogenbosch, local em que nasceu o pintor, não representando a cena erótica do painel central, como se pensa, a condenação da luxúria desenfreada mas sim as práticas religiosas dessa seita.» (Walter Bosing).

É uma tese que, confesso, me é muito simpática, mas não me parece que corresponda ao que motivou Hireronymus Bosch, ou seja, não comungo dessa interpretação da pintura do genial pintor.

Retomando a exposição no Museu do Prado, é o museu que mais obras de Bosch tem no seu espólio, destacando-se não só pela quantidade mas também pela qualidade. Se nos lembrarmos de que os Países Baixos constituíram parte da Coroa Espanhola, com início no século XVI, e que, por exemplo, Filipe II (I de Portugal) mostrou um grande interesse na pintura flamenga, adquirindo obras-primas dos primitivos pintores flamengos, como Van der Weiden e Bosch, nomeadamente, e também de pintores posteriores a estes, não estranharemos que o Prado tenha mais de mil quadros de pintura flamenga dos séculos XV a XVII, sendo que de Rubens são mais de 90.

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Tríptico – volante esquerdo: O Paraíso Terreno; centro: Jardim das Delícias; vol. Direito: O Inferno

Retomando as exposições que a Madrid me fizeram deslocar, falemos um pouco mais de Hieronymus Bosch.

Se a simpática tese de W. Fraenger não me parece aceitável, já o carácter moralizante da pintura de Bosch me parece evidente, por várias razões, como algumas que citarei.

Sendo hoje aceite que, na sua época, as obras do genial pintor flamengo eram pouco populares pela extravagância inabitual que mostravam, sendo apenas uma elite a receberem-nas com compreensão, são hoje acolhidas até com alguma paixão, não podemos esquecer que, algumas das pinturas de Bosch foram realizadas para responderem a convites de algumas igrejas, o que não teria sido possível se a intenção do pintor fosse a de responder às crenças da seita a que dizem que ele terá pertencido, sendo mesmo para mim (e para muitos especialistas, ao que parece) o erotismo de «O Jardim das Delícias» a condenação de condutas humanas, dentro do moralismo que o pintor defende nas suas obras. Este tríptico, uma das obras-primas de Bosch, quando aberto, mostra, no volante da esquerda, Adão e Eva no Paraíso, vendo-se, de cima para baixo, os primeiros animais, a Fonte da Vida, seguindo-se Deus a oferecer Eva a Adão, não faltando, como me parece ter de ser, a Árvore da Ciência e a serpente, que está na origem do primeiro pecado e a consequente queda do homem. No Jardim das Delícias, a parte central do tríptico, o pintor coloca-nos na Terra, mostrando-nos, de cima para baixo, belas mulheres nuas e os frutos vermelhos simbolizando o desejo carnal, verdadeiro motor da humanidade, mas que não deixa de ser um falso paraíso com a desenfreada luxúria na parte de baixo, que terá as respectivas consequências que o volante da direita mostra claramente, ou seja, a condenação ao Inferno, com, também de cima para baixo, os condenados a serem recebidos na cidade em chamas, seguindo-se os suplícios do jogador, do alquimista e do clero pecador, parecendo-nos evidente que esta condenação do clero está intimamente ligada à acusação, que acima referimos, aos frades e prelados de alguns pecados capitais, com destaque na obra de Bosch para os pecados da luxúria e da gula.

A exposição que vimos era constituída por 53 obras, sendo que cerca de 20 são de outros autores, dos quais alguns seguidores do pintor, outros da oficina de Bosch e 4 quadros de Alart du Hameel, e ainda outros de um anónimo, de Cornelius Cort (gravador), de Felipe de Guevara, de Adriaen van Wesel, de um Mestre dos retratos principescos, e dois manuscritos, sendo um deles um relato do século XII (cerca de 1149), uma obra de um miniaturista (Simon Marmion) e um copista (David Aubert), autores de «Les visions du chevalier Tondal», obra que relata a viagem da alma de um cavalheiro através do Inferno, do Purgatório e do Céu, antes de regressar à vida três dias depois, a qual terá inspirado Bosch, sendo o outro manuscrito o «Livro de horas de Engelbrecht II de Nassau, da autoria de um Mestre de Viena de Maria de Borgonha (miniaturista) e de um copista, Nicolas Spiering, em cujas miniaturas Hieronymus Bosch terá também encontrado inspiração.

Não iremos, naturalmente, analisar todas as obras ali expostas, onde não podia faltar uma outra obra-prima de Bosch, em grande destaque, que é «A Tentação de Santo Antão», pertença do nosso Museu Nacional de Arte Antiga, havendo uma bela edição portuguesa em que José Luís Porfírio faz uma análise minuciosa do quadro e que, na minha opinião, reforça o carácter moralizante das obras do genial flamengo.

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Tríptico: A Tentação de Santo Antão
À esq.: O voo e a queda de Santo Antão; centro: A Tentação de Santo Antão; à dir.: Santo Antão em Meditação

Outra obra de Bosch que me ajuda a rejeitar a tese de W. Fraenger é «A Mesa dos Pecados Capitais», também adquirida por Filipe II de Espanha e depositada no Escorial em 1574, hoje fazendo parte do espólio do Museu do Prado.

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A Mesa dos Pecados Capitais

Nesta obra, temos Cristo ao centro, saindo do sepulcro, com uma legenda por baixo – cave, cave, Dominus videt (Cuidado, cuidado, Deus vê); depois, temos sete cenas, cada uma representando um dos pecados capitais em cenas perfeitamente populares, avareza, soberba, gula, ira, inveja, preguiça e luxúria. A morte, o juízo final, o inferno e a glória estão representados nos círculos que aparecem nos quatro cantos do painel, numa demonstração clara do observador que Bosch foi do seu tempo. As suas composições fantásticas, que apresentam figuras infernais, onde nos apresenta monstros com partes humanas, partes animais e vegetais, são demonstrações de condenação dos pecadores e que Bosch, julgamos que coerentemente, utiliza nas cenas do Juízo Final e do Inferno, com uma evidente preocupação moral de um cristão que, sem deixar de respeitar a ortodoxia da igreja, tinha fé em Deus. A sua imaginação é prodigiosa na criação destes monstros, mas não deixam de mostrar uma sua preocupação, que poderemos classificar como pedagógica, ao mostrar as consequências das acções dos pecadores e o sofrimento a que estariam sujeitos com a natural condenação ao Inferno.

Não vamos analisar outras obras de H. Bosch, mas não podemos deixar de chamar a atenção para cerca de metade das suas criações, as obras devocionais, que abordam temas como a vida de santos ou do nascimento, da paixão e da morte de Cristo, temas esses muito mais tradicionais, como essa outra obra-prima que é «A Adoração dos Reis Magos», que poderá ser vista também no Museu do Prado, para não falar de outras, nomeadamente de «A Extracção da Pedra da Loucura», numa condenação da estupidez e da ignorância, seguindo provérbios flamengos, e onde não deixa de criticar a Igreja na sua conivência na criação de falsas crenças. Os seus temas moralistas, segundo alguns estudiosos da sua obra, partem de algumas lendas, de provérbios e superstições populares, que representa nos seus trabalhos alegoricamente e, portanto, talvez mais compreensíveis para os seus contemporâneos do que hoje muitos pensam.

Chegado a este ponto, há que passar agora, na segunda parte deste trabalho, a tentar mostrar a razão da nossa paixão pela pintura de Caravaggio, outro génio que me encanta mais do que Hieronymus Bosch, mas que, no meu entendimento, não diminui a também genialidade deste. Espero que consiga demonstrar a minha preferência ao leitor.

Lagos, 2016-11-23

Leituras recomendadas:

Bosing, Walter – «Hieronymus Bosch –cerca de 1450 a 1516- Entre o Céu e o Inferno», Benedikt Taschen Verlag GmbH, 1991;

Porfírio, José Luís (estudo e legendas), «As Tentações» – Um Pintor, Hieronymus Bosch – Um Escritor, Antonio Tabucchi – Quetzal Editores, Lx, 1989;

e também uma tese de mestrado apresentada  em 2015-03-10, na Universidade de S. Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Área de Filosofia, a que, só no final deste trabalho, tivemos acesso e que muito nos interessou e que poderá levar-nos a voltar provavelmente ao tema e seguramente à sua leitura completa:

Silva, Isaac Vieira da – «A obra pictórica de Jerônimo Bosch à luz de escritos dos séculos XV, XVI e XVII».

Desta obra, diz-se, no resumo em português:

Este trabalho tem como proposta estudar a obra pictórica de Jerônimo Bosch a partir da pesquisa, seleção, tradução e análise de excertos dos séculos XV, XVI e início do XVII que tratam do pintor e de sua obra. Diferentemente dos estudos contemporâneos, que, iconográficos, privilegiam a análise das imagens e a interpretação de seu simbolismo, esta pesquisa propõe estudar Bosch através destes textos, pensados a partir dos gêneros discursivos.

Considerando as diferenças entre os gêneros, o estudo dos excertos visa a explorar sua diversidade e apontar seus pontos comuns, como a fama de Bosch na época, as descrições de suas pinturas e a qualificação das obras, sobretudo como fantásticas, bizarras e maravilhosas

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