
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Trump: uma cruzada sem ingerência
O que anuncia a sua nova Administração
Régis de Castelnau, Une croisade sans ingérence. Ce qu’annonce sa nouvelle administration
Revista Causeur.fr, 20 de Janeiro de 2017

A eleição de Donald Trump para a Casa Branca causou espanto em todo o mundo. Como é que foi possível que o candidato que todos os meios de comunicação nos têm apresentado como um aventureiro e um pouco débil mental tenha ganho a Santa Hillary Clinton? O trauma tem obscurecido os espíritos e tem sido muito difícil, sem um fastidioso trabalho de pesquisa, saber o que nos espera com a chegada ao poder deste político atípico e da equipa que o rodeia desde há algum tempo. Para entender os desafios em problemas em aberto com esta eleição, é necessário fazer um esforço para escapar às considerações de ordem moral e ao impasse cognitivo no qual nos enfiam os media inconsolados com a partida do Barack Obama.
Dissidentes “made in” Goldman Sachs
Na história recente dos Estados Unidos, a conquista do poder pelos republicanos sempre marcou uma vontade de mudança da ordem mundial. O abandono dos acordos de Bretton-Woods, por Nixon para financiar a guerra no Vietname, a globalização neoliberal de Reagan para financiar a corrida aos armamentos contra a União Soviética, as cruzadas de George W. Bush para confirmar a hegemonia mundial dos Estados Unidos, são todas ilustrações desta visão das coisas. A alternância democrática, nada mais fazendo do que continuar a aprofundar os novos dispositivos ou, no melhor dos cenários, a corrigi-los marginalmente. As deceções dos mandatos Obama tem a sua origem neste enquadramento. Guantánamo ainda está em aberto, nada está decidido no Afeganistão, o Médio Oriente é fogo e sangue.
Donald Trump surpreendeu com a rápida designação de sua equipa com a qual pretende governar. Isso revela uma verdadeira rutura com as ideias até aqui dominantes nas esferas militar, financeira, energética e até mesmo religiosa. O denominador comum destas nomeações heterodoxas é primeiramente o de uma proximidade já antiga das pessoas indicadas para trabalhar com o novo presidente, e a originalidade dissidente destas personagens na sua esfera habitual de influência.
Com o advento do capitalismo financeiro no início do mandato de Reagan, todos os sucessivos governos têm utilizado figuras de Wall Street. Obama não foi exceção ao nomear Hank Paulson para salvar o sistema durante a crise dita de subprime. Sob os comentários sarcásticos dos ignorantes comentadores franceses, Donald Trump deu a impressão de continuar esta tradição tendo a seu lado gente de ex-Goldman Sachs como Gary Cohn, Steven Mnuchin, ou Steve Bannon. Exceto que Goldman Sachs, ao contrário do que se poderia pensar, não representa o arquétipo da elite financeira norte-americana. Esta é encarnada pelos bancos tradicionais de depósito (Merrill Lynch, Morgan Stanley, Bank of America) e não pelos bancos de investimento e de financiamento como é o caso de Goldman Sachs quê. Este grupo de intelectuais (como todos eles são) quer promover um capitalismo ultraliberal a nível nacional, um mercado de trabalho não regulamentado, o abandono de Obamacare, o cancelamento do Dodd Frank Act, que previa a regulação do sistema financeiro.
No campo internacional, será no entanto um dirigismo potencialmente coercitivo. A priori, a nova Administração não tem a intenção de reduzir a dívida pública, cuja dimensão é equivalente à poupança da economia global, ou seja de vinte milhões de milhões. A sua estratégia parece apontar para um aumento nominal da dívida com uma taxa de inflação mais elevada e o aumento dos salários.
Quanto à dívida externa de cerca de oito milhões de milhões de dólares, o objetivo é convertê-lo em dívida interna pela repatriação de capital estrangeiro, de que um terço é está nas mãos das multinacionais americanas. Não é certo que isso lhes seja pedido por gentileza.
Assumidamente há um ódio contra o Islão
Uma outra característica desta nova Administração, a presença de muitas altas patentes militares, o que é pelo menos atípico. Todos são dissidentes altamente politizados do establishment militar. Sabíamos que andavam descontes com as frustrações geradas pela presidência Obama.
Vejamos uma breve síntese sobre os perfis daqueles que acabaram de chegar aos comandos do poder: James Mattis, secretário-geral da Defesa, apelidado de “cachorro louco” ou o “monge soldado” por causa de seu rigor moral, do seu celibato sacerdotal e do desrespeito para o Pentágono e pela sua burocracia. Michael Flynn, forçado a demitir-se do exército por causa de críticas levantadas contra os seus superiores, em que afirmara que Hillary Clinton deveria estar na cadeia e cuja principal preocupação é a guerra contra o Islão. John Kelly que se recusa a fechar Guantánamo; Mike Pompeo, o novel diretor da CIA, que apoia a recolha em massa dos dados de comunicação dos cidadãos; para não mencionar o retorno de David Petraeus, ex-chefe da CIA (em total desacordo com a estratégia de Obama) cuja carreira foi abruptamente interrompido devido a um escândalo de natureza sexual.
O denominador comum destes militares é assumidamente o ódio ao Islão. Eles não são intervencionistas e é provável que a sua vontade de dominação se dispensará de intervenções militares diretas, gato escaldado de água fria tem medo. Isto sugere que o uso de meios de dissuasão pela intimidação, de arrogância com conotações nucleares. Como Donald Trump fez durante a sua campanha.
Em matéria de energia, a nova administração irá basear a sua política num conceito muito simples: ser auto-suficiente em poucos anos. O que significa produzir 12 ou 13 milhões de barris por dia.
Para fazer isso, tem três objectivos:
a) Continuar a extração de gás de xisto, fazendo tábua rasa das normas antipoluição da água e do ar (daí a presença de céticos sobre as mudanças climáticas nesta Administração.
b) Permitir passar o oleoduto Keystone de Alberta para o sul dos Estados Unidos.
c) Subsidiar os produtores de petróleo em detrimento de outras fontes de energia.
