TRUMP: UMA CRUZADA SEM INGERÊNCIA – O QUE ANUNCIA A SUA NOVA ADMINISTRAÇÃO, por RÉGIS DE CASTELNAU

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Trump: uma cruzada sem ingerência

O que anuncia a sua nova Administração

 

Régis de CastelnauUne croisade sans ingérence. Ce qu’annonce sa nouvelle administration

Revista Causeur.fr, 20 de Janeiro de 2017

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Donald Trump e o seu vice-presidente Mike Pence prestam homenagem aos mortos pela América, Arlington, 19 janvier 2017. SIPA. AP22001665_000041

A eleição de Donald Trump para a Casa Branca causou espanto em todo o mundo. Como é que foi possível que o candidato  que todos os meios de comunicação nos  têm  apresentado como um aventureiro e  um pouco débil mental  tenha  ganho a Santa  Hillary Clinton? O trauma tem obscurecido os espíritos e tem sido  muito difícil, sem um fastidioso  trabalho de pesquisa, saber o que nos espera  com a chegada ao poder deste político atípico e da equipa  que o rodeia desde há algum tempo. Para entender os desafios em problemas em aberto   com esta eleição, é necessário fazer um esforço para escapar às considerações de ordem moral  e ao impasse cognitivo no qual nos enfiam os media inconsolados com a partida do Barack Obama.

Dissidentes “made in” Goldman Sachs

Na história recente dos Estados Unidos, a conquista do poder pelos republicanos sempre marcou uma vontade de mudança da ordem mundial. O abandono dos acordos de Bretton-Woods, por Nixon para financiar a guerra no Vietname, a globalização neoliberal de Reagan para financiar a corrida aos armamentos contra a União Soviética, as cruzadas de George W. Bush para confirmar a hegemonia mundial dos Estados Unidos, são todas ilustrações desta visão das coisas. A alternância democrática, nada  mais fazendo do que  continuar a aprofundar os novos dispositivos ou, no melhor dos cenários, a  corrigi-los marginalmente. As deceções dos mandatos Obama tem a sua origem neste enquadramento.  Guantánamo ainda está em aberto, nada está decidido no Afeganistão, o Médio Oriente é fogo e sangue.

Donald Trump surpreendeu com a rápida designação de sua equipa com a qual pretende governar. Isso revela uma verdadeira rutura com as ideias até aqui dominantes nas esferas militar, financeira, energética e até mesmo religiosa. O denominador comum destas nomeações heterodoxas é primeiramente o de uma proximidade já antiga das pessoas indicadas  para trabalhar com  o novo presidente, e a originalidade dissidente destas  personagens na sua  esfera habitual de influência.

Com o advento do capitalismo financeiro no início do mandato de Reagan, todos os sucessivos governos têm utilizado figuras de Wall Street. Obama não foi exceção ao nomear Hank Paulson para salvar o sistema durante a crise dita de subprime. Sob os comentários sarcásticos dos ignorantes comentadores franceses, Donald Trump deu a impressão de continuar esta tradição tendo a seu lado gente de  ex-Goldman Sachs como Gary Cohn, Steven Mnuchin, ou Steve Bannon. Exceto que Goldman Sachs, ao contrário do que se poderia pensar, não representa o arquétipo da elite financeira norte-americana. Esta é encarnada pelos bancos tradicionais de depósito (Merrill Lynch, Morgan Stanley, Bank of America) e não pelos bancos de investimento e de financiamento como é o caso de  Goldman Sachs quê. Este grupo de intelectuais (como todos eles são) quer promover um capitalismo ultraliberal a nível nacional, um mercado de trabalho não regulamentado, o abandono de Obamacare, o cancelamento do Dodd Frank Act, que previa a regulação do sistema financeiro.

No campo internacional, será no entanto um dirigismo potencialmente coercitivo. A priori, a nova Administração não tem a intenção de reduzir a dívida pública, cuja dimensão é equivalente à poupança da economia global, ou seja de vinte milhões de milhões. A sua estratégia parece apontar para um aumento nominal da dívida com uma taxa de inflação mais elevada e o aumento dos salários.

Quanto à dívida externa de cerca de oito milhões de milhões de dólares, o objetivo é convertê-lo em dívida interna pela repatriação de capital estrangeiro, de que um terço é está nas mãos das multinacionais americanas. Não é certo que isso lhes seja pedido por gentileza.

Assumidamente há um ódio contra o  Islão

Uma outra característica desta nova Administração, a presença de muitas altas patentes militares, o que é pelo menos atípico. Todos são dissidentes altamente politizados  do establishment  militar. Sabíamos que andavam descontes com as  frustrações geradas pela presidência  Obama.

Vejamos uma breve síntese sobre os perfis daqueles que acabaram de chegar aos comandos do poder: James Mattis, secretário-geral da Defesa, apelidado de “cachorro louco” ou o “monge soldado” por causa de seu rigor moral, do seu celibato sacerdotal e do desrespeito para o Pentágono e pela sua burocracia. Michael Flynn, forçado a demitir-se do exército por causa de críticas levantadas contra os seus superiores, em que afirmara que  Hillary Clinton deveria estar na  cadeia e cuja principal preocupação é a guerra contra o Islão. John Kelly que se recusa a fechar Guantánamo; Mike Pompeo, o novel diretor da CIA, que apoia a recolha em massa dos dados de comunicação dos cidadãos; para não mencionar o retorno de David Petraeus, ex-chefe da CIA (em total desacordo com a estratégia de Obama) cuja carreira foi abruptamente interrompido devido a um escândalo de natureza sexual.

O denominador comum destes militares é assumidamente o ódio ao Islão. Eles não são intervencionistas e é provável que a sua vontade de dominação se dispensará de intervenções militares diretas, gato escaldado de água fria  tem medo. Isto sugere que o uso de meios de dissuasão pela intimidação, de  arrogância com conotações nucleares. Como Donald Trump fez durante a sua campanha.

Em matéria de energia, a nova administração irá basear a sua política num conceito muito simples: ser auto-suficiente em poucos anos. O que significa produzir 12 ou 13 milhões de barris por dia.

Para fazer isso, tem três objectivos:

a) Continuar a extração de gás de xisto, fazendo tábua rasa das normas antipoluição da água e do ar (daí a presença de céticos sobre as mudanças climáticas nesta Administração.

b) Permitir passar o oleoduto Keystone de Alberta para o sul dos Estados Unidos.

c) Subsidiar os produtores de petróleo em detrimento de outras fontes de energia.

Um retorno ao espírito original do capitalismo

A menos que a Rússia faça dumping, esta estratégia deve ser acompanhada por um aumento dos preços do petróleo para 70 dólares ou mais. A vontade de intimidação Trump só será possível de levar a cabo com este objetivo de independência energética porque, desde a Guerra do Vietname, que os Estados Unidos sabem que dependem dos outros países produtores. A amarga experiência do Oriente Médio levou-os a medir bem o significado desta fraqueza.

A desordem e confusão que causam essas mudanças, incluindo o declínio muito provavelmente a baixa dos salários mais modestos, em que a maioria branca destes assalariados votou Trump, será compensada por um retorno do discurso religioso, um meio  de assegurar a coesão social.

A religião e o conservadorismo são elementos estruturantes do discurso republicano (e às vezes Democrata) nos Estados Unidos. Esta dinâmica foi levada ao extremo sob George W. Bush que defendia um conservadorismo moral. No entanto, esta retórica, nunca designou outras religiões. Mas o discurso desta nova administração, posto em música por Steve Bannon tem acentos místicos, uma liturgia medieval dificilmente escondida e em que se defende  uma guerra  das  civilização judaico-cristãs contra as outras.  Por outras palavras, os capitalistas de religião cristã contra o islão fascizante.

Um retorno aos fundamentos da ética protestante e do espírito original do capitalismo é, portanto, de prever nos EUA nos próximos anos, deixando as operações militares no exterior para se concentrarem numa guerra interna contra o Islão e os ateus.

O novo governo que se está a preparar para tomar as rédeas da Casa Branca tem, sem dúvida, características de clã: é familiar (todos se conhecem e partilham a mesma “dissidência”), religiosa e poderosa num país altamente endividado. Apostando na coerção, não necessariamente militar, sobre toda a gente, esta administração prenuncia anos de pressão psicológica para que possa garantir a hegemonia americana, impondo uma nova ordem mundial sem intervir. Jogando na sua imprevisibilidade, Trump e os seus homens pensam vencer este jogo ao menor custo. A fase da globalização neoliberal começou nos anos 80 com a presidência de Ronald Reagan está bem e verdadeiramente acabada. A  desglobalização que Donald Trump e seus amigos desejam  iniciar pode ser muito rock ‘n’ roll.

Cyriaque de Castelnau, Causeur.fr, Trump : une croisade sans ingérence. Ce qu’annonce sa nouvelle administration. Disponível em: http://www.causeur.fr/investiture-trump-petraeus-goldman-sachs-42276.html

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