OS ESTADOS UNIDOS E O NEOCONSERVADORISMO – NEOCONSERVADORISMO E POLÍTICA EXTERNA AMERICANA, por STEPHEN MCGLINCHEY – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Neoconservadorismo e Politica Externa Americana 

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STEPHEN MCGLINCHEY, Neoconservatism and American Foreign Policy

E-International Relations, 1 de Junho de 2009

⌈Publicação autorizada pelo autor⌋

Neoconservadorismo é algo de uma quimera na política moderna. Para os seus adversários é um movimento político específico que põe a ênfase na combinação de poder militar com o idealismo de Wilson (Mearsheimer 2005), enquanto para os seus apoiantes é mais a “persuasão” de que derivam indivíduos de muitos tipos e que a praticam. (Kristol 1995: ix). Independentemente de qual é o paradigma que pode ser considerado mais correto, é hoje amplamente aceite que o impulso neoconservador tem-se tornado visível na política externa americana moderna, especialmente na administração de George W. Bush, em que nela deixou a sua marca bem distinta. No presente texto e nesta secção iremos analisar em primeiro lugar a ideologia neoconservadora que se aplica à política externa estabelecendo as bases internas em que foi construída. Em segundo lugar, daremos exemplos da implementação das ideias neoconservadoras que na realidade tem sido analisadas, principalmente através da prossecução da Guerra do terror, e da relação entre a América e Israel. Por fim, avaliaremos se após a mudança de administração em 2009, se permanece vivo na política americana algum do legado neoconservador.

Neoconservadorismo

O Neoconservadorismo tornou-se uma ideologia específica, distinta, ou persuasão, na sequência da agitação cultural e dos motins ocorridos nas universidades no final da década de 1960 na América. Um grupo de estudantes universitários e de intelectuais americanos maioritariamente de origem judaica a viverem principalmente em Nova Iorque, como Irving Kristol, interpretam a situação como sendo o moderno liberalismo a atacar as suas próprias fundações e a sua integridade, a favor do revisionismo social de massas. Nas próprias palavras de Kristol;

“Os liberais estavam errados, os liberais estão errados, porque eles são liberais. O que está errado com o liberalismo é o liberalismo – uma metafísica e uma mitologia que é lamentavelmente cega para com a realidade humana e política “(Murray 2005: 45).

A realidade é que a humanidade é naturalmente má. O socialismo tinha falhado, de modo que a solução foi a procura de uma democracia liberal não secular que abordasse a crise do relativismo (Murray 2005: 46-47). Parafraseando Allan Bloom, mentes americanas que se tinham tornado tão abertas tinham-se tornado a fechar (Bloom, 1987: 337-339). Os primeiros neoconservadores procuraram reorientar a política americana interna, aproveitando os fundamentos morais disponíveis que a religião fornecia, sem serem necessariamente eles próprios religiosos e moldaram-nos em conjunto com a ideologia platónica através da leitura possibilitada por Leo Strauss, que é frequentemente citado como o pai ideológico do neoconservadorismo, embora no quadro da persuasão o seu impacto é muitas vezes subestimado (Murray 2005: 37). O uso da religião era simplesmente devido ao fato de que o conjunto da moral judaico-cristã dava um claro sentido do que é correto e do que é errado e era este sentido que poderia ser aproveitado. Encontrar a moral através de ideais seculares significaria que se caminharia para a falência moral, para o crime e para o insucesso (Kristol 1995: 365). No verdadeiro sentido platónico, os neoconservadores tinham considerado o que para eles era melhor para a América e sentiram o dever de orientar a população equivocada, e mais tarde o mundo através da aplicação da via neoconservadora na política externa, nos seus diversos sentidos. Tendo encontrado uma identidade na esfera política interna americana, os postulados para a política externa foram a sua consequência. Irving Kristol descreve três pilares centrais; uma forte ideia de patriotismo, uma rejeição clara de qualquer coisa que se assemelhe com ou aponte para um governo mundial, incluindo a rejeição inequívoca da Organização das Nações Unidas e da NATO – que estão “em vias de se tornarem moribundas” (Kristol 2003: 367), e, finalmente, a ideia de que os estadistas devem distinguir claramente os amigos dos inimigos (Kristol 2003: 2). Esses pilares são fundidos com uma forte moral maniqueísta que obriga os Estados Unidos a utilizarem o seu poder em nome do Bem Comum em vez de o guardarem para si-mesmo. Isto tornar-se-ia brutalmente claro na Guerra de Bush contra o terror, mas pode ser identificado como vindo mais de trás, desde o início das administrações dos anos Reagan e Carter, segundo Francis Fukuyama (2006: 45). Em oposição direta à prática em tempo oportuno da realpolitik nos assuntos externos, a política externa de um país deve representar o seu caráter moral interno. Manter alianças com ditadores e regimes desfavoráveis é, portanto, abominável para os neoconservadores. Então, o poder americano tem sido e poderia continuar a ser utilizado para fins de ordem “moral”. O Iraque é um forte exemplo de ações na época contemporânea e ressalta claramente através da prática a sua mudança de regime e de democratização, no que foi ajudado pela força intervencionista militar como os neoconservadores aplicam a política externa moderna. Os neoconservadores controlam a esfera interna e externa de acordo com um padrão moral e ideológico global e são os campeões no uso do militarismo para reforçar globalmente este mesmo padrão. Eles não ignoram as questões de um poder menos duro, mas o seu objetivo é o contrário, “quando a sua única ferramenta é um martelo, todos os problemas parecem precisar da utilização de pregos” (Fukuyama 2006: 63). Posto de forma mais evidente, “o mundo está à deriva, e para a nossa própria segurança é necessário que seja amarrado” (Murray 2005: 55). Os neoconservadores acreditavam, na viragem do século que só eles possuíam os fundamentos morais e ideológicos para orientar as relações internacionais para o benefício de todos e que os Estados Unidos estavam abençoados com esta ocasião única de prosseguir uma tal missão.

“Os americanos devem compreender que o seu apoio à proeminência norte-americana é tanto uma luta pela justiça internacional como qualquer outro povo é capaz de o entender ” (Kagan & Kristol 2000:24)

Na era pós guerra fria

Na era pós guerra fria os neoconservadores identificam-se claramente com as teses defendidas no livro O Fim da História? ou seja, com as teses de Fukuyama (1989). Isto pressupõe que a democracia liberal vai-se espalhar globalmente na esteira do Ocidente estar a emergir triunfante na guerra fria, tornando assim todas as orientações políticas opostas à sua como obsoletas. O suporte para a democratização e a disseminação das instituições liberais em áreas não ocidentais parece razoavelmente convencional quando é aplicado ao lado do cosmopolitismo kantiano e da tese da ‘Paz democrática’ de Doyle; no entanto, ganha o seu sabor característico neoconservador quando a utilização de de políticas de intervenção militar para levar à democratização de uma determinada nação alvo são postas em prática e artificialmente aceleradas nesse processo. Na verdade, é a aplicação desta estratégia que causou a massa crítica do conjunto de medidas que constituem o pacote da política externa no post 11 de Setembro mundial. Em 2006, escrevendo sobre a guerra contra o Terror que descreve como “predominantemente moldada pelos neoconservadores” (2006:3), Francis Fukuyama abandona a sua  persuasão neoconservadora e condena a utilização da moralidade e da ideologia na política externa precisamente… porque à América não resta nenhuma credibilidade moral no que diz respeito ao Médio Oriente, em resultado de ações passadas e presentes (2006:187). Esta falta de credibilidade tem comprovadamente reduzido o prestígio internacional americano e levou à suspeita de que os esforços de democratização são um véu para o imperialismo e um meio para controlar o acesso às reservas de petróleo do Oriente Médio, representando essencialmente uma política regional inalterada desde os tempos da guerra fria. Como a ideia de democratização tem tido altamente degrada e tem sobrevivido à era neoconservadora da administração Bush, uma justificável suspeita permanece sobre a sua legitimidade, agora que tem sido contaminada com as consequências da guerra contra o Terror, através de aplicações trôpegas no Afeganistão e no Iraque.

A Neoconservadora Guerra ao Terror

Os eventos de 11 de setembro forneceram a oportunidade para aqueles que com uma persuasão neoconservadora ganharam destaque na administração Bush tanto quanto conseguiram oferecer uma lógica perfeita e disponível imediatamente com que viram a nova era pós acontecimentos de 11/9 apontar para um legado de literatura e ignoraram os avisos de um futuro perigoso. Durante grande parte da década de 1990, a literatura neoconservadora foi proliferando em oposição à Nova Ordem Mundial da paz, oferecendo a visão de que a paz por esta oferecida era enganadora e a América deveria utilizar The Unipolar Moment (Krauthammer 1990) para criar uma era unipolar do poder americano sem igual projetada globalmente (Kagan, 2002: 136-138). Esta escola de pensamento, embora tivesse ainda uma posição aparentemente marginal, é validada, pelo menos em parte, por muitos académicos de nomeada e de matriz neoliberal. John Ikenberry reconhece que a ordem global é um sistema americano baseado na condição de que “os Estados Unidos tornem o seu poder seguro para o mundo e, em troca, o mundo aceite viver dentro do sistema americano.” (Ikenberry 2001: 21). Krauthammer descreve o sistema americano de forma ainda mais espantosa: “sem problemas de ordem moral, devem estabelecer-se as regras da ordem mundial e estar preparado para as aplicar” (Krauthammer 1990: 33). Os dois autores claramente não expressam nenhum desejo para que isso mude, Ikenberry prevê o perigo potencial da projeção de um excesso de zelo pelo poder americano, reconhecendo que “Isto tudo pode complicar-se ” (Ikenberry 2001: 31). A complicação ou perigo neste sistema é a possibilidade do poder americano se afastar da postura multilateral e global da era de Bush pai (de Bush 1) e da Administração Clinton para uma situação de poder de características unilaterais e de natureza conflituosa.

Afastando-se momentaneamente na semântica das Relações Internacionais, Michael Lind sublinha claramente a diferença entre o institucionalismo neoliberal – no qual ele situa o próprio Ikenberry e o presidente Bill Clinton, e o internacionalismo neoliberal. O internacionalismo neoliberal é, na descrição de Lind, uma evolução da tradição de Roosevelt à autodeterminação e à não-agressão como o fundamento das relações internacionais, uma visão semelhante à de Bush I. em termos de Direitos Humanos, da liberalização do mercado global e da democratização; todos interligados com o institucionalismo neoliberal, são objetivos mais elevados “que devem, todos eles, ser promovidos mais pela exortação do que pela coerção” (Lind 2006). Não é exagerado ver aqui uma semelhança entre institucionalismo neoliberal e neoconservadorismo. Ambos apontam para a hegemonia global norte-americana, embora de maneiras diferentes. Lind sublinha este ponto expressando que a única diferença entre os dois é que os neoliberais são desonestos quanto a admitirem as suas intenções para o poder Americano , enquanto os neoconservadores estão abertos sobre isso. O desacordo assenta sobre que tipo de império deve a América ser; Império disfarçado através de instituições multilaterais e usando o poder de forma branda para esconder a verdadeira realidade da dominação global americana, ou um império global apoiado na utilização aberta do poder duro e do unilateralismo. Independentemente disso, os objetivos finais em ambos são os mesmos o que, de novo, levanta preocupações sobre a legitimidade dos verdadeiros objetivos desta atual política externa norte-americanos como é o caso com a democratização. A posição da Lind é uma nuance interessante, uma vez que sugere que há muito mais de um fluxo lógico de Clinton a Bush na abordagem que estes fizeram da política externa, apesar das mudanças estruturais sentidas na estrutura política no após 9/11.

Os neoconservadores lamentam os anos Clinton como um período em que a América não capitalizou a oportunidade que se tem uma vez na vida de cimentar a sua posição de liderança no mundo como ele era, um mundo unipolar. Colin Powell, por exemplo, condenou a decisão de Clinton transformar o processo de decisão da política externa como pouco mais de que uma reunião de chá e café em que se conversava sem que houvesse uma voz dominante nesse processo. (Brzezinski 2007: 87). O golpe fundamental que foi 9/11 abalou duramente a consciência nacional e foi uma oportunidade com a qual se pressionou para que houvesse uma nova liderança para a América e se despertasse assim o establishment político do sono em que se encontrava no pós-Guerra Fria. Rapidamente, após o acontecimento 9/11, o presidente Bush converteu-se à persuasão neoconservadora, o que é bem visível no seu discurso de West Point de 2002 e mais ainda na Estratégia de Segurança Nacional de 2002. Em ambos se delineou publicamente a nova direção da política externa de Bush e se reintroduziu o neoconservadorismo como quadro de referência na política externa americana. Em West Point, Bush fez a importante observação:

“Não podemos colocar a nossa fé na palavra de tiranos, que solenemente assinam tratados de não-proliferação e, em seguida sistematicamente os rasgam. Se esperarmos que as ameaças se concretizem totalmente, então vamos ter de esperar muito tempo “(Bush, 2002).

Esta declaração introduziu a preferência pela política da força como uma característica pró-ativa da política externa americana tanto na sua descrição como na sua posterior utilização embora esta tenha sido mais corretamente uma política de força preventiva – o que é um grau de magnitude acima de preempção e que tem grandes implicações para a estrutura do sistema internacional e que através do direito internacional é largamente interpretado como ilegal. Ainda no mesmo discurso Bush invoca um absolutismo moral extremo:

“Alguns temem que isto seja pouco diplomático ou pouco polido para falarmos de alguma forma em linguagem de certo e errado. Eu discordo. Circunstâncias diferentes exigem métodos diferentes, mas não uma moral diferente. A verdade moral é a mesma em cada cultura, em cada momento do tempo e em cada lugar “(Bush, 2002).

Ligar a ideia de uma finalidade moral à política externa não é uma atitude rara na política americana, mas usá-la tão empenhadamente para definir a nova Guerra ao Terror desencadeada por Bush em conjunto com o seu desprezo publicamente assumido pelas instituições multilaterais, isso é novo, e a sua postura unilateral é sem dúvida inspirada se não subscrita diretamente por uma dose significativa do neoconservadorismo.

A estreita ligação entre a persuasão neoconservadora e as políticas de administração de Bush, e mais ainda, em 2002 a National Security Strategy considerava que: “a guerra… é uma empresa global da duração incerta” (The National Security Strategy of the United States of America (NSS) 2002 : e que “ a única via para a paz e a segurança é a via da ação” (NSS 2002: IV). No texto de 2006 da NSS o Presidente Bush continuou a afirmar a retórica neoconservadora apesar da dificuldade e de perda em curso de apoio sobre a guerra no Iraque, considerando que a América escolheu a “liderança sobre o isolacionismo” e se esforça “ por moldar o mundo e não simplesmente ser moldado por ele ” (NSS 2006: iii). Muito foi feito de um “retorno suposto ao realismo” pós 2006, especialmente marcante a partir da saída de Donald Rumsfeld do Pentágono. Contudo, apesar de uma retórica geralmente mais aligeirada da Casa Branca devido à oposição interna crescente, à baixa da taxa de apoio popular à politica seguida e ao braseiro do Iraque, a pressão geral do pacote de política externa foi mantida. Adicionalmente, o documento de 2006 de NSS continha claras e especificas ameaças aos “Estados fora da lei” tais como o Irão, mais do que estar a repetir a linguagem vaga e generalista do texto de 2002, e manteve com grande relevo a disposição para aumentar a utilização da ação militar preventiva.

(continua)

________

Ver o original em:

http://www.e-ir.info/2009/06/01/neo-conservatism-and-american-foreign-policy/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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