Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação – Texto 7. Trump relança Keynes. O que verdadeiramente diz o seu programa económico , por Jean Luc Gréau

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 7. Trump relança Keynes. O que verdadeiramente diz o seu programa económico

por Jean-Luc Gréau

23 de dezembro de 2016

O programa económico do futuro presidente está em rutura com a obsessão monetária que prevaleceu desde Reagan a Obama. Mas nada prova que o seu voluntarismo keynesiano não venha a ser corroído pela recessão que se anuncia.

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O tumulto que acompanhou a eleição de Donald Trump não facilita a compreensão de todas as questões, incluindo as económicas. Muitas perguntas se levantam: será que escolhe desafiar os dirigentes de Pequim para reavaliarem a sua moeda e isto no momento em que as exportações chinesas estão a evoluir de forma mais lenta? Trump vai atirar às urtigas os tratados de livre comércio, incluindo o famoso TAFTA? No momento em que os Estados Unidos esboçam uma viragem protecionista, os últimos defensores do livre comércio incondicional estão em Pequim, cujas empresas são favorecidas pelos seus custos de trabalho, e também em Bruxelas, apesar dos danos causados às economias europeias pela concorrência desleal e distorcida.

Sejamos cuidadosos. As promessas comprometem apenas os que as compreendem. A fórmula, atribuída à Henri Queuille e Charles Pasqua, deveria figurar em epígrafe nos programas eleitorais. Não é certo que a administração Trump passe à ação neste terreno fundamental, nos planos económico e ideológico. E é por isso que sem dúvida que as Bolsas americanas não penalizaram o voto de 8 de novembro. Bem pelo contrário.

Mas há um domínio onde os novos líderes deveriam quebrar a rotina. Desde há vários lustres que a tarefa de pilotar a economia é confiada, de maneira primordial, ao banco central. Foi o banco central que jugulou a inflação a dois dígitos em 1980. Foi o banco central que relançou a atividade cada vez que havia uma recessão. Foi o banco central que salvou o sistema de crédito em falência, após a implosão do Lehman Brothers, baixando de maneira drástica as taxas do crédito para revalorizar os créditos detidos pelos bancos. É o Banco Central que tenta desde há dois anos uma difícil operação “de reflação” para combater a deflação galopante procedente da grande recessão.

Ora, no bricabraque que é o programa do candidato Trump, há um ponto essencial: a política monetária não será o alfa e o ómega da política de controlo do sistema. E, além das orientações protecionistas, não é impossível que se veja emergir uma nova conceção das receitas e das despesas federais.

Taxar os ricos, reduzir os impostos às empresas

Assim, pela primeira vez desde os anos 1970, trata-se de sobretaxar os rendimentos dos ricos. O princípio é incontestável. Barack Obama não alterou a trajetória seguida desde a chegada ao poder de Ronald Reagan: os rendimentos das classes muito ricas e ricas são os únicos a aumentarem. Neste preciso momento o aumento dos salários está concentrado sobre o decil de rendimentos mais elevados, os 10% mais ricos das famílias americanas. Aumentar a contribuição dos mais ricos não é o resultado da demagogia. O multimilionário Trump poderia muito bem ser aquele que o quer e que o poderá fazer.

É questão também de reduzir os impostos às empresas. A coisa parece incoerente. No papel, sofrem uma taxa sobre os lucros de 34%. Na realidade, a grande massa das empresas cotadas paga um imposto bem menor. Os grandes grupos praticam abertamente a otimização fiscal, explorando todos os nichos deslocalizam os seus lucros para paraísos fiscais como a Irlanda ou Singapura. Os promotores construtores, como Donald Trump, na prática estão isentos! A redução prevista a15% da taxa de tributação teria um impacto verdadeiro apenas para as PME.

Um crescimento total das despesas

Os meios de comunicação social franceses apenas referiram: o programa do presidente republicano eleito situa-se em oposição exata aos programas dos candidatos republicanos franceses [1]!

Em primeiro lugar, Donald Trump afirma a sua vontade de proteger as despesas de saúde financiadas sobre fundos públicos, contra as intenções afirmadas pelo seu partido. Não poderia ele, então, aproveitar-se do malogro do Obamacare, inverosivelmente dispendioso para os seus assegurados[2], para passar para um sistema de seguro na doença à europeia? Vindo de um homem tão inesperado e imprevisível, esta viragem revolucionária não deve ser inteiramente excluída.

Em segundo lugar, como a sua rival Hillary Clinton, Donald Trump anunciou um grande programa de infraestruturas. Não há nenhuma necessidade de Keynes para as justificar. As infraestruturas americanas, totalmente obsoletas, sofrem na comparação com as de numerosos países asiáticos. É necessário refazer as estradas e as autoestradas, os aeroportos e, por fim, instalar linhas de comboios de alta velocidade, os TGV. As despesas necessárias poderiam atingir 10 milhões de milhões de dólares ao longo dos dez próximos anos, ou seja, 5 pontos percentuais de PIB anuais.

Em contrapartida, as despesas militares seriam reduzidas. O novo presidente pede aos seus aliados que ponham a mão no bolso para assegurarem a sua própria segurança[3]. Continua por se saber se passa das ameaças à ação. Para isso terá que impor o seu ponto de vista a um Congresso republicano que sempre esteve ao lado do complexo da indústria militar. Poder‑se‑ia por conseguinte assistir um crescimento do investimento público e do défice, esperando os conselheiros de Trump limitar o impacto recorrendo a parcerias público-privados até agora de contornos muito indefinidos.

A caminho do desconhecido

A chegada repentina de Donald Trump tem sido comparada por alguns à de Ronald Reagan. Mas as situações diferem ainda mais do que as personalidades. Ronald Reagan instalou-se enquanto o poder americano beneficiava do declínio geopolítico da União Soviética ou em que ainda não sofria a concorrência devastadora da China e da sua economia, purgada de inflação, saída da recessão. Donald Trump tem de enfrentar muitos desafios: lobies económicos e financeiros no interior dos Estados Unidos, e pelo lado do exterior tem de enfrentar a existência de potências emergentes. Além disso, a economia dos EUA aproxima-se do fim do seu ciclo clássico,[4] uma recessão técnica está já a caminho. Além disso, há grandes riscos que ameaçam o sistema económico global: a crise do euro não está ultrapassada, a China é do ponto de vista económico um barril de pólvora.

Se a retoma da economia gera mais défice que atividade económica e emprego, o crédito da nova administração sairá seriamente atingido. Os mercados financeiros marcarão o seu descontentamento, o dólar poderá ser ameaçado. A mesma coisa é dizer que o sucesso do presidente republicano está altamente dependente do sucesso da sua política keynesiana.

Leia o original em http://www.causeur.fr/trump-clinton-programme-economie-tafta-41709.html#

[1] Iremos retomar o tema: em França, pela primeira vez desde a guerra, os programas dos candidatos que poderão ser eleitos, salvo acidente, são francamente recessivos.

[2]. Para sermos diretos e simples, os jovens não pagam para a Segurança Social, não se protegem face ao futuro: os velhos e os doentes quotizam-se para os velhos e doentes.

 [3]  Ainda um ponto de oposição com os republicanos franceses que defendem reduções massivas de despesas militares.

[4]  De oito anos. Relembremos que a retoma data do início da Primavera de 2009.

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