Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 5 – Deliciosas crónicas de uma esquerda em decomposição: Laurent Bouvet entre os zombis – por Matthieu Baumier

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 5 – Deliciosas crónicas de uma esquerda em decomposição. Laurent Bouvet entre os zombis

Por Matthieu Baumierensaista e romancista

23 de Abril de 2017

França Que fazer escolher Macron escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher Texto 5 Deliciosas crónicas de uma esquerda em decomposição

Laurent Bouvet SIPA. 006443439_000028

Politólogo, professor de ciência política, membro da Fundação Jean Jaures, co-fundador e elemento chave do Printemps républicain, Laurent Bouvet tornou-se desde 2012 um dos nossos analistas da vida política francesa, entre os mais lidos. O seu primeiro livro, Le Sens du Peuple, (Gallimard, 2012) e sobretudo o seguinte L’Insecurité Culturelle (Fayard, 2015) têm despertado discussões e debates muitas vezes iniciados a partir de artigos publicados em diversos meios da comunicação social (The Huffington Post, Le Monde, Figarovox, Slate,…). Tanto mais assim quanto Bouvet é muito ativo e seguido nas redes sociais, sobretudo na sua página de Facebook. É normal, faz parte desses analistas que têm o sentido das fórmulas altamente expressivas.

Retorno ao futuro

As crónicas publicadas de 2012 a 2016 estão reunidas sob o título La Gauche zombie. Chroniques d’une malédiction politique (Lemieux éditeur, 2017). Ler ou reler estas crónicas escritas a “quente” é muito interessante: o observador percorre outra vez “os anos Hollande” e esta lembrança de um passado recente (que foi muito desagradável ) alimenta a reflexão sobre o presente imediato, a começar por esta ubuesca campanha eleitoral. Porque Hollande não é “flanby”, é Ubu que faz o seu golpe de Estado fazendo aparecer um Macron “da merditude das coisas”. Golpe de Estado/golpe relâmpago à Ubu que produz uma criatura saída de nenhuma parte. Um possível futuro presidente da República que escapará ao seu Ubu/Hollande criador. Vista do lado desta esquerda, a vida política assusta mesmo. Bouvet observa e disseca a esquerda dos mortes vivos.

As perguntas que incomodam trazem-nos a Primavera

O analista levanta as questões que não são cómodas. Com “a insegurança cultural” em especial. É um sentimento que atravessa toda a França mais do que um conceito, inquietação do povo Francês, de qualquer tipo de proveniência, referenciado por Bouvet logo a partir dos primeiros meses do que se é obrigado a chamar “a Presidência Hollande”. A discussão é muita dela à volta deste conceito/sentimento, tendo Laurent Bouvet, e por ricochete Le Printemps Républicain, sido acusado de fazer o jogo do populismo. Os temas de que fala Laurent Bouvet são, no entanto, bem reais, em França como noutros lugares: numa mundialização que pode ser considerada de tudo menos de mundialização feliz, o povo vive numa insegurança económica e física. Vive também “numa insegurança cultural”. Para Bouvet, “é a esta preocupação que a estratégia “Buisson” devia dirigir-se, ou seja, em torno de se visarem os muçulmanos e o seu modo de vida como sendo uma ameaça para a identidade nacional (carne halal, orações de rua, a burqa etc.). O original tem, como seria de esperar, beneficiado mais do que a cópia“. E é Bouvet a prever: “a esquerda não poderá portanto negligenciar este aspeto face ao qual ela é habitualmente reativa” (2012). Advertência de politólogo sem efeitos: 5 anos depois, a esquerda zombie não moveu uma palha sequer. O seu relatório relativo ao papel do Islão na França é inaudível. Uma esquerda que não vê o concreto: Poor white trash em França para retomar o título de Sylvie Laurent? Sem qualquer dúvida a este respeito. Veja-se o candidato Hamon que compara os cafés onde as mulheres não são bem-vindas com a antiga condição operária descrita por Zola. E isto, enquanto Hollande evoca o possível “de uma partilha ” que é suposto estar a defender-se, a República “Una e Indivisível”.

A guerra civil dos estilos de esquerda

Visto da esquerda, este tipo de análise desencadeia a guerra civil das esferográficas. Esconda-se este real que Ubu/Holande/Macrpn não seriam capazes de ver: globalização infeliz, desemprego em massa, precariedade, medo de desclassificação profissional, crise identitária dos franceses pobres ( les petits blancs), rutura do pacto escolar republicano, islamização de sectores inteiros da sociedade, abandono da soberania, rutura entre as “elites” mundializadas e o povo … Os zombis veem “Islamófobos ” em toda a parte, em todos os lugares, mas nenhum problema republicano fundamental relacionado com as especificidades do Islão. A esquerda zombie fala de tudo isto mas as suas palavras são ocas. O seu programa informático para lidar com estas questões é incapaz de os levar a compreender as causas identitárias das tensões relacionadas com o modelo social multicultural. Ela não se refez da estratégia de “Terra Nova”, definida em 2011, cujo objetivo era fabricar um eleitorado de comunidades em substituição do eleitorado popular perdido. Incapaz de lidar com os problemas sociais como aqueles que reapareceram em cena com a Manif Pour Tous, esta esquerda transformou-se em esquerdas fragmentadas e sem referências, agarradas a posições do século passado. As crónicas de Laurent Bouvet contam-nos isto mesmo, dia após dia: a rápida descida ao inferno de um cadáver que ainda mexe. Uma esquerda cujo único projeto político parece ser o de indivíduos com uma estranha doença: cordonite[1] aguda. Por outras palavras, a arte de manter a sua posição, indo de recusa em recusa. Ler ou reler as crónicas de Laurent Bouvet +permite-nos refazer esta viagem, a caminhada da morte, the walking dead, da esquerda do Partido Socialista. E como muitas vezes, reviver os acontecimentos de uma viagem permite-nos ganhar uma melhor compreensão do seu significado.

Matthieu Baumier, Revista Causeur, Délicieuses chroniques d’une gauche en décomposition : Laurent Bouvet chez les zombies,

http://www.causeur.fr/laurent-bouvet-gauche-printemps-republicain-43853.html

[1] NT. Argot maçónico que se refere à doença imaginária que atinge os maçons que colecionam e exibem cordões e decorações.

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