
A DIVIDA QUE ESTÁ A ESTRANGULAR O PAÍS, O ESTADO, AS EMPRESAS E AS FAMÍLIAS
Acabou de ser divulgado um relatório elaborado por um grupo de trabalho, constituído por um membro do atual governo PS e por economistas da área do PS e do BE, sobre a “Sustentabilidade das dívidas externa e pública”. É um relatório importante, que merece uma leitura atenta pois, por um lado, é o primeiro estudo desta natureza que apresenta um conjunto de propostas concretas, que podem ser criticáveis pela sua minimidade, mas que se diferenciam das declarações generalistas habituais e pouco fundamentadas sobre esta matéria e, por outro lado, tem o mérito de reunir um conjunto de dados importantes sobre a divida pública e externa que permitem uma reflexão e um debate mais aprofundado sobre uma matéria importante para todo o país.
É pena que só tenham participado na sua elaboração economistas de apenas aquelas duas áreas politicas, pois a questão da divida interessa a todos os portugueses, seja qual for a sua preferência politica, e sobre ela há opiniões muito diferenciadas. É pena também que o documento não seja composto de duas partes: uma primeira, que refletisse um consenso mínimo; e uma segunda parte, onde representantes das várias áreas politicas apresentassem as suas propostas concretas para a divida, e que depois com base nela se fizesse um verdadeiro debate nacional. Perdeu-se assim uma oportunidade para que todas as áreas políticas pudessem apresentar as suas propostas concretas, e não ideias gerais, sobre uma matéria fundamental para o país e para todos os portugueses. O debate atual que se pretende dar a ideia que existe sobre a divida, tendo como base aquele relatório, é um debate, à partida, viciado e parcial, que tem o risco de manipular a opinião pública, pois pode criar a falsa ideia que só existem essas propostas concretas para a questão da divida, e que fora delas é a aridez completa, o que não é verdade.
A DIVIDA É UM PROBLEMA NACIONAL E NÃO SE CIRCUNSCREVE APENAS À DIVIDA PÚBLICA
O problema da divida não é apenas da divida pública como poderá induzir o relatório, embora o crescimento e dimensão desta seja um problema grave, como revelam os dados do Banco de Portugal do quadro 1 que abrange o período desde o inicio da crise.
Quadro 1 – Dívida do Setor não Financeiro (Administrações Públicas, empresas e Famílias) e a parcela que é financiada externamente

A dívida do setor financeiro (banca, seguros, fundos, etc.) não está incluída nos dados do quadro anterior. E essa dívida também é elevada. Os dados do Banco de Portugal constantes do quadro 1 abrangem apenas o “Setor não Financeiro”, ou seja, as Administrações Públicas (Central, Local e Regional), as empresas privadas e públicas e os particulares (famílias). E as conclusões que se tiram desses dados são importantes.
Entre Dez.2007 e Fev.2017, a dívida do “Setor não financeiro” aumentou em 30,1%, (+165.805 milhões €), pois passou de 551.628 milhões € para 717.433 milhões €. Deste total 405.840 milhões € (56,6%) é dívida do setor privado não financeiro (empresas+particulares). A dívida de 717.433M€ do “setor não financeiro” é um valor enorme pois corresponde a cerca de 4 vezes o valor do PIB previsto para 2017.
Se desagregarmos a divida total do “setor não financeiro” concluímos que o aumento da Divida Pública atingiu 120,8% (+ 166.722 M€), superior ao aumento da dívida total (30,1% e +165.805M€), pois a divida das empresas privadas aumentou apenas 9% (+21.803 milhões €) e a divida dos Particulares (famílias) diminuiu em -10,6% (-16.898M€). Se a divida das empresas e das famílias é claramente excessiva, a das Administrações Públicas é insustentável pois em Fevereiro de 2017, ultima data em que se dispõem de dados, ainda não se tinha conseguido inverter o ritmo de crescimento. Mesmo limitando à analise à evolução da divida pública na ótica de Maastricht constatamos que ela continua a aumentar – Fev.2016: 231.534 M€; Dez.2016:241.061M€; e Fev.2017:243.490M€ – o que torna a situação ainda mais grave e insustentável.
Se analisarmos agora a parcela desta divida que é financiada externamente, a situação é também preocupante. Em 2007, em cada 100€ de divida total, 23,7€ era financiamento externo, e em 2017 este valor já tinha aumentado para 28€ em cada 100€ de divida. Mas em relação à Divida Pública, a conclusão que se tira é muito mais grave. Em 2017, por cada 100€ de divida pública, 45,9€ era financiamento externo, embora tenha diminuído percentualmente, não em valor, desde 2007, pois neste ano o financimento externo era 65,5€ por cada 100€ de dívida pública. E uma parcela importante do que resta foi financiado pela banca (cerca de 52.000M€) e pelas seguradoras a operar em Portugal, e também pelo Fundo de Estabilidade da Segurança Social, portanto qualquer medida que se tome neste campo tem efeitos em todas estas entidades.
Se acrescentarmos a isto mais alguns dados do Boletim Estatístico de Abril2017 do Banco de Portugal, a situação de endividamento geral do país ainda se torna mais clara e preocupante. Em 2015, apenas 32% do Ativo das empresas era financiado por Capitais Próprios, o resto era financiado por Capitais Alheios (dívida), e uma parcela importante era por crédito bancário (82.389M€ em 2015) e 16,6% do crédito bancário às empresas já estava em incumprimento. Mais de dois milhões de portugueses estavam endividados por crédito à habitação, que totalizava 100.240 milhões € em Fev.2017. Portanto, quando se fala do endividamento do país é neste contexto que ele deve ser analisado e não apenas em relação à dívida pública, que é uma parcela (44%) embora muito importante, pois é toda a dívida que estrangula o país e os portugueses.
A DIVIDA EXTERNA PORTUGUESA É TAMBÉM ENORME CONDICIONANDO O PRESENTE E FUTURO DO PAÍS PELAS DEPENDÊNCIAS QUE CRIA
O gráfico 1 (construído com dados do Banco de Portugal) permite analisar o aumento da divida externa portuguesa, que não é apenas do Estado, desde a entrada para o euro em 2002
Gráfico 1- Divida bruta externa e dívida liquida externa- em Milhões € – 2000/2016


Porque não fazer um esclarecimento à população portuguesa, informar de forma clara e extensível por todos – os letrados e não letrados- de forma a motivar para agir sem as desconfianças/reservas face a esquerda ou direita. E, uma consulta, depois, à população. Estamos a ser empobrecidos quiçá por interesses hegemónicos o que não é inédito na história da Europa. L.A.