Que faze: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 11 – Michel Onfray: «Esta estranha perversão que consiste em alimentar o monstro Le Pen que dizem combater» – Entrevista a Michel Onfray

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 11 – Michel Onfray: «Esta estranha perversão que consiste em alimentar o monstro Le Pen que dizem combater» – Entrevista a Michel Onfray

Publicado por Le Figaro, 24 de Abril de 2017

Texto 11 Onfray

Michel Onfray

ENTREVISTA – O filósofo Michel Onfray analisa os resultados da primeira volta da eleição presidencial e nomeadamente os resultados obtidos pela Frente nacional. Considera que o partido de Marine Le Pen é menos combatido do que é utilizado como espantalho para que nada se altere.

LE FIGARO. – Em 2002, após a ida de Jean-Marie Le Pen à segunda volta da eleição presidencial você fundou a universidade popular. Cerca de 15 anos depois, Marine Le Pen está na segunda volta. Está surpreendido?

Michel ONFRAY. – De forma alguma, porque o que tornou possível a família Le Pen, e desde há um quarto de século que dura esta saga, não foi nem atacado nem combatido. Pelo contrário: tudo o que gerou o seu sucesso foi até mesmo amplificado. Não se combate esta resistível ascensão pela diabolização, mas drenando os pântanos de que se alimentam as suas ambições. Na ocorrência com uma política realmente de esquerda em prol das gentes modestas.

O que é que explica esta estranha perversão que consiste em estar a alimentar o monstro que se pretende combater? Uma razão bem simples: os que mais a criticam mas que continuam a preservar tudo aquilo que a torna possível fazem exatamente parte do que a torna possível.

Explico-me: quando Mitterrand é eleito em 1981, a FN tem uma taxa de eleitores abaixo de 1%. Hoje, Marine Le Pen chega ao segundo lugar da primeira volta com mais de 20% dos sufrágios e é necessário que todos se liguem contra ela, direita e esquerda todos misturados, para que ela não possa ganhar.

Marine Le Pen pode agradecer a muita gente que a tornaram possível desde há mesmo muito tempo:

  • o seu a seu dono, comecemos por François Mitterrand que, renunciando à esquerda com o seu momento decisivamente liberal em 1983 e renunciando também a qualquer soberania, por conseguinte a qualquer possibilidade de fazer política, como resultado de Maastricht em 1992, esvaziou a esquerda da sua substância e entregou os plenos poderes aos mercados;
  • obrigado a todos os socialistas que deram o seu aval a esta viragem à direita do seu campo político e votaram “Sim” em Maastricht, entre os quais está um certo Jean-Luc Mélenchon.
  • obrigado ao PCF que, por razões de boutique (tinha de pagar aos seus quadros e os seus membros permanentes…), se satisfez com a utilização de uma oposição verbal ao mesmo tempo que colaborava durante a noite com esta política que denunciava durante o dia.
  • obrigado ao mesmo Mitterrand que promoveu como novo modelo de esquerda o homem de negócios conhecido dos tribunais e dos guardas de prisão, Bernard Tapie, com uma mensagem simples: o dinheiro é o Deus dos tempos moderno, o patrão é o seu profeta e a esquerda deve estar ao seu serviço.
  • obrigado à Serge July e, já agora, a Laurent Joffrin que, em 1984, em Libération, fez uma memorável operação de marketing e de política com um artigo intitulado: “Viva a crise!” no qual Yves Montand, um antigo estaliniano reciclado na esquerda caviar, censurava os desempregados culpados por não criarem as suas empresas e fustigava estas gentes pobres como culpados de serem uns assistidos.
  • obrigado ao grupo de reflexão e de pressão Terra Nova, o think tank desta esquerda de direita que, em 2012, fazia circular uma nota em que se defendia que era necessário abandonar os trabalhadores, o proletariado, os precários à Frente Nacional, para onde, de qualquer modo, estes já tinham partido (a culpa é de quem? Dessas pessoas …) para se concentrarem sobre o um outro alvo como se costuma dizer: o povo de substituição procedente do pensamento estruturalista – homossexuais, LGBT, imigrantes, fumadores de verdadeiros petardos (drogas), os burgueses boémios contra os proletários.
  • obrigado a essa esquerda que, tornada bom soldado a cuidar do capitalismo e muito preocupada com que o capitalismo disponha de uma mão-de-obra barata, considerava a imigração como “uma sorte para a França” e que gerou esta híper proletarização de um mundo cuja vanguarda imaginou a salvação num Islão inimigo político da liberdade, igualdade, fraternidade, do secularismo e do feminismo.
  • obrigado a esta esquerda caviar e a esta direita “Cassoulet” na época de Hollande e de Chirac e, depois, no tempo de Sarkozy, por terem desprezado o povo quando, em 2005 votou Não à fórmula liberal da Europa, e em 2008 estes vendidos, mesmo assim, impuseram essa Europa através da mobilização dos representantes do povo contra o povo, o que foi sentido e entendido pelos defensores do Não como um golpe de estado, como uma verdadeira negação da democracia.
  • obrigado também a todos os defensores das guerras que, por detrás de BHL, Kouchner, Pierre Bergé, Valls, todos eles apoiantes agora de Macron, justificaram e legitimaram as guerras que destruíram Estados muçulmanos laicos, como o Iraque e a Líbia. Estas guerras geraram uma anarquia que está na origem dos fluxos migratórios em toda a Europa, geraram milhares de mortes no Mediterrâneo e custaram 4 milhões de vidas muçulmanas em todo o planeta.
  • obrigado também a Pierre Bergé que diz claramente que as mulheres pobres tinham sobretudo que alugar o útero para os ricos, que desejam comprar uma criança, sendo isto considerado um grande passo no avanço da esquerda…

Compreende-se que nenhum dos que têm, assim, tornado possível Marine Le Pen não possam fazer outra coisa que não seja transformá-la num Demónio, enquanto têm conscientemente alimentado o demónio que eles dizem odiar desde há um quarto de século, mas que lhes é muito útil para conseguirem que a Presidência da República esteja sempre assegurada por um dos seus – um amigo do capital…

Pela minha parte, eu não tenho defendido nada nestes 25 anos que tenha tornado possível esta realidade…

LE FIGARO. – Em 2002, o senhor recusou desfilar em companhia “do patronato e do bispado” contra Jean-Marie Le Pen. Pensa Onfray que as manifestações e a Frente republicana não são eficazes?

Michel ONFRAY. – Todo este pequeno mundo anda a brincar ao pregar sustos uns aos outros e a meter medo aos outros e eu não sou do género de ter medo a não ser do que merece que se tenha medo. Quando um candidato está na segunda volta das presidenciais face a Le Pen, há a certeza de que vai ser eleito. Estas eleições são, objetivamente, eleições a uma só volta. É por isso que toda esta camarilha precisa dessa mulher e faz tudo o que for preciso para que esta esteja presente na segunda volta.

Quanto ao termo “frente republicana”, esta merece pelo menos que se pergunte que lições de Republicanismo é que têm para nos dar todos aqueles que são uns verdadeiros nulos e que não aceitaram um referendo que não lhes convinha ? Eu vejo muito pouca gente que esteja habilitada para nos dar lições de republicanismo nesta famosa Frente…

LE FIGARO. – O senhor escreveu um livro de campanha, La cour des miracles, (Éditions de l’observatoire) que será publicado em Maio. Como é que descreve esta campanha?

Michel ONFRAY. – Lamentável, patética, uma nulidade… As verdadeiras questões não foram abordadas: quem é que falou de identidade nacional? Quem é que falou do futuro da nossa civilização? Quem é que apresentou propostas geoestratégicas que permitam substituir a França no mundo? Quem é que falou em projetos de topo de gama para o nosso país no próximo quarto de século? Simplesmente, ninguém…

Eu previ sem grande risco que esta eleição permitiria mudar o homem, mas não a política – que é mais ou menos a mesma desde 1983. Este foi aliás o motivo do meu abstencionismo – nem pensar votar numa eleição cujo resultado é conhecido de antemão. Aliás, não me enganei.

LE FIGARO. – Diria Onfray que a emoção, a indignação, a moral ocuparam o lugar do raciocínio e da arte política?

Michel ONFRAY. – Eu diria que esta eleição presidencial é uma máquina formidável para vender papel de jornal e aumentar a taxa de audiência dos media para os anunciantes. Para conseguir isso, foi necessário construí-la como um reality show sobre o princípio crístico: anunciação (apresentação das candidaturas), natividade (entrada nas sondagens), aparição (incluindo sob a forma de um holograma…), profecias (programas ), sermões (as quantificações nos programas ), pregação (o Paraíso na terra em caso de eleição), homilias, preces, processos (roupas oferecidas, despesas parlamentares pagas por uma outra coisa, carros de função depois de terem deixado a função, cunhas para os filhos, declarações de rendimentos por entregar…), tribunais (mediáticos), a condenação pelos media (“os grandes títulos” da imprensa), crucificação (catódica), agressões virtuais (pacotes de farinha, batedelas de caçarolas, ovos atirados), paixão (dia da votação), ressurreição (eleição) – antes do retorno de um novo profeta que quererá ser vizir no lugar do vizir…

Mas tudo isto é uma fábula. O essencial está algures. O Capital põe em cena estas diversões o que lhe permite ficar na sombra e continuar a trabalhar na sua obra, tranquilamente. Na segunda-feira, é dia de retomar o trabalho; e nada mudou.

Leia em http://boomerang2017.fr/actus/le-figaro-michel-onfray-cette-etrange-perversion-qui-consiste-a-nourrir-le-monstre-le-pen-qu-on-pretend-combattre

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