Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 10 – Que circo! Analisando as eleições francesas, por Will Denayer

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 10 – Que circo! Analisando as eleições francesas, por Will Denayer

Publicado por Flassbeck Economics, em 24 de abril de 2017

A primeira volta das eleições presidenciais francesas terminou. A Figura 1 mostra os resultados (com 97% dos votos contados).

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Macron ganhou, conforme amplamente esperado e previsto. Desta vez as sondagens estavam corretas. Le Pen, que nas sondagens de há um par de meses atingia à volta de 25%, ficou em segundo lugar com 21,43% dos votos. Mélenchon saiu-se muito bem com o seu programa de esquerda – simplesmente não foi suficiente. Hamon ficou em ultimo com uns míseros 6,35%. Hamon é um orador fraco. Não tem carisma e pertence ao partido de Hollande, cuja popularidade pessoal está em agora em 4%, o mais baixo recorde de sempre. Hamon foi o único que evitou a retórica. Não fez longos discursos sobre  la patrie, a sua maravilhosa história e o seu carácter laico secular. Em vez disso, ele abordou a) a reforma da governação económica da UE; b) o investimento público; c) a luta contra o desemprego; d) a reconversão como estratégia contra a mudança climática. Eu gostei dele.

Fillon já afirmou que apoiará Macron na segunda volta. Mélenchon recusa apoiar Macron. Tem sido muito criticado por esta sua posição. Não digo que seja a posição certa, mas é a dele e posso compreendê-la.

A distribuição geográfica dos votos é interessante. Mais do que nunca, a França é um país dividido, quase que se parece com os Estados Unidos, com os seus estados ‘vermelhos’ e ‘azuis’.

França eleicoes volta1 resultados departamentos

Figura 2: Votação por departamentos em França na 1ª volta das eleições de 2017.

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Figura 3: Desemprego em França por departamento. A correlação entre a taxa de desemprego e a votação na  Front National parece ser elevada.

A Figura 4 mostra a relação entre o nível de habilitações escolares e as preferências políticas.

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Figura 4: inferior ao nível do secundário, com o nível do secundário, secundário + 2 (educação superior de 2 anos), secundário +3 e mais (educação superior de 3 anos e mais).

No grupo de pessoas sem o secundário completo, 17% votaram em Melenchon (o que não é mau), mas apenas 4% votaram em Hamon (este é o efeito Hollande), Macron e Fillon obtiveram 19% cada um e Le Pen obteve 30%! No outro lado da distribuição (educação superior de 3 anos ou mais), Mélenchon obteve 20% dos votos – o que não é de modo nenhum mau (deve-se provavelmente às novas gerações de pessoas universitárias que estão cansadas de toda esta disfunção económica). Hamon obteve 10% aqui (a sua maior percentagem de todos os grupos), Macron obteve 30%, Fillon 24% e Le Pen somente 9%!

Pode Le Pen vencer?

Sim, mas será extremamente improvável, muito mais do que a presidência de Trump nos Estados Unidos em 2016.

Nas sondagens Macron ganha a Le Pen por 26%. O mercado de apostas dá uma hipótese de 13% para que Le Pen ganhe (um em sete). O Economist dá a Le Pen uma probabilidade de 1% (com base num modelo assente em sondagens). Muitos questionam a fiabilidade das sondagens, ainda que no domingo tenham comprovado a sua correção. Não é totalmente correto dizer-se que nas últimas eleições americanas todos os institutos de sondagens estivessem totalmente errados. Os modelos utilizados são extremamente variáveis. Por exemplo, Silver deu a Trump uma possibilidade de ganhar de 29% (utilizando um modelo assente exclusivamente em sondagens), enquanto que o Princeton Electoral Consortium deu a Trump uma possibilidade de menos de 1%. Sim, Trump ganhou, mas Trump seguiu atrás de Clinton por aproximadamente 2 pontos percentuais nos estados indecisos (onde se decidiu a eleição) e isso está situado bem dentro do itinerário comum de 2 a 3 pontos percentuais de margem de erro das sondagens. É o que é expectável. Por seu lado, Macron lidera com uma vantagem de 26% (ver aqui).

E que dizer quanto ao hipotético oculto apoio a Le Pen que não aparece nas sondagens? Pode isso fazer a diferença? O fenómeno é bem conhecido: as pessoas abstêm-se de revelar nas sondagens que apoiam a extrema direita ou candidatos ‘politicamente incorretos’. É o chamado desejo social enviesado. Um eleitor que tem um ponto de vista de desprezo em relação a um grupo racial minoritário poderá não querer expressar isso a um estranho numa sondagem telefónica. Bem, Nate Silver investigou essa questão. Ele constatou que não existe evidência de que candidatos como Le Pen excedam sistematicamente os resultados das sondagens. Ao longo de dezenas de eleições europeias desde 2012, os partidos nacionalistas e de extrema direita têm provavelmente ficado tanto abaixo como acima do que indicavam as sondagens. Por outras palavras, o enviesamento não tem aqui qualquer papel (ver aqui).

Na realidade – e isto é verdadeiramente importante – nas eleições europeias desde a vitória de Trump a tendência tem sido os candidatos nacionalistas ficarem abaixo dos resultados das sondagens, embora aqui em relação ao que diz Silver devamos ser cuidadosos: sim, Wilders não ganhou nos Países Baixos, mas não é verdade que o seu partido ‘tenha desaparecido’: ganhou ainda mais 5 lugares que em 2012. Na Áustria, Hofer, ficou consideravelmente abaixo do que indicavam as sondagens na reeleição presidencial em dezembro passado. Segundo Silver, isto é o efeito Trump: Donald não é popular na Europa e a sua vitória não favorece os candidatos que copiam a sua retórica (ver aqui).

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Figura 5: Sim, Le Pen ficou abaixo do que apontavam as sondagens, mas isso não significa que a Front National não esteja a ganhar mais apoios (Fonte: AFP).

Silver conclui: “Se Le Pen conseguir estreitar significativamente a sua diferença em relação a Macron nas próximas duas semanas, os apoiantes de Macron terão motivo para se preocuparem. Mas, se ela continuar atrás com uma diferença de 26 pontos, como na sondagem do dia das eleições, uma vitória de Le Pen seria algo sem precedentes. Ela poderia superar as sondagens tanto como nos casos de Trump e do Brexit em conjunto, que mesmo assim perderia para Macron por quase 20 pontos” (ver aqui).

Acho que isto resume tudo muito bem.

Em marcha para o inferno 

Vivemos atualmente num mundo no qual em cada eleição os fundamentos do ordenamento político existente estão em causa. Estão em causa. Imagine o absoluto horror de uma presidência de Le Pen.

Deste modo, Le Pen tem de ser travada e quando Macron seja bem sucedido, dentro de duas semanas, todos respiraremos de alívio: a democracia e as nossas instituições terão prevalecido e ‘toda a gente’ ficará contente. Sim, toda a gente. “Viva,” dirão os liberais, “Macron é um verdadeiro liberal, como nós. Que se lixe a regulação social”. “Viva,” dirão os conservadores “Eis um  falso esquerdista, alguém que verdadeiramente compreende os negócios. Ele servir-nos-á bem!” “Viva,” dirão os social-democratas, “Ele é um dos nossos – de qualquer modo já esquecemos quem somos, mas isto é precisamente o que queremos: um neoliberal social-democrata promovendo a oligarquia da UE”. “Viva,” dirão os Verdes, “não teremos Le Pen e Macron não é um político tradicional” (o que quer que isso possa significar). “Viva” dirá o capital, “agora poderemos continuar a ter os cortes nos impostos e outras dádivas e que se lixe toda esta conversa sobre investimento, criação de emprego, reforma da governação económica da UE, diálogo social, sindicatos, benefícios sociais e pensões”. Eles já estão a dizer isto – reparem como o mercado bolsista reagiu ao resultado eleitoral: com euforia. “Viva,” diz a oligarquia da UE, “Ele é um dos nossos, construirá um eixo franco-alemão de baixos salários, os ricos ficarão mais ricos e os restantes viverão com o que sobre da Europa. Não temos culpa de que fique a parecer como a Albânia, e para além do mais não queremos saber disso”. “Viva,” diz a extrema direita, sim, perdemos esta vez, mas deixem que aumentem as disfunções e um dia encontraremos um fascista melhor e o poder virá ter às nossas mãos”.

Como se pode ver, toda a gente está contente.

A minha aposta é que as coisas continuarão como estão. Não acredito na hipótese de forquilha: a ideia de que o ‘povo’ se revoltará e perseguirá os ricos parece-me tanto romântica como niilista. E também não penso que a extrema direita ganhará eventualmente o poder na Europa, ainda que isso possa acontecer num par de países – a Hungria e a Polónia por exemplo. Penso que, politicamente falando, em última instância nada acontecerá. A polarização social aumentará ainda mais. Os ricos ficarão constantemente mais ricos. As pessoas instruídas, famílias com dois rendimentos sair-se-ão relativamente bem – desde que não adoeçam demasiadas vezes ou não percam trabalho durante demasiado tempo. Haverá um segmento crescente dos que apenas gerem e um segmento crescente dos que não gerem – os usuários europeus dos bancos de comida, os sem abrigo, as pessoas sem cuidados de saúde, etc., os escravos do novo feudalismo. Ou que outra coisa pensa que acontecerá? “Os trabalhadores franceses simplesmente ganham demasiado,” diz Macron. “Os Britânicos tiveram a sorte de ter tido Margaret Thatcher”. E “o desemprego massivo em França deve-se ao facto de os trabalhadores receberem salários demasiado elevados”. “À luz da situação económica, o trabalho não pago torna-se necessário” (Macron dixit em Davos) (ver aqui). Não haverá ressurreição, nem reorientação ideológica da social-democracia. A esquerda tradicional nunca fará a diferença. É demasiado pequena e está sem estratégia. Não é necessária a extrema direita para que ocorra Noite e nevoeiro (Nacht und Nebel)[1]. As forças ‘democráticas’ já mostraram serem capazes de fazê-lo sozinhas.

Leia o original em Flassbeckeconomics, http://www.flassbeck-economics.com/quel-cirque-analysing-the-french-elections/

[1] NT. Referência à diretiva de Hitler emitida em 7 de dezembro de 1941, visando o encarceramento ou a morte dos ativistas políticos e dos “apoiantes” da resistência, mantendo as famílias e a população na ignorância quanto ao destino dos arguidos. (vd. https://en.wikipedia.org/wiki/Nacht_und_Nebel)

 

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