Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação. Texto 15 – François Fillon: um ultra liberal, candidato do patronato, por Michel Lhomme

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 15. François Fillon: um ultra liberal, candidato do patronato

Por Michel Lhomme, filósofo, politólogo 

Publicado por Metamag, em 4 de dezembro de 2016

Da América à Europa texto 15

François Fillon, um ultra liberal, candidato do patronato

François Fillon, é hoje saudado e aclamado em todos os lugares, mas deve ser recordado que foi durante 14 anos ministro, cinco deles como primeiro-ministro.

Como o escreveu no Tweeter Jean-Marie Le Pen antes mesmo do resultado da primeira volta desta votação, “as primárias pré-presidenciais são uma farsa política, uma técnica tendente a branquear os responsáveis políticos da decadência”. As palavras são fortes mas traduzem uma realidade. Assim, uma parte importante de eleitores de direita, não contentes de terem sido constantemente traídos, desprezados e desapropriados, parece quererem mais do mesmo. Podemos interrogar-nos sobre este enigma de dominação à direita. Alain de Benoist, numa entrevista, sublinha o caráter eminentemente burguês e capitalista em desfasamento completo com o sofrimento do povo francês.

Na verdade, é necessário relativizar: este escrutínio das primárias teve menos de 4,5 milhões de votos, enquanto há cerca de 45 milhões de eleitores, prevendo-se que 36 milhões deles participem na eleição presidencial. Os jogos estão longe de estarem concluídos. Enquanto isso, as redes sociais estarão ansiosas por dissecar o balanço da rutura social e política do país, que é também o de François Fillon.

Na realidade, face aos desafios securitários e económicos do país, as propostas de Fillon são irrisórias. Consistem sobretudo a despojar a França dos seus últimos ouropéis, as últimas linhas de defesa daquilo que resta ainda de um velho estado republicano com a sua vaga ideia, mesmo assim, do que é o “serviço público”. Fillon, antigo gaulista social parece ter tido uma cura de rejuvenescimento no Club d’Horloje, em Davos ou em Bilderberg. Acredita ainda no consenso de Washington e em Thatcher.

De facto, Fillon era a favor da abertura total das fronteiras, envolvendo-se empenhadamente e sem qualquer hesitação, no tsunami migratório. É Fillon que a 17 de outubro de 2002 apresentou aos senadores o seu “contrato de integração” e o seu “projeto cívico” para os imigrantes. Para que fosse bem compreendido, repetirá no Libération, a 24 de outubro de 2002 que “temos necessidade de uma imigração legal”. É também François Fillon que estará na origem da Alta Autoridade para a igualdade e contra a discriminação (Le Monde, a 11 de abril de 2003).

Designando François Fillon, que foi o Primeiro- ministro de Nicolas Sarkozy durante o seu mandato presidencial de cinco anos, sonhando com um “Fillon Presidente” que esteve em todas as aventuras ministeriais sob a direita, ocupando sobretudo as pastas mais importante como a da Educação nacional de que o naufrágio atual é testemunha do valor das suas próprias decisões, os eleitores de direita mostraram mais uma vez a sua total amnésia.

François Fillon foi ministro do Ensino Superior e da Investigação no governo de Edouard Balladur de 1993 a 1995, ministro dos Correios e das Telecomunicações no governo de Alain Juppé de 1997 a 2002, ministro dos Assuntos sociais, do Trabalho e da Solidariedade seguidamente da Educação nacional, do Ensino Superior e da Investigação nos governos Raffarin de 2002 a 2005 e depois, primeiro-ministro desde maio de 2007 até maio de 2012 sob a presidência de Nicolas Sarkozy.

Durante o seu “mandato de cinco anos” como chefe do governo, a imigração explodiu, a polícia foi desmantelada e ficou sem meios de resposta face aos incidentes suburbanos ocorridos. Privatizou-se o mais possível e a todo o custo, aumentaram as taxas e os impostos a um nível sem precedentes em França e continuou-se a aumentar os défices ao espalhar o assistencialismo por todo o lado e por toda a gente, na metrópole como no ultramar.

Além do mais, Fillon, apesar da austeridade católica que mostra, é também um oportunista. Pode ser alternadamente antieuropeísta (votou contra Maastricht), seguidamente europeísta (defendeu o referendo), gaulista social como o seu mentor em política Joël Le Theule e o seu modelo de pensamento político de referência, Philippe Séguin, depois ultraliberal hoje em dia, tendo mesmo chegado a pensar trazer para o governo o presidente da Axa e presidente igualmente de Bilderberg, Henri de Castries. É também capaz de traição a começar por Sarkozy, contra o qual pediu, aquando de um almoço secreto com o socialista Jean-Pierre Jouyet secretário geral do Eliseu, a 24 de junho de 2014, a ativação dos procedimentos judiciais no caso Bygmalion. Chiraquiano e seguidamente sarkozista, François Fillon, não foi ele, de resto, frequentemente alcunhado de “Coragem, Fillon ou “Falsos, fujamos” que abandonou as suas reformas logo que na sua aplicação encontrou dificuldades? Mas sobretudo, a sua característica essencial não é ela a de ser um puro apparatchik, um puro produto do regime parlamentar desde há mais de trinta anos? Como muitos homens políticos franceses, efetuou toda a sua carreira no RPR e depois na UMP.

Fillon recebeu o apoio de Manif pour tous e de Sens Commun. No entanto sobre a questão de “ casamento para todos”, sempre disse que não pretendia de modo algum revogar a lei. Há algumas semanas, Fillon não era senão o Poulidor da Direita, o eterno segundo como Raymond Poulidor nas corridas de bicicleta, e ei-lo tornado carismático por ter aberto o seu solar no Sarthe à imprensa. Com uma só cajadada, torna-se, no seio dos burgueses e dos bem-pensantes de direita, o homem providencial, o homem certo para a situação, o homem dos belos solares em Sarthe, das corridas de automóveis em Le Mans e dos cavalos. O obscuro François Fillon, homem de nome predestinado (com François Mitterrand e François Hollande, ainda amanhã um “François” jesuíta para governar a França!) acredita nisso, duro como o ferro, mas esquece que o centro não votará necessariamente nele e que os rancores dos apoiantes de Juppé e de Sarkozy podem ter os dentes duros. Os números, de momento mostram que grosso modo 92% dos eleitores não votaram.

Com efeito estas primárias não são tranquilizantes: a eleição de François Fillon aparece como um mal menor, os eleitores das primárias não tinham tido outras escolhas que não a peste ou a cólera. Os Franceses preparam-se para curvar a espinha dorsal e para fazer com Fillon o que tinham já feito com Hollande ou Chirac, escolher um presidente por defeito.

No entanto, se os votos atuais (Polónia, Hungria, Grã-Bretanha, EUA, amanhã a Áustria e a Itália) são qualificados “de anti-sistema”, então são os países ocidentais que estão em vias de mudar de sistema. E nós estamos também assim em França, chegamos no hexágono ao ponto da eterna lei de Pareto, a da renovação das elites, a ser feita quer por perturbações (a guerra), quer por revoluções. Ora, Fillon pertence às antigas elites que, tal como a lapa se agarra à rocha, se agarram ainda desesperadamente ao poder. Com a rosa azul da FN estendida e envolta em celofane e com primárias onde se vota por defeito é, contrariamente, todo um país que reclama novas elites e que tem uma necessidade de renovação, em que a verdadeira questão que se levanta assenta então sobre a natureza destas novas elites e de como as renovar, questão infelizmente toda ela aferrolhada desde há dezenas de anos pelos meios de comunicação social, pelo poder intelectual e pela opinião pública.

Na próxima campanha Fillon utilizará sem dúvida todos os argumentos e de má-fé para esconder o seu balanço, ornamentando-se amanhã com o monopólio da inteligência e vestindo-se com a fraternidade papal dos Domingos para defender os ilegais e a injustiça dos clandestinos.

O debate político já deixou de existir em França. Ele é hoje substituído por anátemas ou excomunhões primárias com um desprezo cada vez mais violento do que é debate (como Juppé e Bergé, evocando em conjunto Vichy a propósito de Fillon). Entramos assim numa outra fase política de que as eleições constituirão sem dúvida para o futuro apenas um epifenómeno, a fase política do fim de um dado mundo e o de uma grande vaga, uma vaga de elites novas que avançarão e se deverão constituir para a criação de uma nova ordem europeia em recomposição.

Ao esperar, será necessário suportar nesta campanha presidencial, ou seja, ler, ver e ouvir os nossos intelectuais e os nossos jornalistas arengarem sobre os mesmos temas de sempre, cantarem as mesmas ladainhas condescendentes, alinharem os mesmos argumentos “das horas sombrias da nossa história” a cem milhas da realidades dos povos e do seu futuro, mas com doutos conselhos solidários.

Mas do que não são efetivamente capazes as nossas “elites” para conservarem o seu poder, um poder no entanto posto radicalmente a nu e sobretudo doravante quase sem polícia, quase sem proteção?

Michel Lhomme, filósofo, politólogo, Revista Metamag, François Fillon : un ultra libéral, candidat du patronat. Texto disponível em :

http://metamag.fr/2016/12/04/francois-fillon-un-ultra-liberal-candidat-du-patronat/

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AF-flyer-A5-inequality-2016

Dia 11 de maio, pelas 18 horas no Grande Auditório do ISCTE-IUL: Conferência sobre como a desigualdade nos Estados Unidos criou Trump. Com a presença de Robert Reich, antigo Secretário de Estado do Trabalho (1993-97) na Administração Clinton. Especialista na área Económica e do Trabalho, Robert Reich é hoje um comentador político com grande reconhecimento nos Estados Unidos, bem como internacionalmente, tendo sido colocado pelo Wall Street Journal em sexto na lista dos “Mais Influentes Pensadores de Negócios”. Nos últimos anos tem-se dedicado ao combate à desigualdade, sendo um defensor do aumento dos salários e das condições laborais como forma de resolver as crises económicas e financeiras.

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