Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação. Texto 18 – Macron, um perigo para a República? por Régis de Castelnau

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 18. Macron, um perigo para a República? O que a Frente Republicana deveria dizer …

Por Régis de Castelnau, advogado

Publicado por Revista Causeur em 15 de março de 2017

Da América à Europa texto 18

Emmanuel Macron. SIPA. 00796942_000020

Pelo facto de ter conhecido todas as eleições presidenciais de sufrágio universal desde 1965, estou siderado face ao espetáculo a que assisto com esta campanha.

Apesar da catástrofe política do mandato presidencial de cinco anos de François Hollande, o traumatismo da agressão terrorista, uma situação económica terrivelmente degradada e a atitude de elites desonradas e ancoradas nos seus privilégios, o povo francês tem sido de uma calma surpreendente na expectativa do ato eleitoral. Não é certo que assim permaneça face a uma tal confiscação do voto, na base de manipulações, de instrumentalizações dos serviços do Estado e de uma propaganda descarada de um aparelho mediático que atua como um bloco unitário. Não é certo que o povo permaneça impávido face à mobilização obstinada da casta, ilustrada pela ladainha das declarações a favor de Macron e pela dos traidores que tinham abandonado Fillon. Tudo deve ser feito para enviar o televangelista a um segundo lugar à primeira volta, o que lhe abriria a ida à segunda volta contra Marine Le Pen. E chegado aí, utilizar o argumento da barragem, o velho slogan “No pasaran” empregado contra a FN desde há trinta anos com o sucesso que se conhece.

Não reproduzir a ratoeira de 2002

No entanto, como não compartilhar a opinião de Frédéric Lordon, ou de Jacques Rancière, quando disseram: “Se Marine Le Pen deve ganhar, isto não seria nenhuma alegria, é claro. Mas temos de tirar as conclusões certas. A solução é lutar contra o sistema que produz Marine Le Pen, não em acreditar que vamos salvar a democracia, votando pelo primeiro corrupto que nos apareça pela frente. Eu tenho ainda na memória o slogan de 2002: «vote escroque, mas não vote facho». Escolher o escroque para evitar o facho é merecer um e outro e prepararmo-nos para ficar com os dois”.

O pior agora está em sermos forçados a fazer a pergunta de saber qual de entre os dois que provavelmente se classificaram para a segunda volta, qual deles é o mais perigoso. E, infelizmente, temos de reconhecer que Emmanuel Macron ganha o jackpot.

Durante todo o seu mandato, François Hollande passou o seu tempo a destruir as instituições e a minar a autoridade do Estado. Acreditamos mesmo que ele decidiu destruí-las completamente. Esta é uma situação de grande perigo. A operação Macron é mais do que uma evidência de que se está perante uma tentativa de continuar como se nada tivesse acontecido. Dizer que o televangelista é herdeiro em todos os aspetos do atual Presidente da República é óbvio, mas os métodos usados para fazer com que isso aconteça, com base em violações das liberdades civis e atropelo dos princípios republicanos constituem um muito grave precedente. As instituições democráticas surgirão severamente atingidas, independentemente do resultado das eleições.

A servidão voluntária dos media

Durante este mandato, a liberdade de expressão tem sido muito maltratada. A multiplicação das pressões, recurso sistemático aos tribunais e a adoção de leis aniquiladoras da liberdade (penalizando a frequência de sites de jihadistas, a propaganda anti-aborto, etc.). Até agora, o Conselho Constitucional aguentou, mas por quanto tempo? A criação ex nihilo do televangelista pela instrumentalização sem precedentes dos dispositivos dos media subsidiados, seja dos pertencentes aos oligarcas ou dos que pertencem ao serviço público, atingiu novas dimensões. Os mesmos meios de comunicação têm obedientemente desempenhado o papel que deles era esperado, participando com entusiasmo no golpe contra a candidatura Fillon. Com um duplo objetivo: desqualificação do candidato de direita e abafamento do debate de fundo. O serviço público de rádio e televisão, apesar de sua obrigação legal de pluralismo é o mais zeloso na realização deste trabalho sujo.

Instrumentalização sem vergonha da Justiça

E depois há a manipulação da justiça. Os professores de direito, os advogados, os juristas têm razão em se espantar, em se preocupar, o golpe de Estado contra Fillon continuou imperturbável. E o tempo adotado pelo Ministério Público financeiro (PNF) e o Polo dos Serviços Financeiros de França para tratar o processo do candidato da direita mostra um enviesamento óbvio, sugerindo uma preparação anterior à publicação do Canard Enchainé. Para François Fillon foi rapidíssimo, em contraste com Macron, com as suas migalhas como despesas de representação no ministério, o crime de favorecimento provável que o leva a encontrar-se em Las Vegas com Bolloré, as declarações de património fantasistas, a opacidade total do financiamento da sua campanha, será um longo processo (lento, muito lento), já se conhece a música do PNF. No entanto, a mais alta hierarquia judicial disse que «a justiça tem o seu ritmo com total independência», esquecendo-se de lembrar que ela também deve fazê-lo de forma totalmente imparcial. Palavra que nunca se ouviu. A presidente do Sindicato da Magistratura, o sindicato da galeria de idiotas, acaba por reivindicar esta parcialidade, afirmando sem fraquejar: “O juiz neutro não existe e isso é bom. Não é um ser desencarnado, ele pensa e tem opiniões pessoais. Entre a lei e o caso particular, há um espaço que é preenchido pelo juiz com os seus valores, as suas crenças e a sua pessoa“. Proposta absolutamente inacreditável é o que afirmação representa e que mostra bem até que ponto alguns perderam o senso comum. Neutralidade, objetividade, imparcialidade são os objetivos básicos que devem cumprir as decisões judiciais proferidas em nome do povo francês, como, aliás, em todos os sistemas democráticos e desde há muito tempo. O “juiz neutro” individual não existe, é verdade, mas é por isso que há a justiça e a sua organização. Este tipo de desvio que se viu em ação durante todo o mandato de Hollande encontra a sua caricatura hoje com o caso Fillon. Existirão motivos para acreditar que o televangelista sucessor de François Hollande hesite em usar esses métodos? Pessoalmente, eu creio que não.

As autoridades independentes deixam fazer

Duas instituições essenciais ao funcionamento equilibrado da democracia, a justiça e a imprensa saíram para fora dos seus leitos, transbordaram. Mas não estão sozinhas, o que se chama as “autoridades administrativas independentes”, também fazem o mesmo. A Comissão Nacional de Contas da Campanha, responsável pela monitorização das receitas e despesas dos candidatos, está, obviamente, muda. Assim, ficamos a saber todos os dias bizarrias preocupantes sobre a campanha de “En marche”. Será necessário recordar que todas as despesas expostas por quem quer que seja fora da conta de campanha podem ser nelas reintegradas, uma vez que tenham sido feitas para eleitoralmente beneficiar o candidato?

Foi assim, que a conta de Nicolas Sarkozy em 2012 tinha sido invalidada como resultado da reintegração de despesas efetuadas pelo Estado para uma deslocação do presidente em exercício de que a Comissão considerou que era uma deslocação eleitoral. Dada a propaganda descarada da imprensa, das intervenções governamentais, do caráter escuro de financiamento, a validação da conta de Emmanuel Macron não é de todo óbvia. Todavia, temos a certeza de que tudo se passará sem incidentes de maior.

Um apparatchik sem princípios

Finalmente, há a personalidade de Emmanuel Macron que podemos pressentir a partir de sua trajetória e de uma série de eventos que ocorreram ao longo da mesma. Aqui lembramo-nos, por exemplo, de um episódio revelador e desagradável sobre a compra do jornal Le Monde. A venda aos investidores chineses do aeroporto de Toulouse-Blagnac e a muito obscura venda em saldo do ramo de energia da Alstom à General Electric também mereceriam ser examinadas.

Emmanuel Macron é a solução para esta parte do capital, encarnada pela oligarquia neoliberal globalizada que fez secessão e que arrasta com ela a pequena parte das classes médias que com ela beneficiam. E a campanha eleitoral mostra que essas pessoas estão desesperadas. A burguesia nacional tinha escolhido François Fillon, ela entende a sua dor. Se por desgraça Emmanuel Macron e aqueles que o empregam chegarem ao poder, não há nenhuma possibilidade de que as liberdades civis espezinhadas durante cinco anos e martirizadas desde há seis meses sejam restauradas. Sabemos que a globalização neoliberal de que Macron é o agente, é incompatível com a democracia. Gravemente incompatível.

Régis de Castelnau, Revista Causeur, Macron, un danger pour la République? Ce que le front républicain devrait dire, texto disponível em :

http://www.causeur.fr/macron-vegas-hollande-le-pen-43236.html

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Mas o macrobiótico não escapará a uma Santa Helena. Este IIIº Napoleão não vai ter um destino muito diferente daquele dos doutros.CLV

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