Da América à Europa, de Trump a Clinton, de Marine Le Pen a Macron, o estado subterrâneo em ação. Texto 19 – Mas porque é que se dizem todos «anti-sistema»? Entrevista com Jacques Rancière

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 19. Mas porque é que se dizem todos «anti-sistema»? Entrevista com Jacques Rancière

Entrevista conduzida por ÉRIC AESCHIMANN, publicada por BIBLIOBS em 12 de março de 2017

Da América à Europa texto 19

Jacques Rancière visto por Anne-Gaëlle Amiot para L’OBS (© Anne-Gaëlle Amiot para L’OBS. Retrato feito a partir de fotografia: Ulf Andersen/Aurimages/AFP)

O filósofo Jacques Rancière, autor de “O ódio à democracia” (publicado em 2005, ed. La Fabrique), não está surpreendido pela estranha campanha presidencial. Para ele, confiando todos os poderes aos políticos profissionais, o nosso sistema fabrica mecanicamente candidatos de ruptura.

L’OBS. Da renúncia de Hollande aos problemas legais de Fillon, a atual campanha presidencial é uma sucessão de reviravoltas. Neste show, o senhor é um observador singular. Durante anos, denunciou os impasses da democracia representativa, incapaz de, do seu ponto de vista, em produzir uma verdadeira democracia. Como é que analisa o que está a acontecer?

Jacques Rancière. “Democracia representativa” é um termo mais do que equívoco. Ele transmite a falsa ideia de um povo já constituído que se exprimiria pela escolha dos seus representantes. Ora, o povo não é um dado que preexiste ao processo político: ele é o resultado. Um dado sistema político cria um dado povo e não o contrário. Além disso, o sistema representativo é baseado na ideia de que existe uma classe da sociedade que representa os interesses gerais da sociedade. No espírito dos pais fundadores americanos, esta era a classe dos proprietários agrícolas esclarecidos. Este sistema cria um povo que se reconhece nesta classe de representantes legítimos e reconfirma-o periodicamente através das eleições. Pouco a pouco, o sistema representativo torna-se uma questão de profissionais que se autoreproduzem. Mas ao fazê-lo, tem gerado o seu próprio inverso, a noção mítica de um povo que não é representado por estes profissionais e aspiraria a ter representantes que verdadeiramente o incarnassem. É este o teatro que cada eleição agora reproduz com uma qualidade sempre a decrescer.

L’OBS. A sua visão é muito negra. O sistema está ele intrinsecamente enviesado?

Jacques Rancière. Este sistema é, em princípio, oligárquico e não democrático. E no nosso caso, esta oligarquia perdeu a sua legitimidade quando se viu que os proprietários esclarecidos representavam apenas os interesses da propriedade. Isto é o que veio à luz com as reuniões “republicanas” de 1848 e 1871, predominantemente compostas por ferozes monárquicos contra os trabalhadores e os revolucionários. A oligarquia tornou-se progressivamente a classe de políticos que representam apenas o próprio sistema. O sistema maioritário e presidencialista da Quinta República acelerou este processo. Agora, tem-se dois grupos em que cada um governa em alternância, mantendo todos os poderes, o que reforça a profissionalização; e, paralelamente, a figura presidencial é suposta encarnar as pessoas que esta profissionalização está a trair.

L’OBS. Mas então porque é que toda a gente se afirma ser “anti-sistema”?

Jacques Rancière. Reproduzindo-se, o sistema produz mecanicamente uma distância internamente, um duplo diabólico. Por um lado, o partido maioritário, na verdade, representa apenas um quinto do eleitorado e cria a evidência de que o verdadeiro povo maioritário não está representado. Por outro lado, os partidos de oposição ao poder, que se revezam no poder, vão sendo cada vez mais parecidos entre si. Daí o tema recorrente do povo desprezado e traído. A instituição presidencial, que se afirma representar as pessoas diretamente, aumenta a tensão interna do sistema. Isto produz nichos onde os candidatos podem dizer: “Eu sou o candidato do povo não representado!”. Há o nicho dos “fiéis” que denunciam a traição do partido de esquerda que se tornou como os da direita. Há o nicho de Le Pen, o do povo substancial e sofredor. Há também o nicho Macron: as forças vivas da nação contra a polarização dos partidos. Há também cruzamentos, como Mélenchon, que joga tanto à esquerda fiel como joga com o povo sofredor. Houve uma época em que os partidos dos trabalhadores representavam forças organizadas coletivas que faziam pressão sobre o sistema a partir do exterior. Hoje, o “povo real” é uma figura moldada pelo próprio sistema. Chegamos a um ponto em que não se sabe quem é que está a representar quem: de agora em diante, um multimilionário pode representar o povo desprezado pelos multimilionários.

L’OBS. Ouvimos dizer, à direita e à esquerda, que a política tem necessidade de uma encarnação, ou seja, de dirigentes que dêem um rosto à vontade coletiva.

Jacques Rancière. A encarnação não é um conceito político. É um conceito religioso que deve ser deixado para a religião. Hoje, a sua persistência no plano da política está relacionada com esta ideia de um verdadeiro povo das profundidades que é a presa da extrema-direita. O “populismo de esquerda” pretende arrancar-lhe esta presa propondo um modelo alternativo: o do dirigente que encarna o povo e o constituiu enquanto tal, ao estilo de Hugo Chávez. Mas a encarnação é estritamente contrária ao princípio da democracia.

L’OBS. Mas não houve grandes homens políticos como Jaurès, de Gaulle ou Roosevelt?

Jacques Rancière. As figuras excecionais surgem quando as regras normais do jogo estão quebradas e se tem de inventar uma outra coisa. Há, então, indivíduos que sabem colocar-se à altura das circunstâncias, elas próprias excecionais, ultrapassando o que se esperava deles. De Gaulle em 1940 tomou uma decisão sem precedentes saindo do seu papel de general de brigada. Mas como chefe do RPF, foi um político manipulador como qualquer outro, e a ele devemos a Constituição da Quinta República, que contribuiu fortemente para a degradação de toda a vida pública. A admiração que lhe dedica a esquerda hoje deixa-me rir.

L’OBS. Como é que podemos organizar a vida coletiva sem representantes? Por sorteio, uma medida que o senhor defendeu em 2005, em “La Haine de la Democratie “?

Jacques Rancière. É necessário distinguir entre delegação e representação. Numa democracia, é lógico que alguns preencham atividades por conta de outrem. Mas o delegado mantém a sua função apenas num dado intervalo de tempo, o que não é o caso do modo de representação. A tiragem por sorteio foi o modo democrático normal de nomeação de delegados, segundo o princípio da igual capacidade de todos. Eu propus dar-lhe um lugar de destaque para inverter os excessos da profissionalização. Mas isto não é uma receita simples, como também o não é o simples mandato não renovável. Estes instrumentos só são de interesse se forem assumidos por um amplo movimento popular. A democracia não existe sem esses impulsos surgidos de fora do sistema e que vêm abanar as instituições estatais – como o fez recentemente o movimento Occupy. Isto pressupõe que instituições autónomas relativamente às estruturas e às agendas estatais inscrevam estes momentos igualitários numa perspetiva de longo prazo.

L’OBS. A campanha tem, pelo menos, permitido o aparecimento de um novo tema como o rendimento universal: seja o que for que se pense em substância sobre o tema, não é uma boa notícia?

Jacques Rancière. Isto é um progresso em comparação com Sarkozy, que queria colocar a França de volta ao trabalho ao mesmo que suprimia empregos. Mas o rendimento universal é baseado numa análise contestável que anuncia o desaparecimento do trabalho manual e a robotização generalizada da indústria. A este respeito foi enxertada a ideia da classe de trabalhadores imateriais que lhe daria o seu caráter de reivindicação revolucionária. Ora o trabalho manual não desapareceu, ele foi deslocalizado para lugares onde é mais barato e onde se encontram trabalhadores mais submissos. O rendimento universal tornou-se, assim, uma espécie de extensão da RMI (rendimento mínimo de inserção) e RSA (rendimento de solidariedade ativa), para compensar a desindustrialização nos nossos países, mas não é a medida emancipadora que se pretende que seja. E o seu universalismo é muito limitado. Imagine que este é atribuído às crianças das minas do Congo de onde se extraem materiais necessários para o trabalho imaterial ou aos trabalhadores de fábricas de Bangladesh! Isso mudaria a paisagem.

L’OBS. O senhor apenas vota em casos excecionais. Se Marine Le Pen está com 48% nas sondagens nas vésperas da segunda volta, poder-se-á não deixar cair o boletim de voto nas urnas para a derrotar mesmo que seja um voto para Fillon ou Macron?

Jacques Rancière. Esse é o tipo de dilema que se resolve em cinco minutos, quando chega o dia. Se Marine Le Pen vai ganhar, não se teria daí nenhuma alegria, seja-se claro. Mas temos de tirar as boas conclusões. A solução é lutar contra o sistema que produz as Marine Le Pen e não estar a acreditar que vamos salvar a democracia votando pelo primeiro corrupto que nos aparece pela frente. Eu ainda me lembro muito bem do slogan de 2002: “Vote escroque, mas não vote facho”. Escolher o escroque para evitar o facho é estar a merecer um e outro. E preparar-se para ficar com os dois.

Leia o original em http://bibliobs.nouvelobs.com/idees/20170309.OBS6347/mais-pourquoi-se-disent-ils-tous-anti-systeme-entretien-avec-jacques-ranciere.html

 

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